O massacre transformado em arte

Mostra no Campus II da UFPel no início do mês de setembro trouxe obras literárias, pinturas e esculturas

Por João Pedro Macedo

No dia 17 de Setembro, no Campus II da UFPel, ocorreu a quarta edição da exposição de arte e cultura “Lanceiros Negros, sua história através dos tempos!”. O evento, organizado pela cooperativa local Cooperarte, Artes e Ações Integradas, teve como intuito mostrar o lado oculto da Guerra Farroupilha. A expressão artística foi tratada como o principal meio de comunicação para entender este lado da guerra.

Questiona-se se houve um ato de mudança depois da revolta farroupilha. Desta forma, ela não é vista como uma revolução para muitas pessoas, e na exposição não foi diferente. Os lanceiros negros foram escravos que lutaram a favor dos donos das charqueadas gaúchas com a promessa de que iriam ser libertos, porém foram enganados sofrendo um genocídio orquestrado pelo Império e pelos donos das charqueadas. O nome deste evento ficou conhecido como o Massacre dos Porongos e reflete o real significado desta falsa revolução.

A exposição funcionou de uma forma em que ela era constituída por etapas, na perspectiva do sincretismo. Os representantes da Cooperarte e do evento explicaram que cada símbolo, em cada pintura de cultura africana, estava vinculado ao passado e aos atuais momento histórico e situação do país. No início da apresentação, o artista e um dos criadores da Cooperarte, Jonas Fernando Martins Santos, fez uma breve explanação sobre a exposição e falou que o significado dos lanceiros negros é muito maior do que só a Guerra Farroupilha. Com isso, ele quis dizer que os lanceiros negros foram os personagens históricos que lutaram em busca da liberdade e acabaram por serem enganados e sofrerem com essas mazelas de desigualdade até hoje. Jonas exemplificou isso falando sobre o caso dos negros na Guerra de Secessão nos Estados Unidos da América.

Sobre a parte artística do evento, na entrada do auditório, havia diversos tipos de produtos artísticos à venda, como livros, pinturas e esculturas, todas intervenções artísticas feitas por membros da Cooperarte. Nas paredes, foram expostos banners das outras edições da exposição, pinturas que remetiam a símbolos, destacando a cultura africana e ainda desenhos dos orixás, entidades divinas nas religiões de matrizes africanas.

As manifestações artísticas foram propostas como formas de resistência e reflexão sobre processo histórico

Os desenhos dos orixás de Jonas Fernando fizeram parte de uma história muito triste. O artista foi convidado a expor esses desenhos no Shopping Pelotas, porém quando o artista levou seus projetos até lá, foi proibido de expor pela segurança, sob a alegação de que aqueles desenhos eram errados e que não deviam ser expostos. Jonas foi vítima de racismo e intolerância religiosa, e ainda foi proibido de mostrar sua arte para as pessoas no centro comercial.

Perguntado sobre o que significava essa exposição e valorização da arte e cultura negra na atual conjuntura política do país, Jonas respondeu com ênfase que aquilo nada mais era que outra forma de resistência contra um atual Brasil que sempre foi racista e agora tende a ser ainda mais, principalmente Pelotas, cidade historicamente elitista e que tenta apagar sua negritude: “Vendo essa exposição com um monte de produções artísticas de pessoas negras trabalhando em uma cooperativa, é resistência pura, e é por isso que a gente luta.”

O evento além de ter esse dia para exposição também conta com ações em ONG’s e escolas, sempre valorizando a cultura negra e dando espaço e voz para aqueles que precisam ser ouvidos. Foi a primeira vez que a UFPel abriu espaço para este evento, e apesar do número de visitantes não ter sido o esperado, a exposição tocou todos que compareceram e trouxe um momento de reflexão para quem estava lá.

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