Projeto “A Filosofia e a Ficção Científica no Cinema” produz conhecimento em debates semanais

Reportagem Júlia de Andrade e Monique Heemann –

Política, religião, existencialismo, música, psicologia e a forma estética que assumem quando retratados nas telas de cinema nortearam os cinco primeiros anos do projeto A Filosofia e a Ficção Científica no Cinema. Na sexta edição, a programação trata do gênero literário que dá forma, em geral, ao medo do desconhecido inerente ao homem – como desastres advindos da inteligência artificial, mutação genética, existência de universos paralelos ou, ainda, sociedades alternativas.

O longa-metragem polonês Globo de Prata (Na Srebrnym Globie), dirigido por Andrzej Zulawski, em 1989, trata das sociedades alternativas e foi exibido pelo projeto no dia 22 de outubro, na Livraria da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), instituição à qual o ciclo de cinema é vinculado. No filme, adaptação do livro homônimo escrito por Jerzy Żuławski, um pequeno grupo de exploradores deixa o planeta Terra em busca de liberdade para criar uma nova civilização.

Projeto de encontros filosóficos  analisa longa-metragens desde 2010      Foto: Monique Heemann

Coordenado pelo professor adjunto do curso de filosofia da UFPel, Luis Rubira, o projeto de extensão realiza sessões de cinema semanais abertas ao público desde 2010. Sem relação com os cursos da área de cinema da instituição, Rubira destaca que a abordagem dada às análises das produções é filosófica e reflexiva. “Profissionais de cinema se detêm mais aos detalhes técnicos, que não são nosso foco”, esclarece.

Cerca de 40 filmes são exibidos de março a dezembro nas sessões semanais. Os debates partem das análises posteriores à exibição do filme feitas pelo coordenador do projeto. A média atual de público, de acordo com Rubira, é de 30 pessoas. “Quando as sessões ocorriam no Mercosul, tínhamos um público médio de 80 pessoas por filme”, relembra, referindo-se ao Centro de Integração do Mercosul, um dos locais vinculados à universidade.

Escolha dos filmes

O processo de escolha dos filmes exibidos pelo projeto começa aproximadamente quatro meses antes do fechamento da programação, feito em dezembro. São mais de 80 filmes vistos, revistos e analisados até que a seleção seja considerada satisfatória e coerente com o propósito do projeto.

Outra tarefa, além da seleção das produções, desafia o professor durante a preparação da programação. Com a opção, em geral, por filmes fora dos circuitos comerciais, obter o arquivo para exibição nem sempre é fácil. “No ciclo sobre política chegamos a ter filmes em VHS”, afirma.

A iniciativa já rendeu artigos e, inclusive, um livro com depoimentos de participantes das sessões de cinema sobre a relevância da iniciativa. “O livro deixa claro o objetivo do projeto, já que temos declarações desde pós-doutores até agricultores, passando por todas as classes sociais”, comenta. Apenas dez cópias da publicação foram impressas e estão disponíveis nas bibliotecas da UFPel.

Professor de filosofia Luis Rubira analisa produções na Livraria da UFPel. Foto: Monique Heemann

Professor de filosofia Luis Rubira analisa produções na Livraria da UFPel   Foto: Monique Heemann

Perspectivas

O filósofo comenta que o interesse por cinema é anterior ao início do projeto. A produção cultural de uma sociedade sempre a reflete – seus anseios, frustações, medos, conquistas e orgulhos – e é, portanto, um material de análise capaz de revelar aspectos inconscientes. Por isso, talvez, a relação próxima com a filosofia.

Rubira afirma que o ciclo de cinema foi planejado para se estender por dez anos. Ele não esperava, no entanto, o retorno que tem visto desde a primeira edição, e destaca que já imagina formas de continuar promovendo a integração e o debate suscitados por produções cinematográficas.

Na sexta-feira, dia 22 de outubro, às 19h, com o início da apresentação de Globo de Prata, todas as vozes na sala silenciaram-se. Cerca de 166 minutos depois, Rubira discorreu sobre os paralelos entre a visão proposta por Andrzej Zulawski e a sociedade contemporânea. Apesar dos 26 corridos após o lançamento do filme, as distopias quase sempre permitem a identificação com situações que compõem a realidade moderna, metafórica ou literalmente.

Transpor o conhecimento produzido na academia à comunidade, qualidade que caracteriza projetos de extensão, é o que acontece quando os presentes, ao serem confrontados com a percepção do filósofo, concordam, discordam, expõem seus questionamentos e suas visões. É o momento mais rico da sessão – há seis anos.

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