Preto de Sapato consolida trajetória de mais de 14 anos

Grupo atravessa diferentes fases musicais e afirma, por meio da criação autoral, a memória e a presença negra nos territórios de Pelotas      

Por João Miguel Bueno        

 

Integram o grupo Rogers Lemes, Davi Batuka (produtor e baterista), Eduardo Freda, Êmily Passarinho (vocal) e Mini Ribeiro                  Foto: João Miguel Bueno

 

Há mais de 14 anos em atividade, o projeto musical Preto de Sapato se firmou como um dos coletivos autorais mais consistentes da cidade ao articular música, memória histórica e debate racial. Formado pelo cantor e compositor Eduardo Freda, Davi Batuka (produtor e baterista), Rogers Lemes (guitarra), Êmily Passarinho (vocal) e Mini Ribeiro (baixo), o grupo construiu sua identidade a partir de referências como o samba, o batuque, o carnaval e a música popular latino-americana, combinando esses elementos com uma produção autoral voltada à valorização da ancestralidade negra.

Os integrantes têm trajetórias distintas, mas atravessadas por experiências semelhantes. Criados em bairros periféricos e em contato direto com manifestações culturais populares, eles encontraram na música uma forma de expressão, organização coletiva e atuação social. Para o grupo, a criação autoral sempre foi central, tanto como posicionamento artístico quanto político.

Encontros que deram origem ao projeto

Rogers Lemes, natural de Uruguaiana, fronteira entre Brasil e Uruguai, chegou à cidade para estudar música na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e passou a se conectar com artistas da cena local envolvidos com produção autoral. Foi nesse contexto que conheceu Eduardo Freda e Davi Batuka, músicos com longa atuação na cidade.

Davi, nascido em Santa Vitória do Palmar, se criou em Pelotas, em meio às rodas de samba e batuques de terreiro no bairro do Porto. Em certo momento de sua vida precisou voltar à cidade em que nasceu e lá, longe de Pelotas, percebeu a importância que o lugar em que cresceu tinha em sua vida, em sua criação musical. Então, regressou. Frequentador das rodas de música, conheceu Eduardo Freda, músico e poeta crescido no bairro Ambrósio Perret, às margens do arroio Pelotas, e atraído por seu talento deram início à parceria.

A afinidade estética e de visão de mundo levou à formação do núcleo que mais tarde se consolidou como Preto de Sapato.

 

             Eduardo Freda canta e compõe, dando o impulso inicial paras os trabalhos do grupo            Foto: Divulgação/Instagram

 

Criação autoral e identidade coletiva

O projeto passou por diferentes fases até chegar à identidade atual. Os primeiros trabalhos foram lançados sob a autoria de Eduardo Freda, com o álbum “Raízes e Coração”, marcado por uma sonoridade mais crua e orgânica. Gravado ao vivo, o disco tem forte presença de percussão, referências ao samba de raiz e numerosas alusões à espiritualidade de matriz africana, com menções diretas a orixás, personagens históricos e narrativas ligadas à memória negra.

Na sequência, o grupo passa a se afirmar mais claramente como coletivo ao adotar o nome Quintal de Sinhá, fase que representa um amadurecimento artístico e a ampliação do diálogo sonoro. As composições mantêm a base rítmica tradicional, mas começam a incorporar novas camadas harmônicas, arranjos mais elaborados e temas que dialogam também com o cotidiano contemporâneo da população negra.

Essa transição se consolida no álbum “Roda do Tempo”, que marca um ponto de inflexão no projeto. O trabalho mantém o vínculo com a ancestralidade, mas passa a incorporar elementos contemporâneos, como experimentações sonoras, uso de recursos de produção mais modernos e uma abordagem mais direta de questões sociais atuais. A partir desse momento, o nome Preto de Sapato passa a representar de forma mais precisa o conceito central do grupo.

Segundo o guitarrista Rogers Lemes, a evolução dos álbuns reflete simbolicamente um percurso histórico da população negra no Brasil. “Se a gente olhar para os discos em sequência, dá pra perceber uma metáfora desse caminho: o preto mais ligado à senzala, à dor e à resistência inicial, passando por uma fase de transição, até chegar ao Preto de Sapato, que representa o negro ocupando espaços, se empoderando da própria voz e da própria história”, explica.

Para os integrantes, a criação autoral sempre foi determinante para garantir autonomia artística e coerência discursiva. “Criar é diferente de reproduzir. A criação gera identidade e fortalece o discurso”, afirmam. A discografia do grupo, nesse sentido, reflete uma construção gradual, em que cada álbum dialoga com o anterior, compondo uma linha evolutiva que articula memória, contemporaneidade e afirmação política.

O significado do nome Preto de Sapato

O nome do projeto carrega um significado histórico direto. Durante o período escravocrata, pessoas negras descalças eram identificadas como escravizadas; o uso de sapatos marcava uma condição diferente. O grupo utiliza essa referência como símbolo de emancipação, enfrentamento ao racismo e afirmação de identidade.

Para os músicos, o sapato também representa deslocamento e presença: a ocupação de espaços historicamente negados à população negra. A proposta do grupo é manter viva a memória coletiva e transmitir esse legado por meio da música.

Políticas públicas e sustentabilidade do trabalho

A trajetória do Preto de Sapato evidencia de forma direta a importância das políticas públicas de incentivo à cultura para a sustentação de projetos autorais. O primeiro álbum do grupo foi viabilizado por meio de um projeto cultural financiado por edital público, que possibilitou a gravação ao vivo, a produção de cópias físicas e a realização do lançamento. Segundo os integrantes, esse apoio foi decisivo para que o trabalho pudesse ser concretizado em um momento em que não havia recursos próprios suficientes nem retorno financeiro garantido.

Ainda assim, o grupo aponta que a manutenção de um projeto autoral de forma contínua segue sendo um dos principais desafios. Nenhum dos músicos atua exclusivamente no Preto de Sapato. Para viabilizar a permanência do trabalho, os integrantes conciliam a atuação no grupo com outras atividades profissionais, como aulas de música, produção fonográfica, participação em eventos, shows em outros projetos e trabalhos paralelos no setor cultural. Parte dos recursos obtidos nessas atividades é reinvestida no próprio projeto autoral.

Na avaliação do grupo, editais públicos, leis de incentivo e programas de circulação cultural são fundamentais para a profissionalização de artistas independentes, sobretudo aqueles oriundos de contextos periféricos. Esses mecanismos permitem não apenas a remuneração do trabalho artístico, mas também a realização de investimentos estruturais, como gravações, produção de material, circulação e qualificação técnica, que dificilmente seriam possíveis apenas com recursos próprios.

Os músicos também chamam atenção para a instabilidade dessas políticas no Brasil, fortemente condicionadas a mudanças de governo e orientação política. Essa descontinuidade, avaliam, compromete o planejamento de longo prazo e coloca projetos autorais em permanente situação de vulnerabilidade. Para o Preto de Sapato, manter-se em atividade implica constante articulação entre criação artística, redes de apoio coletivo e resistência diante das oscilações do cenário cultural.

 

O Preto de Sapato  tem participado em vários eventos na região de Pelotas    Foto: Divulgação/Instagram

 

Performances em espaços históricos da cidade

A circulação do Preto de Sapato por espaços simbólicos da cidade está diretamente ligada às políticas públicas de incentivo à cultura. O primeiro álbum do grupo foi viabilizado por meio de um edital do Outro Sul, ponto de cultura de Pelotas com mais de duas décadas de atuação no fomento a iniciativas artísticas independentes no município. O apoio possibilitou não apenas a gravação do trabalho, mas também a inserção do grupo em uma rede de eventos, festivais e ações culturais voltadas à valorização da cultura negra.

Ao longo dos anos, o coletivo se apresentou em diferentes iniciativas que dialogam com essa proposta, como o Festival dos Tambores Cabobu, o Festival da Igualdade Racial, realizado pela Secretaria Municipal de Igualdade Racial (SMIR), o Simpósio Odara, promovido pela ONG Odara, referência na cidade pela atuação em música e dança afro-brasileira, além do Festival Internacional Sesc de Música de 2024. Foi neste último contexto que ocorreu uma das apresentações mais marcantes da trajetória do grupo: o show na Charqueada São João.

As charqueadas tiveram papel central na formação econômica de Pelotas durante o século XIX, sendo espaços onde pessoas negras escravizadas eram submetidas a trabalho forçado, castigos físicos e condições desumanas. Esses locais permanecem como marcas materiais de um passado de violência estrutural, ainda pouco elaborado coletivamente na cidade. A ocupação artística da Charqueada São João ultrapassou o âmbito do espetáculo e assumiu caráter simbólico e político ao inserir música negra autoral em um espaço historicamente associado à exploração da população negra.

Para o cantor e compositor Eduardo Freda, a apresentação teve um impacto profundo. Ele relata que já havia tocado outras vezes no local, em eventos sociais, mas que a experiência com o Preto de Sapato foi radicalmente diferente. “Estar ali com as músicas do Preto de Sapato foi algo muito intenso. O palco montado naquele lugar, onde os meus antepassados eram chicoteados, muda tudo. A energia era muito carregada, mas também muito forte. A gente estava ali com pessoas que trabalham pela cultura preta em Pelotas, com a nossa equipe, com a nossa história”, afirma.

Segundo Eduardo, a performance funcionou como um gesto de ressignificação coletiva. “Acho que. de certa forma, foi um ebó. Foi como oferecer algo aos nossos antepassados, aos orixás. Uma forma de dizer que a caminhada não acabou, que a gente lembra e que não esqueceu. Contar nossa história pelas nossas próprias palavras”, relata.

Ele acrescenta que a experiência teve impacto pessoal e artístico, reforçando o sentido de pertencimento e responsabilidade histórica do grupo.

Ao ocupar espaços como a Charqueada São João e o entorno do Mercado Público, o Preto de Sapato contribui para tensionar narrativas consolidadas e inserir novas leituras sobre a cidade e sua história. Para os integrantes, essas ações fazem parte de um processo contínuo de afirmação cultural, no qual memória, território e criação artística se articulam como formas de resistência e produção de sentido no presente.

Novos lançamentos

O Preto de Sapato segue em atividade e prepara o lançamento de um novo single previsto para dezembro. O trabalho dá continuidade à proposta autoral do grupo, mantendo o diálogo entre memória, identidade e contemporaneidade.

Com mais de uma década de atuação, o coletivo se mantém como referência na cena musical pelotense, articulando produção artística, reflexão histórica e atuação cultural em um contexto ainda marcado por desafios estruturais para a cultura independente no Brasil.

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