Eu posso não mudar o mundo, mas eu balanço
Festival Sofá na Rua — Palestina Livre leva arte, mobilização política e solidariedade ao povo palestino e transforma o espaço urbano em território de escuta, denúncia e ação coletiva
Cadré Dominguez/Em Pauta

Aula aberta sobre situação de genocídio na Palestina abriu o Festival Sofá na Rua edição Palestina Livre. Foto Tobias Bernardo/Em Pauta
A imensa bandeira palestina tapa os paralelepípedos centenários da lateral do Mercado Público. Uma bandeira realmente grande, imponente, com seus ângulos e cores fortes. Como foi forte tudo que seguiu na tarde ensolarada depois de mais de 10 dias de brumas fortes que assolavam as almas dos habitantes do pântano do sul.
Os dois sentados com o lenço palestino há pouco tempo tinham voltado do território do apartheid nazi-sionista que o Estado de Israel prática contra a população palestina. Desde, ao menos 1948, na perpetuação de um colonialismo brutal e desumano. Igual ao que os europeus praticaram pelo mundo, na América, na África e na Ásia.
Um imenso cachorro amarelo com grandes manchas pretas, bem perto das 14 horas, atravessa a bandeira no chão e se acomoda calmamente ao lado de Vanessa e Muhamad, os dois trazendo no pescoço o lenço preto e branco, o shemag.
– Não há guerra. É um exército massacrando a população cívil palestina. Não dá para entender. O discurso é ordinário. Nunca morreram tantas crianças, tantas mulheres, tantos idosos, tantos jornalistas. Mas não é só uma história de um povo sofrido. Não! Tem uma palavra em palestino, sumud. É um termo sem tradução para o Brasil, mas que pode ser entendido com uma força em resistir, uma atitude mental de pensar o coletivo e resistir sempre. Resistir sempre e para sempre. De nascer, viver, morrer e resistir – emociona-se Vanessa com o microfone nas mãos, sobre o vestido preto e os cabelos claros.
Mais de 50 pessoas já escutavam as palavras duras que aquela mulher jogava nos corações de quem vivia a claridade do sol tão desejada. Olhavam atentas, chegando naquele improvisado anfiteatro ao céu aberto, com prédios de 1800, erguidos pela experiência da escravidão de milhares de pessoas traficadas da África pelos mesmos colonialistas que destroçaram nações em busca de riquezas roubadas, envoltas em tantos episódios de sangue.
– Liberdade! Não existe na Palestina. Fui com a minha família e os soldados dos checkpoints (postos de controle) miravam com armas nos meus filhos. Se tu vens da Palestina, és inimigo. E por qualquer motivo será morto. E isso acontece a todo o momento. É desumano e cruel. É um holocausto. E é por isso que a gente não pode deixar de falar na Palestina. Temos de fazer esta rede de apoios. Não pode parar. E ver vocês aqui é muito bom! Do rio ao mar, Palestina livre já, Palestina livre será – afirma Vanessa.
Após indicar livros para leitura, ela passa a palavra ao homem calvo, com um boné vermelho e novo do MST enfiado na cabeça, o shemag preto e branco no pescoço, começa a falar e descrever com detalhes o cenário cruel do holocausto palestino diário, barbaridades banidas dos livros, dos programas de TV, de sites e redes sociais controlados pelas big techs patrocinadoras da extrema direita mundial. Muhamad tem a fala forte de quem sabe muito bem o que diz, explica, afirma, exemplifica. Um dos articuladores da Frente Palestina de Santa Catarina, professor do colégio de aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e com doutorado em ciências da imagem com o tema o genocídio palestino.
– Percebi que tinha de saber mais sobre a Palestina. O que acontece lá é ainda uma continuação do império britânico, como a prisão administrativa, sem nenhum critério nem defesa. E já com 12 anos uma criança pode ser presa, sem que a família saiba. Incomunicável. O sionismo é uma política de apartheid. Ali eles atiram nas crianças. Nós nunca mais vamos conseguir entrar na Palestina. Quando levei meu pai, ele conseguiu seu sonho, de ser enterrado na sua terra. E as imagens que a mídia hegemônica envia para todas as casas só repete um discurso. O Hamas é um grupo terrorista, os palestinos todos são terroristas, por isso precisamos estar aqui, na rua e falar que isso não é verdade. Não podemos esquecer a Palestina – afirma Muhamad, conclamando os presentes a ações que podem furar o bloqueio de Gaza, onde desde março não entra comida para a população.

Dançarina Fátima Nassar, do Chuy, fez uma apresentação emocionante. Foto: Andrea Amaral/Especial Em Pauta
Depois da dupla responder as perguntas, uma mulher de cabelos muito escuros, com um vestido preto e enfeites dourados, azuis e vermelhos como o batom na sua boca, inicia uma dança segurando uma bandeira palestina acompanhada por uma música típica daquele país.
Ela movimenta o corpo de forma forte, mas com leveza, empunhando a bandeira e efetuando giros e passos cadenciados. Depois pega um bastão dourado com um fio na ponta e faz mais movimentos, encerrando a primeira música. A seguir, a artista Fátima Nassar, convida o público para dançar a segunda música, formando uma roda. Foi um belo exemplo de comunidade e espontaneidade.

Marcha pelo centro da cidade marcou o ato pela liberdade da Palestina. Foto: Tobias Bernardo/Especial Em Pauta
Após as duas danças, a organização do Festival Sofá na Rua com o tema Palestina Livre, Adriana, convoca os presentes, já em mais de 200 pessoas para fazer uma marcha contornando a Praça Central de Pelotas, neste momento repleto de pessoas que visitavam a feira aberta que tomara o local. Aos gritos de “Yanques fora da Al, Israel fora da terra palestina”, “do rio ao mar, Palestina Livre” a bandeira gigante foi sendo carregada, junto com as faixas e cartazes que pregavam o fim do genocídio. As pessoas olhavam e conversavam sobre o inusitado cortejo.
– É a bandeira do país deles – diz uma mãe anônima para uma criança.
O grupo faz o contorno e retorna ao palco do Sofá na Rua, na rua XV de Novembro. O sol e o céu azul fazem as cores preto, verde e vermelho da bandeira ficarem em tons mais vivos. Assim com a esperança de que o massacre palestino perpetrado pelo Estado de Israel não fique esquecido.
O grupo de música instrumental, Orquestrado Sonho, com 3 violinos, dois violãocelo e um violão, deu continuidade a programação eclética do festival. Iniciaram com um clássico do universo musical gaúcho Céu, Sol, Sul, para depois migrar para o nordeste musical com xotes e baiões. Depois foi a vez do trio formado por Hector Rojas, Douglas e Zé Éverton, trazer um pouco de clima latino-americano. Rojas, músico chileno cantou a Inti-fada, um criativo jogo de palavras para colocar o tema da Antifada, luta dos palestinos, junto a realidade andina, onde Inti é o deus Sol. E Inti estava forte e brilhante durante toda a apresentação, cantada em espanhol para um público cada vez maior. A música tem o poder de unir e criar novas narrativas. O colonialismo que o continente sofreu inicialmente pelos saqueadores ibéricos foi substituído pela dominação do capitalismo escravagista europeu e, na atualidade, da dominação dos EUA que apoia e financia o genocídio cometido pelo Estado de Israel.
Com apresentações enxutas, o festival Sofá na Rua transitou por muitos estilos musicais e atuações de artistas, tudo em meio a muitas barracas de comida de rua, venda de artesanato, brechós de roupas e tudo o mais que a criatividade apresenta em sua forma livre leve e solta. E os grupos de pessoas transitavam por todo o oco do centro da cidade, em pleno período da pausteurizada Fenadoce. Ali havia luta política e social viva e atuante. Um espaço que é democrático por natureza, ao contrário da mentirosa democracia israelense.
Na seqüência o premiado músico e compositor pelotense Leandro Maia trouxe o seu guaipeca. Acompanhado de Negrinho Martins no contrabaixo. Um duo primoroso.
– Alguém tem um violão de cordas de nylon? Este aqui talvez não dure uma música – fala Leandro, pois estava voltando do clima seco e quente de Brasília, e mesmo sem a umidade dos últimos dias, o instrumento de madeira recebeu um choque térmico. Logo apareceu atrás do palco um novo violão.
E o público recebeu um choque sonoro de músicas elaboradas, com a temática inicial do Grande Sertão Veredas e seguido da canção tema do show guaipeca.
– Guaipeca não foge de casa porque tem a casa na rua e nunca foge de nada e vai uivar para a lua – canta Leandro Maia, e depois convida mais dois músicos, Caco Xavier e Solismar para fechar a apresentação.

Apresentação de Leandro Maia e Negrinho Martins teve a performace da artista Marina. Foto: Andrea Amaral/Especial Em Pauta
Já era o fim do dia quando David Batuca e Emily Passarinho trouxeram o som afropelotense embalado pelo sopapo, percussão desenvolvida na cidade. Foi um momento de recordar a questão da escravidão e os preconceitos raciais tão fortes no Brasil. Mas sempre com ternura e amor no coração para falar e enaltecer a vida, que sempre pode ser um pouco bela.
– Arenga de dengo é beijo! Pela moenda da vida todo mundo vai passar – canta a inspirada Emily, acompanhada por batuca e os filhos.
Som agradável que afrouxaria a alma dos senhores da terra. Os corpos já sacodem. As pernas movem os corpos no compasso do tambor sopapo. O carrossel do tempo gira sem parar e aglomera os corações. Assim chegou à noite para o “povo de sofá na rua”, como repetia o bordão da apresentadora que chamou a cantora Xana Galo.
A sambista fez uma apresentação só com uma guitarra acústica e entregou para a platéia que já lotava o espaço uma boa seleção de clássicos de música popular brasileira. Competente nos vocais, Xana esquentou o público com belas baladas e deixou o espaço para a chegada dos tambores do Batucantada. Coletivo de mulheres que faz um espetáculo com muito ritmo e balanço apoiado por um time de perscussionista a cada apresentação mais envolvente. Com três cantoras diferentes e um final só na percussão, o Batucantada fez um baile de rua, com todo mundo dançando e integrando os corpos e idéias contra a dominação. Bela fusão de luta e festa! Pessoas conversam e se olham. O embalo suingado traz muitas emoções que faz o povo dançar.
Já era noite, quando a banda de hard rock Marinas Found elevou o volume e fez tremer os ouvidos. Estava pavimentado o caminho para o fecho da noite do Festival Sofá na Rua com o melhor do hip-hop e do rap de Pelotas com D Mix Charme e Bad Liddia . Com o público centrado nas letras e batidas iradas, a celebração pela Palestina uniu o que de melhor pode ser agilizado para mobilizar as mentes que não aceita ser afundadas na vida doutrinada. Ali estava o povo que diz que liberdade é não ter medo. Uma situação.
A construção do festival é fruto de uma grande rede. Sindicatos, movimentos sociais, militantes culturais e artistas atuaram de forma integrada, como destacou Renata Pinhatti: “É a edição com mais colaborações voluntárias da história do Sofá. Desde a técnica de som até os artistas, todos toparam contribuir sem cachê“.
Com informações da Radiocom.





