Patrimônio imaterial em construção: Sociedade Pelotense Música pela Música

SPMM abraça diversas iniciativas artísticas desde 1990 e hoje busca investimentos 

Todo mundo é artista. Mas nem todos conseguem ter a consciência artística.”

Luis Felipe Parada, jovem integrante da Sociedade Pelotense Música pela Música

A Sociedade Pelotense Música pela Música (SPMM) é uma associação civil, privada, independente e sem fins lucrativos, que promove a arte em Pelotas. A instituição trabalha, principalmente, com canto lírico; mas recebe quaisquer tipo de produção artística. Nem todos os trabalhos apresentados na sede são da Sociedade, e nem todos os trabalhos da Sociedade são apresentados apenas dentro da sede.

Com 35 anos de tradição, a Sociedade é movida ao amor pela arte. A associação é alimentada tanto por profissionais da área, quanto por aqueles que se usam do fazer artístico de modo secundário ou por entretenimento. A cultura é importante para o crescimento pessoal, coletivo, e para causas sociais e humanísticas. Além disso, a SPMM lança grandes nomes para o mundo artístico, contando com reconhecimento regional.

Por outro lado, a entidade enfrenta grandes desafios. Os obstáculos se dão em torno de [falta de] investimentos financeiros e estruturais, e descrédito nos valores da cultura como um todo; dificultando a manutenção da exposição e promoção de trabalhos da [e na] Sociedade. Fora isso, mesmo que o local seja conhecido pelo lançamento de grandes talentos, muitos indivíduos esquecem ou desconhecem a SPMM.

A instituição está situada na Rua Félix da Cunha (nº 952), no Centro de Pelotas.

35 anos sendo arte por quem quer arte!

A Sociedade é dedicada à valorização da expressão cultural, unindo criação, performance e identidade

Como já dito, a Sociedade Pelotense Música pela Música é resultado de amor à arte. Portanto, a associação não tem limitações profissionais e de qualidade artística: qualquer um que queira produzir é bem-vindo!

Sua própria fundação é exemplo: a iniciativa veio de advogados, médicos, juízes, veterinários, artistas, professores de canto e de instrumentos; um cenário heterogêneo formado por pessoas que, simplesmente, gostam de cantar. Esse era um grupo de amigos que adorava música clássica e queria muito reproduzir o que assistiam e ouviam. Assim, surgiu a SPMM e seu primeiro coletivo foi justamente o Coro Música Pela Música.

Atualmente, a entidade continua contando com artistas, estudantes e adultos atuantes em demais áreas. São pessoas de distintas gerações, com suas histórias e essências, que estão unidos por uma mesma razão. Mesmo que muitos dos integrantes não trabalhem com cultura, eles são muito dedicados para fazer a Sociedade acontecer, pois a arte por si só tem o poder de comover a civilização, independente do lucro financeiro e de “perder tempo! – o que, no fim, se torna um investimento satisfatório, em vez de um prejuízo.

O mantimento da estrutura da SPMM também é feito pelos integrantes de modo voluntário. De acordo com dados do site da Sociedade, o orçamento mensal da casa – alarme, aluguel, internet, ISSQN, luz, taxa bancária – constitui-se da remuneração do maestro Sergio Sisto e do contador. As demais tarefas – secretaria, portaria, higienização e segurança – são feitas por artistas e pela diretoria da SPMM. Como instituição privada e sem fins lucrativos, a associação tem pequeno quadro de sócios, composto em grande maioria pelos próprios cantores.

Para os integrantes da Sociedade, os frutos da cultura são sinônimo de alegria, reencontro, expressão de si, comunicação social, crescimento pessoal e identificação comunitária. Dentro da Sociedade, esses sentimentos crescem exponencialmente pelas conexões e afetos formados, mesmo que cada integrante tenha seus próprios objetivos.

Faço parte da Sociedade Pelotense Música pela Música há 25 anos. Sou soprano e apaixonada por canto coral! Pra mim, a SPMM é uma grande família, onde se proporciona crescimento individual e coletivo, e a música é o elo forte que nos mantém unidos! […] Somos todos voluntários, e as funções se misturam e até se confundem, […] estou responsável pela administração do nosso espaço físico, agenda para locação, manutenção e organização do brechó, […] contabilizar valores oriundos, mensalidades, sócios apoiadores e vendas no nosso brechó.”

Maria Helena Costa, vice-presidente da Sociedade

A minha experiência pessoal com a SPMM é […] a partir do momento que comecei a estudar canto no curso de bacharelado em música na UFPel. Eu achei que seria muito válido eu ter uma vivência e um aprendizado na parte de canto coral. Então, eu procurei a SPMM, que me recepcionou com muita alegria e, efetivamente, tem sido uma experiência muito rica. […] não é só uma oportunidade de estudo, mas também de uma convivência com pessoas que tem um amor muito grande pela música e pela cultura em Pelotas. […] Elas dividem vozes, se auxiliam, e lutam bravamente para fazer com que seu canto ecoe aqui e na região!”

Rita Mauch, cantora lírica e popular, autora, solista, e integrante do coletivo “Nosotros Musical”

Entrei na Sociedade com 15 anos sob influência da mãe. Eu nem conhecia a Sociedade, mas quando entrei, me apaixonei! […] Eu posso ser quem eu quiser! Posso me expressar por meio da minha arte do jeito que eu quiser, de acordo com o que eu estou sentindo, com meus pensamentos de vida, minhas opiniões.”

Luis Felipe Parada

No quesito de repertório cultural, o mais presente na SPMM segue sendo a ópera. O principal coletivo da entidade é o grupo de coro, comandados pelo artista e maestro Sérgio Sisto. A instituição traz um importante acesso e resgate da música erudita para a comunidade. Por ser um gênero artístico mais antigo, sua acessibilidade é mais limitada. Atualmente, isso é mais democratizado em Pelotas, pois o grupo realiza apresentações frequentes e gratuitas ou com ingressos à baixo custo na Sociedade, além de participar de outros eventos; como shows promovidos pela Prefeitura de Pelotas (Festival Internacional SESC de Música, Feira do Livro, Fenadoce, etc.), igrejas, e demais convites.

O Coro Música pela Música foi parte da programação de Natal de Pelotas no dia 17 de dezembro de 2025

Entretanto, a associação vai além das referencias clássicas da música. Um exemplo é o Plural Singer Studio, instituição de canto popular sob liderança de João Ferreira Filho Tenor: músico, cantor e professor. O Plural Singer possui uma parceria com a SPMM, e, lá, expõe mostras a cada fim de semestre, chamadas de “Plural Singer On Stage”. Esses shows do Studio levam cada um dos alunos para cantar uma música de maneira solo – acompanhados por João, no piano – com o objetivo de motivar e desafiar os aprendizes a desenvolverem seus talentos, expressar sua personalidade e causar o crescimento pessoal e de autoestima. As canções são escolhidas pelos próprios estudantes, de acordo com seus gostos musicais, e fazem do On Stage um repertório eclético e de alta qualidade. As últimas apresentações ( nos dias 2, 3 e 4 de dezembro de 2025), por exemplo, contaram com releituras de grandes artistas, como Elis Regina, Lana Del Rey, e Frank Sinatra. Os alunos presentes nessas datas eram tanto cantores profissionais – em diferentes áreas musicais – quanto pessoas que levam a arte como entretenimento, seguem outras carreiras ou são estudantes universitários/escolares. João reconhece a importância da Sociedade e do Plural Singer, não só para interesses pessoais e profissionais, mas pelo coletivo e pelos aprendizados – “duas grandes famílias”; amigos que ele escolheu e que lhe escolheram.

Além disso, João está lançando um novo projeto que terá a SPMM como local de acontecimento: o Plural Singer Ensemble. Esse será um curso anual de canto lírico, especificamente direcionada para o teatro musical, sem deixar de trabalhar com outros gêneros e diversas metodologias. O Ensemble terá início em março de 2026, e tem o objetivo de ensinar técnicas, beneficiar distintas pessoas com seus gostos e particularidades, integrar cidadãos por meio da arte, e qualificar novos profissionais com capacidades mais amplas – não apenas para o canto lírico, mas também para outros como gospel, jazz, rock, soft, contando com uma realização pedagógica com variadas didáticas.

Outros grupos já integraram ou tiveram parcerias com a Sociedade, como a Orquestra Música pela Música (2004-2014) e a Escola de Piano Délia Louzada (que também levava alunos para se apresentarem de forma solo). Outras áreas culturais já passaram por lá; como o rap, o ballet, o teatro, o samba, a dança do ventre, e a dança de estivo livre – abraçam-se outras artes em paralelo com as produções da instituição.

Sob esses cenários, a Sociedade cumpre um papel sociocultural importantíssimo, cumprindo os princípios da arte. Conforme João Ferreira Filho, o grande diferencial da vida humana para as outras formas de vida é a cultura e o intelecto; sendo que ambos se complementam e vão além da natureza de ter fome e sono. Então, produzir arte é retroalimentar o bem-estar social na civilização.

A importância de promover a cultura é para que não sejamos meros seres vivos! Que não sejamos animais: a cultura traz algo além daquilo que é necessário para a sobrevivência. Ela faz a gente transmitir nossas emoções, usar nosso intelecto para pensar e desenvolver uma sociedade mais justa, ela enriquece nossa alma. […] Acredito que o artista tem todas as qualidades humanísticas de uma forma muito mais expandida! Por exemplo, sempre que observo uma obra de arte, não é só pela obra em si, mas pelo contexto que foi feita. Consigo, por conta dessa questão artística, me por no lugar do artista e entender como ele estava, além de entender as pessoas melhor.”

Luis Felipe Parada

De acordo com o filósofo Friedrich Nietzsche: a arte existe porque a vida não basta. Se a vida estivesse perfeita (se é que isso existe) ou totalmente harmônica, o campo artístico não seria necessário. Porém, a humanidade nunca está estável: está sempre buscando um equilíbrio dinâmico – que pode ser derrubado a qualquer momento por obstáculos ou fenômenos que alterem processos sociais, sejam humanos ou naturais.

Essa tese se concretiza, uma vez que a arte – antes de ser uma exposição divertida, bonita e associada como entretenimento e lazer – tem como essência transmitir a realidade se apropriando de distintas linguagens; mesmo que possam parecer menos realistas, sarcásticas, irônicas, dramáticas, fictícias, e/ou estranhadas pelo sujeito. Essa comunicação serve para descrever incômodos, problemas sociais, sentimentos [in]satisfatórios, impulsos e desejos: A arte precisa de uma moral, de um ponto de reflexão. Ela não terá mensagens bonitas, graciosas, cômicas ou confortáveis sempre; ela pode ser esquisita, trágica, desconfortável e até mesmo feia – tal qual a vida.

Pensando em termo psicanalíticos, [a arte] lhe permite que a pessoa explore a expressão dos desejos inconscientes; colocando tanto os conteúdos internos, quanto conflitos que, muitas vezes, não cabem em palavras né? O corpo se torna um mediador simbólico capaz de dar forma e sentido às emoções e experiências psíquicas, como uma espécie de tradução do inconsciente para o mundo […] transformação dos impulsos em produções criativas socialmente aceitas.”

Victoria Hecktheuer Hallal, psicóloga e mestre em saúde e comportamento

Assim, a arte pode ser comunicada das mais variadas maneiras, mas que continuam fazendo sentido e são aceitas desde que seja dentro desse universo.

[…] considerando cultura como uma forma de dominação, lavagem cerebral, formação de ideologia; na verdade, cultura é a manifestação de um povo, né? E ela tem que ter espaço sempre, porque a partir daí que a sociedade respira. A sociedade consegue fazer uma troca através dessa sensibilidade […]”

Rita Mauch

[Cultura] faz aliviar as dificuldades, as doenças […], as dificuldades de vida como um todo, né? Traz essa possibilidade da gente se curar e se cuidar!”

João Ferreira Filho Tenor

Logo, as produções artísticas são expressões que mostram que a vida, em um contexto de época, está insuficiente e precisa ser revisada. Também são denúncias, compartilhamentos de pensamentos e comportamentos que causam benefícios para aqueles que consomem arte dentro da humanidade. Esses efeitos positivos são desenvolvimento de senso crítico, capacidade de compreender o próximo, habilidade para interpretação, buscas de soluções mais eficazes para problemas, busca por uma civilização mais justa, além do realce de valores de um sujeito ou de um povo. Então, vai-se muito além do crescimento pessoal, do desenvolvimento coletivo e do psíquico interno, da socialização, da troca de afetos, da significação de coisas que não bastam em palavras, do crescimento da autoestima, do entretenimento e do passatempo. A Sociedade Pelotense Música pela Música conclui com eficácia todos esses propósitos.

E mais! A instituição é referência estadual no que se diz à canto coral, trabalho de formação de músicos (orquestras, professores, solistas, etc.), lançamentos de artistas talentosos e renomados para o mundo da arte, e pioneirismo em montagens e releituras de espetáculos de ópera.

A Sociedade significa oportunização. Hoje em dia, os objetivos são um pouco diferentes do início. A Sociedade passou por um processo de aperfeiçoamento […] depois de fazer vários espetáculos no Teatro Guarany e de aprovar projetos municipais, estaduais e federais […]. É a profissionalização dessa paixão!”

Sérgio Sisto, diretor artístico da SPMM e maestro do coro da Sociedade

Eu cantava em bandas de rock e eu não tinha onde estudar canto. Certa vez, um colega de aula me disse que existe um coral na Sociedade e perguntou se eu queria estudar canto lá. E eu vi que os grandes cantores de rock da época que me influenciavam lá em 1997, 98, tinham algum tipo de formação erudita também. Fui conhecer o coro do Música pela Música e me apaixonei por canto lírico! […] Comecei a estudar com o nosso maestro Sérgio Sisto e passei a participar de todos os espetáculos a partir de 1999 […] é o local onde abriu as portas para minha formação musical e vocal!”

João Ferreira Filho Tenor

Consequentemente, a associação é frequentemente convidada para festivais importantes para a cultura (como o Festival Internacional Sesc de Música de Pelotas) e em apresentações de outros coletivos que reverenciam a entidade – o caso mais recente foi a participação no show “Todas as Vozes”, produzido pela Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul (CORS) de Porto Alegre.

Talvez o momento mais importante da SPMM – no que se diz à referência qualitativa de produção – seja o atual: a entidade recebeu o título de Patrimônio Imaterial de Pelotas pela Câmara de Vereadores. Essa é a cereja do bolo que evidencia a importância cultural da instituição, sendo algo que agrega ao município e aos seus artistas – mesmo que ela não receba fundos financeiros e títulos materiais com a conquista.

Integrantes da Sociedade durante Moção da Câmara de Vereadores de Pelotas no dia 30 de outubro de 2025: data de seu aniversário de 35 anos

Sendo assim, a SPMM é um projeto sociocultural que enriquece Pelotas e a humanidade, principalmente para quem tem ligação com a entidade. Isso é consequência da execução dos valores que a arte é capaz de promover; além da referência no que se diz à qualidade de suas exposições e seus artistas.

Então, a Sociedade Pelotense Música pela Música deve e merece ser preservada.

Tons desafinados também fazem parte!

Mesmo com toda essa beleza que há de se propagar, a Sociedade enfrenta obstáculos complicados durante sua trajetória, e agravados nos últimos anos. Sua própria natureza – independente e sem fins lucrativos – faz com que a permanência de suas atividades assumam um certo risco, dependendo fundamentalmente de iniciativas e investimentos dos próprios artistas, e apoio comunitário. No entanto, esses problemas também andam de mãos dadas com tópicos que a arte como um todo ainda lida: [des]valorização e credibilidade política-social.

O descrédito do fazer artístico por parte da humanidade, somado a esses princípios da associação, dificultam o progresso da SPMM. Ainda assim, os seus integrantes e admiradores confiam no seu processo e no potencial; com muito amor e carinho por uma fábrica de cultura que, mesmo lidando com defeitos, causa inúmeros efeitos positivos.

De acordo com João Ferreira Filho, ainda falta interesse, divulgação e feedback por parte da população do trabalho que é feito (e que ainda poderia ser feito) na sede.

O trabalho que a sociedade faz para Pelotas e região é um trabalho que poderia ser muito mais valorizado! É um trabalho muito rico, de qualidade! É aquele tipo de coisa que só existe em países de primeiro mundo […], e que, na verdade, está mais próximo do que a gente imagina! Tem gente, as vezes, que paga uma fortuna para ver um artista estrangeiro em um teatro famoso […], quando poderia estar vendo no próprio lar!”

Luis Felipe Parada

A SPMM já teve mais olhares do povo, do município e da imprensa para si (com destaque para o início dos anos 2010); mas foi algo que se perdeu com o tempo – na imagem, constam trabalhos da SPMM divulgadas pelo extinto Diário Popular em 2011, guardadas no acervo da Sociedade.

Tudo faz parte de uma engrenagem. A sociedade não valoriza a arte. Logo em seguida, os nossos governantes também não. Logo em seguida, o comércio também não tem possibilidade de oferecer uma estrutura melhor pra quem tá fazendo entretenimento, pra quem tá fazendo esse tipo de coisa.”

Mateus Kempfer, músico da banda Quarto Afora (declaração em entrevista para o Arte no Sul, publicada dia 14 de novembro de 2025)

A desvalorização vem de uma questão sistemática. Considerando a tese que a arte só existe pois a humanidade ainda não está perfeita – ou, pelo menos, em equilíbrio – autoridades, governos e atitudes sociais são questionadas. Nesse sentido, não há um investimento político e olhares dos cidadãos suficientes para a cultura, uma vez que indivíduos não querem ser denunciados (nem sendo de maneira pacífica e/ou construtiva). O fato de a arte permitir linguagens que são “politicamente incorretas”, dependendo do contexto aplicado, também a faz ser marginalizada por quem possa se sentir atacado.

Assim, a cultura como um todo é jogada para escanteio, formando um ciclo vicioso de indiferença e falta de investimento/acessibilidade, partindo tanto da política quanto do cidadão comum – a tal da “engrenagem” que Mateus Kempfer aborda.

Cidades que preservam essa cultura são visitadas mundialmente. Por exemplo, Gramado preserva muito sua cultura – de influência alemã – e é uma das cidades mais visitadas do Brasil. Buenos Aires é uma das cidades mais caras da Argentina, que é uma mistura de culturas francesas com latinas preservadas. […] Fico muito triste que a cultura na nossa cidade não tem sido tão valorizada como era antigamente. O Theatro Sete de Abril está fechado há vários anos; […] o Theatro Guarany poderia ter uma estrutura melhor. […] Pelotas não cuidou muito bem dos seus patrimônios […], os poucos que sobraram estão mal restaurados.”

Luis Felipe Parada

A vice-presidenta Maria Helena relata que já houveram parcerias fixas – como com o SESI e com a Expresso Embaixador – para o mantimento de shows frequentes e de funcionários atuando na casa (para a faxina, segurança, portaria, secretaria, etc.). Hoje em dia, são artistas da própria instituição que ocupam esses cargos, não há garantia absoluta de frequência de shows, e há menos recursos financeiros para demandas e despesas. Entretanto, a SPMM prefere não cobrar mensalidades fixas de todos os integrantes, posto que a instituição não tem fins lucrativos – antes do dinheiro, cultura é prioridade, embora ambos sejam necessários para a manutenção dos projetos.

Nós éramos mais requisitados […], mas fomos ficando de escanteio. […] Os coralistas pagam uma mensalidade simbólica que varia de 10 a 100 reais. Poucos pagam 100; […] poucos, 50; a maioria paga 10; e alguns não pagam nada por não ter condições; […]. Embora uma aula de canto, hoje em dia, custe de 120 pra cima; […] nós não podemos impôr que o coralista pague. […] cada coralista tem a sua liberdade, a sua própria situação. Então, a gente conversa individualmente com cada coralista. O que pode pagar mais, paga. O que não pode, não exigimos por isso. Enfim, a gente se tornou uma grande família e é assim que a gente funciona.”

Maria Helena Costa

A pandemia da COVID-19 foi um período que agravou os problemas de forma preocupante. Por conta do isolamento social, todos os projetos para 2020 – que seriam para comemorar os 30 anos da SPMM – foram suspensos. Além disso, os grupos já existentes fecharam temporariamente suas atividades, os espectadores não tiveram mais contato com o local, e a sede passou por problemas sérios de estrutura. Antigamente, o público que os acompanhavam era maior; e, com o tempo, diminuiu.

Na época, para manutenção da Sociedade, o até então presidente João Ferreira Filho, iniciou a parceria entre a associação e o Plural Singer Studio (primeiramente, com encontros presenciais sob cuidados higiênicos, sem audiência e transmitidos no YouTube com apelos à comunidade para doações). A união permitiu a arrecadação de fundos; o mantimento da energia elétrica, equipamentos e limpeza; o aumento do interesse e procura pelo coletivo de canto lírico da SPMM após a pandemia; e a fixação das apresentações semestrais dos alunos do Plural Singer sedentos por palcos.

Eu entrava com equipamento de som básico, os meus alunos com o canto deles, e eu acompanhava no piano. Tudo isso pra gerar fundos para o Música pela Música. Eu sou muito grato por tudo que o Música pela Música me proporcionou, e esse era um jeito de retribuir: com a minha arte, com o meu trabalho […]. Eu tenho conseguido fazer muitos eventos na casa em prol da entidade. Em contrapartida, eu tenho público, palco, a oportunidade de meus alunos fazerem apresentações artísticas… os meus alunos preparam um repertório comigo; então eu estou trabalhando e recebendo por isso, mesmo que nas apresentações eu não receba nada […].”

João Ferreira Filho Tenor

Um último obstáculo que deve ser combatido é o estereótipo de um gênero musical antigo (a ópera), “ultrapassado”, “de velho”, substituído por tendências modernas, mas que não deixa de merecer holofotes voltados a si. Considerando que a fundação da Sociedade foi há mais de 35 anos, esse tempo foi o suficiente para surgirem novas tendências artísticas que acompanham as rápidas alterações socioculturais (cada vez mais rápida em função da era digital e tecnológica).

Assim, outras coisas estão mais em alta na contemporaneidade. As obras artísticas mais apreciadas são as mais atuais/modernas, aquelas preferidas por uma indústria cultural que padroniza gostos, e aquelas vindas de profissionais com carreira já consolidada (que conseguem se sustentar e já tem seu nome na boca do poco). A juventude, os novos artistas, e produtores de arte consideradas diferenciadas do comum são esquecidos e tem seus futuros tratados com descrédito, o que também é consequência da falta de investimento governamental e comunitária. Portanto, é mais difícil ter uma mão de obra autoral/original em Pelotas, sem ser importada ou altamente influenciada pela tal indústria cultural.

Qualquer cidade de 30 mil habitantes na Europa, nos Estados Unidos, tem orquestra sinfônica. […] Caxias tem orquestra sinfônica, São Leopoldo tem, Passo Fundo tem. Pelotas não tem: em Pelotas, é quando a gente cria condições para algum evento que utiliza-se uma orquestra sinfônica! […] O pior que pode existir na arte é justamente a separação dela do povo, indo na direção contrária do seu propósito.”

Sérgio Sisto

Muitos ainda desconhecem e por isso não são tocados por toda essa arte tão viva que a SPMM tenta sempre alcançar […]. Acredito que a SPMM tem uma grande importância, mas necessita fazer parte de mais setores sociais e ter a participação, talvez, através de programas e projetos em outras instituições; sejam escolas, bairros, clubes […] mostrando o quanto ela é capaz de impactar. […] A região acaba retornando à SPMM de modo negativo, por pouca presença de público […] e também pelo fato de a SPMM ter um repertório com músicas que não são do conhecimento amplo e geral da população.”

Rita Mauch

A Internet também interfere na [des]valorização cultural. Os algoritmos – os que regem esse sistema complexo – recomendam conteúdos com base com que os seus usuários engajam (curtem, comentam e compartilham). Vale considerar que essas pessoas que usam as tecnologias com mais constância são, majoritariamentes, sujeitos mais jovens e que cresceram com a cultura digital – em qualquer cenário de revolução ou mudanças drásticas sociais, é mais fácil pessoas mais jovens e em desenvolvimento aderirem tais causas.

Logo, como as redes sociais é algo recente na humanidade, os indivíduos que as usufruem são os que acompanham a modernidade e as tendências virais atuais. Assim, elementos mais antigos perdem na corrida por visibilidade.

Por outro lado, existem muitos fatores que podem facilitar o processo de reestruturação e o reforço dos valores da Sociedade Pelotense Música pela Música.

De acordo com Sérgio Sisto e Rita Mauch, o próprio povo de Pelotas tem uma vocação natural por arte, sendo extremamente digna e diferenciada; ainda que a consciência artística na comunidade e o incentivo dos órgãos públicos esteja longe de estar completa no município. Isso faz com que essa riqueza seja perdida e a arte de Pelotas pareça um barco ancorado: tenta navegar, mas algo o prende no mesmo lugar.

Visto que já existem iniciativas, o essencial para dar continuidade à solução desses problemas é justamente o investimento politico-social (desde o cidadão comum ao Estado). Isso é possível de realizar seja por fundos financeiros e estruturais, por divulgação e interesse comunitário, ao mitigar sensos comuns de que a arte é obsoleta, e pela educação e conscientização dos princípios artísticos e as razões para a sua existência.

A consciência sociocultural na população é um ponto diferencial. É necessário perceber que os desleixos com a arte mascaram a necessidade que ela tem para o povo.

[…] precisa de um orçamento muito grande, é caro. Mas cada real investido nisso, devolve à comunidade […] segurança, educação, cultura; pois uma coisa reflete na outra! A cultura […] está interligada à varias outras coisas!”

Sérgio Sisto

A cultura é uma coisa natural. Todo mundo acaba desenvolvendo uma forma de arte desde o começo da vida. As vezes, quando bebê, a gente desenha sem nem saber o que está desenhando; a gente fica batucando numa mesa e cria um som musical.”

Luis Felipe Parada

O raciocínio de Luis Felipe prova que o sujeito precisa de arte como um modo de expressar o que pensa e o que vê (as vezes, sendo coisas que não cabem em palavras). Se essa é uma naturalidade do ser humano, não faz sentido marginaliza-la; ainda mais considerando tudo o que a cultura é capaz de promover.

Além disso, as próprias redes sociais podem fomentar a emancipação da SPMM, por meio de intensa presença no meio digital e na formação do networking da associação (algo que já está acontecendo no Instagram da Sociedade, @spmmpelotas). Pelo fato de que qualquer pessoa pode publicar o que quiser no meio digital, forma-se uma pluralidade de personalidades, grupos, opiniões; combatendo as “grandes e únicas verdades” que existem. Mesmo que a era digital aumentou uma indústria cultural padronizadora; a internet é um ótimo intermédio para expandir e engajar os trabalhos produzidos.

Vejo um movimento de jovens que estão descobrindo coisas novas, né? O instagram, a internet no geral, possibilitou muito isso porque abre um leque de mundos disponíveis que não são acessíveis na vivência do dia a dia. Vejo que cada vez mais pessoas da minha idade estão gostando da música [erudita], ido a concertos como o Festival Internacional Sesc de Música […]. Mesmo que seja a música que era popular antigamente, a gente tem que tirar esse preconceito! Não existe música de gente nova, de gente velha. Existe música! […] Cada música expressa um sentimento diferente! […] Se as pessoas entenderem melhor essa pluralidade da música, a gente vai crescer muito mais! […] Eu acredito que nós já estamos fazendo o trabalho para emancipar a Sociedade, só que há algo faltando que ajudaria muito: a busca por parte da civilização e de políticos, independente de qual ideologia, para investir em cultura!”

Luis Felipe Parada

Após a pandemia, projetos e ideias [res]surgiram. Artistas e funcionários estão empolgados com fazer parte do processo de reestruturação. O coletivo de ópera e a parceria com o Plural Singer Studio se mantém ao longo dos anos e vêm firme para reerguerem a instituição. O Plural Singer Ensemble é outro pontapé que pode aumentar a visibilidade do local, uma vez que as aulas do curso serão na SPMM. Além disso, desde 2025, João Ferreira Filho executa um projeto que acontece quase todas as semanas desde 18 de outubro: alunos do Plural Singer Studio fazem shows de canto popular, sempre levando consigo um tema/artista. As apresentações são pagas e todo o dinheiro arrecadado é direcionado para a manutenção da Sociedade. Alguns espetáculos que ocorreram foram o Especial Milton Nascimento (“Sonhos Não Envelhecem”, por Álvaro Leonardi Ayala Filho); Especial Disney (por Maria Eduarda Paixão); Especial Elvis Presley (por Duda Pedrozo); Especial Divas (por João Ferreira Filho, Júlia Siega, Luisa Rabassa e Renata Gonçalves); Especial Marisa Monte (por Leiliane Martins), entre outros.

 

Em 2026, a Sociedade abriu as portas para o SESC, que alugou o espaço em prol de ensaios de suas orquestras para o Festival Internacional SESC de Música. Essa troca é essencial para os dois lados e é reflexo do início da reestruturação do que a SPMM já foi um dia. Enquanto os instrumentistas do SESC privilegiam estrutura acústica e o espaço para ensaiar, a Sociedade aumenta sua credibilidade e visibilidade a partir da confiança de quem patrocina um evento gigante, podendo se apropriar disso para crescer.

Ensaio da Orquestra Jovem do SESC para o Festival Internacional SESC de Música, no dia 19 de janeiro de 2026

Em novembro de 2025, houve troca na gestão da Sociedade. Marilice Mezzo assumiu a presidência no lugar de Ana Elisa Kratz. Segundo Marilice, as metas para os próximos anos são manter a casa funcionando e trazer novos espetáculos à comunidade além dos já existentes. A atual presidenta enxerga potencial de crescimento, mas a entidade conta com maior inserção de suporte financeiro nos projetos e disponibilidade de pessoas para acompanhar, participar, prestigiar e estimular espetáculos e produções. A nova diretoria marca a fé que será um momento de revigorar e trazer novas energias para o futuro trabalho, aproveitando os feitos recentes da instituição e outros passos dados à frente para projetar um futuro promissor!

Sob esse viés, a Sociedade Pelotense Música pela Música é um patrimônio em processo de se reerguer; mas não depende de si só para tanto – ela conta com a comunidade, com parcerias, investimentos e políticas públicas!

[…] hoje, o que nós vemos é uma luta constante para manter [a Sociedade] em dia, por manter o aluguel e pagar as despesas mínimas. É algo que não fecha com a idea de Pelotas ser uma cidade cultural, né? Então, sim, a SPMM pode colaborar muito com Pelotas, mas falta Pelotas colaborar muito com a SPMM”

Rita Mauch

Arte que inspira, amor que motiva, futuro que brilha!

A SPMM é uma sede de produções artísticas que abre portas para quem queira tornar a cultura acessível – indo além da música clássica, que é a marca registrada e renomada da instituição.

Nesse sentido, a entidade é uma porção fundamental da composição do município de Pelotas, contribuindo para causas culturais e sociopolíticas. A Sociedade é um ponto de forte reprodução de valores que a cultura traz para a civilização: crescimento individual; socialização; construção da saúde mental e do bem-estar social; evolução cognitiva entre os sujeitos praticantes; fortalecimento da imagem da cidade e da arte local; formação de artistas de qualidade; e busca de uma humanidade melhor e mais harmônica. Não é à toa que recebeu o nome de Patrimônio Imaterial de Pelotas.

Por outro lado, a SPMM necessita de forças extras, além das internas, para se manter ativa – algo que vai além do seu próprio amor à arte e da vontade de criar.

Mesmo já tendo momentos mais altos e outros mais baixos, a instituição segue firme e forte; trazendo muitos efeitos positivos para a humanidade!

No canto

Vou jogando a minha vida pra você! […]

Cantar: desnudar-se diante da vida.

Cantar é vestir-se com a voz que se tem.

Achar o tom da alegria perdida

E não ter que explicar pra ninguém

A razão dessa tal melodia

Encharcada de sorriso e pranto.

No cantar a lembrança se cria

e envelhece, de repente vai solta no ar

Por isso eu canto”

Trecho da música “Cantar”, da cantora e compositora Teresa Cristina

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