A sonoridade que cultiva e nos modifica

Reportagem de Henrique König, Geovane Matias e Marcelo Nascente – 

No Lar Assistencial São Francisco de Assis, o aniversário da instituição beneficente recebeu uma visita ilustre. Atrás de um teclado, postado com a experiência em mãos e a calibrada voz, o músico Osmar Barbosa relembrou sucessos de diferentes tempos, trazendo a essência tocante a corações de variadas idades.

São 57 anos, mais de meio século dedicado ao aprendizado da música. Vai do acordeom, na infância, às notas dos pianos e teclados até hoje. A reportagem é uma conversa com pluralidade de temas, da linha do tempo de sua trajetória, até chegar às interpretações do mundo mercadológico que afeta também à produção e ao consumo das artes.

Osmar Barbosa resgata a história de vários grupos musicais ao longo de décadas Foto: : Henrique König

Osmar Barbosa resgata a história de vários grupos musicais ao longo de décadas         Foto: : Henrique König

O início de uma trajetória

Foi na década de 1960, no bairro Fragata, em Pelotas, que Osmar deu início a um caminho recheado de histórias, daquelas que evocam interesse e nostalgia aos ouvintes. “Meus pais achavam que eu deveria fazer algo a mais além de estudar. Eles optaram por música, que eu não queria, de jeito nenhum. Mas então entrei no Conservatório, onde fiquei até me formar em acordeom. Fiquei dos 11 até os 16 anos.”

Osmar se formou e parou de praticar. Então sua mãe ameaçou jogar fora o antigo instrumento que ele mantinha guardado. Ao ouvir o ultimato, ele deu nova chance à música e voltou a tocar. No verão, quando ficava à frente de casa, as pessoas paravam para vê-lo em ação e, assim, começou a se envolver também com os jovens.

A estrada seguia com a participação em bailes, sempre acompanhado do acordeom e na parceria de um músico com bateria. Eis que, em uma saída de baile, três jovens o abordaram para falar a respeito de um novo projeto, para o qual necessitavam de um acordeonista. Estava surgindo a primeira banda com a participação de Osmar: The Katles.

O batismo é uma mistura do início do nome de uma garota do interesse de um dos músicos e o final igual ao do conjunto dos ingleses de Liverpool: The Beatles. Segundo Osmar, o fundador do nome apenas sugeriu a ideia e não seguiu mais com a banda.

Passados alguns shows pelo Cine Glória e pelo Cine Fragata, ambos localizados no maior bairro pelotense, a ideia foi alterar a nomenclatura do conjunto. O nome The Firsts (Os Primeiros) durou poucas apresentações e a mudança consecutiva pegou Osmar de surpresa. Certo dia, ao chegar para o ensaio, somente viu o novo símbolo a ser desenhado na bateria. Tratava-se da figura de um imaginário réptil e lá surgia, portanto, Os Dragões.

Com maior duração no gosto dos envolvidos, o nome e as noites de música por Pelotas se estenderam por anos dessa forma. Osmar contextualiza a respeito de outro grupo de bastante reconhecimento da época, o M.A. Band. O desempenho destes seguia uma linha de um rock mais pesado e menos habitual aos clubes da época.

Coincidentemente ou não, um dos músicos era sargento da Brigada Militar. Desta maneira, em determinado momento, o policial recebeu um importante comunicado da Censura Federal, barreira a muitos grupos no período. A recomendação foi para fecharem a banda, pois, com o crescente encargo de fiscalizar artistas e estabelecimentos, uma hora sobraria para o M.A. Band e o ato poderia ocasionar prisões e um episódio bastante negativo na carreira do policial.

Com a saída do sargento da M.A. Band, o nome logo entrou em desuso pelos demais compositores da antiga banda. Eles seguiam a linha já com outros créditos. No cenário musical pelotense, o cruzamento com Os Dragões ocorreu quando houve uma inversão: as duas bandas trocaram de bateristas entre elas. Houve também a aparição do responsável por guitarra e voz da antiga M.A. Band para tocar juntamente com a turma de Osmar Barbosa.

Com a devida autorização do ex-companheiro de música, o policial Marco Antonio, houve uma recriação do M.A. Band. Apesar da formação completamente diferente, o nome encontrava determinada censura ao ser apresentado nas portas dos clubes para concertos noturnos. As explicações dos músicos, porém, convenciam e demonstravam se tratar de outra história a ser escrita pela nova M.A. Band.

Osmar segue a viagem no tempo com certo esforço para memorar os outros nomes de bandas com sua participação. Ao recordar, puxa da memória as diferentes casas e públicos, tais como uma cidade de Canguçu mais conservadora e uma São Lourenço do Sul mais propícia ao rock.

O pelotense recorda um episódio marcante a respeito da vinda do grupo The Platters ao Brasil, especificamente a Pelotas. Houve concerto deles, autores de singles como Smoke Gets in Your Eyes e a famosíssima Only You, no Theatro Guarany. Osmar participou. Segundo ele, o baterista porto-riquenho ainda ficou um tempo pelo Estado e tocou mais vezes nesse período.

Os Dragões, banda de Osmar (mais à direita) no início de sua trajetória. Foto: Reprodução de rede social

Os Dragões, banda de Osmar (mais à direita) no início de sua trajetória. Foto: Reprodução de rede social

As diferentes formações dos músicos e o mercado de hoje

Após uma noção de sua linha do tempo, Osmar é questionado sobre questões polêmicas ao redor da profissão. Ele defende que os instrumentistas não precisam ter formação em música para serem bons:

“Assisti num certo dia à discussão de dois velhinhos. E fiquei quieto. Um deles diz: ‘Ah, porque pra mim o Fulano não lê música, ele não é músico. Tem que ler e escrever música, do contrário não é músico’. E o outro: ‘Não tem que saber de escrever porcaria nenhuma, tem é que tocar bem’. Eu fiquei ouvindo e, daqui a pouco, esse que defendia que precisa saber ler música me traz para o assunto e pergunta: ‘O senhor não concorda?’ E eu digo: ‘Lamento, mas eu não concordo.”

“Eu conheço vários, mas muitos mesmo, músicos talentosíssimos e que nunca tiveram uma aula. Até se tu pegas um músico de conservatório, um cara que só lê partitura, ele é bitolado na partitura. Se tirar dele, ele não toca. E são exímios musicistas também, mas se tirou aquilo, acabou o músico”, completa.

Osmar ainda defende quesitos como a criatividade, presente em músicos que captam possibilidades com o ouvido, que não se rendem aos métodos tradicionais de ensino da música.

Questionado sobre o potencial artístico e musical de Pelotas, o pianista destaca três municípios no Rio Grande do Sul. Além da cidade do doce, Porto Alegre, por ser a capital e atrair diferentes pessoas e públicos, e a vizinha pelotense, Rio Grande.

Osmar também analisa a contemporaneidade do cenário para o ramo da música: “Não é que hoje não surjam coisas boas, tem muita gente nova fazendo coisas boas, mas tem também muita droga, muito lixo no meio. A mídia tem que faturar, sabemos disso. Interessa para a mídia o que é vendável, e, às vezes, a pior coisa que tem é o vendável. O que é bom, o que tem qualidade nem sempre é o vendável”. O músico pelotense ainda contesta alguns gêneros musicais por suas apologias ao crime e às drogas.

Quanto ao processo de fazer sucesso repentino e, tão logo, o fim dos 15 minutos de fama dos artistas, o pianista discorre: “Hoje, tudo é muito descartável. A música roda em um determinado tempo, surge outra e faturam em cima desta, esquecem a primeira”, analisa Osmar.

 A música e a tecnologia

Apesar disso, ele aborda a tecnologia como benéfica como auxiliar nas produções musicais. “A tecnologia que existe é uma coisa de espantar. Esses dias me mandaram na internet e eu vi um violão que se afina sozinho. As chaves dele se movimentam sozinhas até chegar à afinação. Não dá pra saber o que esses caras vão inventar mais.”

Questionado se isso é progresso ou regresso, Osmar fica pensativo, mas acredita que seja mais pelo progresso. Despertado pela pergunta, lembra o grupo Creedence Clearwater Revival, banda de grandes aparatos tecnológicos para época e que contava com a genialidade de seus músicos para avançar no tempo.

Censura durante a ditadura militar

Ao introduzir a temática da censura nos tempos ditatoriais, Osmar dialoga com os dois lados das intervenções. Primeiramente, aborda que o incômodo causado era grande, mas também destaca algum respaldo apresentado pelos fiscais. Isso porque as autoridades garantiam o pagamento de shows, por exemplo. Contar com essas vozes era essencial para impedir que os clubes negassem o cachê da noite.

Entre os artistas censurados na época, Osmar relembra o grupo brasileiro Os Mutantes, de Rita Lee, Arnaldo Baptista e tantos outros cantores de sucesso a nível nacional e internacional. Cita também a composição em francês Je T’aime Moi Non Plus, que, para passar na censura para ser executada, era tratada como se fosse outra música.

Alguns eram de fazer vista grossa, mas um dos fiscais era o terror para os músicos na região. “Às vezes, faltava uma letrinha e ele não aprovava, nos mandava a Rio Grande para corrigir. Mas espera aí, eu vou ter de ir a Rio Grande? Não, não, não. Não vou te atender mais hoje” e terminavam assim as conversas, sendo que, para arrumar uma canção, era necessário ir à cidade vizinha para consultar censores.

Passado o período ditatorial e das censuras impostas, um problema na vida de muitos músicos é a pirataria. Osmar Barbosa alavanca a responder sobre essa questão novamente enxergando os dois lados da discussão. “Acho que isso já foi um problema, hoje não é tanto. As músicas vão para Internet e os caras faturam mesmo nos shows que fazem. Conversei com o Luan Santana em uma vez em que ele estava ensaiando, porque eles vivem na estrada, então nem tem tempo para ensaiar. E ele conversou que hoje as músicas vendem muito, mas o que eles faturam é em cima dos shows. Tu imaginas quantos shows por mês faz um cara desses.”

Por fim, sobre a profissão, Osmar analisa o preço das artes no Brasil. Ele acredita que os produtos devem ser mais acessíveis e também considera que os músicos deveriam ser mais valorizados: “A gente sente isso na pele, hoje não tanto, mas já senti muito. Muitas vezes a pessoa faz uma festa, gasta muito em decoração, em tudo e quer economizar na parte musical”.

 

Osmar em apresentação no Lar Assistencial São Francisco de Assis Foto: Henrique König

Osmar em apresentação no Lar Assistencial São Francisco de Assis       Foto: Henrique König

Palestras e ações sociais

Não restrito à música, mas também com a companhia dela, Osmar se aventura como palestrante da doutrina Espírita: “Sou o único cara em Pelotas que faz palestras com música. Não só o espiritismo, mas trabalho o evangelho de uma forma geral.” A ideia de lincar com a música surgiu há alguns anos. Assistindo a um canal espírita, Osmar presenciou um maestro executando músicas para tratar o tema. A fórmula foi testada por ele próprio em uma palestra e pegou. Segundo ele, a aceitação do público é boa, mas a da direção das casas nem sempre ocorre. Existe ainda um tradicionalismo que atrasa essa questão.

Osmar Barbosa também participa há seis anos de arrecadações de alimento para pessoas carentes. As ações de solidariedade caminham junto com a trajetória do músico. “Espírito de barriga vazia vira apenas espírito”, brinca.

Após uma descontraída e plural conversa de cerca de uma hora, a última indagação disse respeito ao que seria a definição de música, que Osmar tanto comentou em meio às falas. Ele enfatiza da seguinte forma: “Música é uma arte na qual nós expressamos o sentimento da alma através do som”.

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