Mulheres ocupam cena cultural no 1ª Slam Poesia de Pelotas

“O hip-hop é um movimento de todos. Durante muito tempo na história do gênero, não se falava nas mulheres. Se falava muito dos rappers, dos produtores, mas não se tem uma história das minas no rap. Onde estavam as minas, enquanto os caras tavam rimando?” – Bartira Val Marques, “Bart”

Laura Marques

     Rap, poesia e representação feminina. Todos esses elementos fizeram parte do 1º Slam Poesia de Pelotas, no dia 2 de julho. O evento pioneiro incentiva a produção cultural feita por mulheres na cidade e teve como palco a rua Padre Anchieta, em frente à Casa Cultural Las Vulvas. A principal atração foi a paulistana Mel Duarte, primeira mulher a vencer o Poetry Slam, campeonato de poesia falada internacional que contou com edição no Brasil em 2016. Discotecagem com a Dj Dola, artista pelotense. Na programação também houve performance no estilo pocket show com Bart, roda de conversa sobre poesia marginal e microfone aberto para declamações.

Os slams, ou slam poesia, são encontros de artistas da poesia performática. Na maioria das vezes, as performances brincam com o rap e são avaliadas por um júri popular. Entra na análise tanto a questão literária como o desempenho do artista durante a declamação. No Rio Poetry Slam, em que Mel Duarte foi vencedora, representantes de outros 16 países estavam presentes.

Muitos dos esforços para trazer a poetisa de São Paulo (SP) para Pelotas (RS) foram feitos pela estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e MC Bartira Val Marques, 25, também chamada de Bart. A estudante é fundadora do Stay Black – Hip Hop Culture, grupo de produção cultural e também coletivo de mídia independente, que tem como objetivo incentivar artistas negros como forma de resistência dentro da cultura. Bart atua na produtora há um ano, promovendo festas, shows e eventos de rua.

Em abril deste ano, Bartira conheceu Mel Duarte em um evento sediado em São Paulo. Lá, convidou a poeta para ser atração do Slam em Pelotas. “Eu já tinha visto uns vídeos e lá pude trocar uma ideia sobre vir pra cá”, conta. Ela afirma que o objetivo dessa primeira edição é, acima de tudo, incentivar a participação feminina na poesia e no rap. “Queremos alcançar pessoas que curtem poesia. Como Pelotas não tem tradição em batalhas de rap, é muito difícil as meninas chegarem pra batalhar, seja por vergonha ou timidez”, disse. O ideal é dar um passo de cada vez. Começar pela recitação de poemas é o primeiro deles.

Apesar de conviver com a repressão machista diariamente, Bartira conclui que a representatividade feminina tem crescido na cidade. “A gente tá vendo mais mulheres na cena, seja na produção cultural ou no meio artístico. Tatuadoras, cantoras, MC’s, dançarinas, enfim, tem muita mulher trabalhando em diversos projetos”, comemora.

É fato: Pelotas vê, nos últimos anos, a disseminação de projetos e atividades que procuram dar atenção especial às mulheres. A Casa Cultural Las Vulvas é um exemplo. Fundada e gerida por um casal de mulheres, ela abriga eventos como exposições de artistas mulheres, especiais de tatuagens com tatuadoras mulheres e, no último mês, realizou um evento específico para o público feminino: o 4º Encontro das Bruxas. A Casa é apoiadora do Slam Poesia.

Conheça Mel Duarte

A paulistana é poeta, “slammer” e produtora cultural formada em comunicação social. Trabalha com literatura independente desde 2006. Faz parte do coletivo “Poetas Ambulantes”, que oferecem aos passageiros de transportes coletivos a poesia falada, escrita e gratuita. Além disso, Mel é uma das organizadoras da batalha de poesias voltada para o gênero feminino, o “Slam das Minas – SP”. No ano passado, Mel foi nomeada o destaque no sarau de abertura da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) e foi a primeira mulher a vencer o Rio Poetry Slam, campeonato internacional de poesia. É autora de dois livros publicados de forma independente:  “Fragmentos Dispersos” (2013) e “Negra Nua Crua” (2016).

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