No espetáculo “Sonhos não envelhecem”, três artistas pelotenses mostram que o canto, a dança e a música também são eternos

Festival da Sociedade Pelotense Música pela Música em homenagem a Milton Nascimento coloca pai e filho dividido o palco pela primeira vez

Marco Ayala e seu pai, Álvaro Ayala, se abraçam após apresentação. Ao fundo, João Ferreira Filho saúda a dupla (foto: Ketlen Guimarães/especial Em Pauta)

Luis Garcez/ Em Pauta

A noite pelotense do sábado (18) foi embelezada pelo espetáculo “Sonhos não envelhecem”, apresentado na Sociedade Pelotense Música Pela Música, onde o músico João Ferreira filho e o cantor Álvaro Ayala Filho apresentaram, durante uma hora e meia, músicas de autoria do lendário Milton Nascimento, um dos maiores cantores, compositores e instrumentalistas brasileiros. Durante “O que será (À flor da pele)”, a nona música apresentada pela dupla, Marco Ayala, filho de Álvaro, juntou-se à performance com a coreografia “Entre o corpo e o Mistério”. Durante aqueles momentos efêmeros até a música cessar, o professor, o pai e o filho misturaram suas artes e criaram uma performance sincronizada e emocionante, tanto para os três artistas, quanto para a plateia.

Marco, dançarino da escola de dança Adágio e estudante do quarto semestre do curso de jornalismo na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), não se conteve apenas à “O que será”, saindo por detrás das cortinas e tomando o palco novamente na última música da noite, “Maria Maria”, onde regeu um coro de palmas da plateia conforme o ritmo animado do clássico da música popular brasileira. Quando o canto de Álvaro e as notas do piano comandado por João Ferreira silenciaram, as luzes se acenderam e o trio foi ovacionado em pé pelo público, assim encerrando uma noite de arte, alegria e homenagens.

João Ferreira Filho e Álvaro Ayala apresentam “Maria Maria”, enquanto Marco Ayala bate palmas com o público.

Sim, homenagens no plural, pois Milton Nascimento não foi o único nome celebrado naquela noite. O maestro da Sociedade Pelotense Música pela Música (SPMM), Sérgio Sisto, que durante a escrita desta matéria se encontra internado na Santa Casa de Pelotas devido a um ataque cardíaco sofrido durante a tarde do dia 12. Sisto é regente do coro e da orquestra filarmônica da SPMM, onde atua há mais de 30 anos, além de ser um dos fundadores da mesma. O maestro apresentou melhoras no dia seguinte da sua internação e não parece que sofrerá danos neurológicos devido as paradas cardíacas. a equipe do Em Pauta Web foi informada que Sérgio já está acordado e tem alta da UTI prevista para a semana do 20, mas continuará internado no hospital durante mais algum tempo. Ao fim do espetáculo, todos os integrantes da SPMM presentes se reuniram no palco para desejar uma recuperação rápida para seu estimado maestro e amigo.

Após o show, consegui capturar a atenção de Marco e sentar com ele nas cadeiras, agora vazias, do teatro. O dançarino me contou que é a primeira vez que se apresenta com seu pai, e também que foi uma das melhores apresentações de sua vida. Citou varias razões para a preciosidade daquele momento. Se sentia corajoso por se desafiar a apresentar uma dança de “estilo livre” que, diferente das coreografias de dança urbana, é um estilo totalmente novo para ele. Além disso, disse que estar ali com seu pai, trazendo o sangue artístico da família para o palco, foi lisonjeante. Marco também falou sobre quão nova era a experiência de ajudar diretamente na organização de um espetáculo, e como é especial se sentir uma voz ativa no processo, e não apenas um dançarino.

Entretanto, o último motivo para aquela noite ser tão especial para Marco foi música interpretada por ele durante o festival, “O que será? (À flor da pele). Em um evento passado, ali mesmo, na SPMM, Álvaro dedicou a canção a ele. Logo em seguida, Marco ganhou de Álvaro o áudio da música e prometeu para o pai que ele, com a ajuda de seu professor, criaria uma coreografia para aquela faixa e a apresentaria em um festival. Cumpriu a promessa, com Álvaro na plateia, e então, na noite de “Sonhos Não Envelhecem”, finalmente pai e filho se encontraram em cima do palco, performando aquela música que possui tanto valor emocional para ambos.

Durante a conversa que tive com Marco, me questionei sobre nossa vida acadêmica, já que somos colegas de curso e sei como a faculdade de jornalismo pode ser maçante em muitos momentos. Como um estudante que não vive uma segunda vida dedicada a arte, não conseguia nem imaginar como deveria ser, para Marco, conciliar os dois. Por isso perguntei.

“Nada é um mar de rosas, a vida não é um morango. Já tiveram situações em que eu me atrapalhei, porque por mais que eu me dedique para as duas coisas ao mesmo tempo, tem momentos específicos que eu preciso me dedicar mais para uma coisa e depois para outra. É uma questão de balanceamento, é uma questão de que, por mais que exista esse ponto negativo, eu consigo conciliar e ser produtivo nos dois. Sinto que cumpro meu dever de uma forma que me traz satisfação. […] Não sei se vou viver de arte, mas quero seguir tendo essas experiências ao longo da vida, trabalhar com música, mas com jornalismo também. Não sei quão longe vou chegar, mas vou levando as duas vidas e vendo, em meses, anos e décadas, o que vou produzir na minha vida.”

O jovem poeta não parou por ali. Perguntei se ele tinha medo de que, conforme o curso fosse se aproximando da reta final, ele precisasse, mesmo que involuntariamente, se afastar da arte que tanto ama.

“Acho que esse medo do desconhecido é uma coisa que bate em todo mundo em algum momento, porque a gente gosta muito de estar na zona de conforto, o ser humano sempre busca o conforto e nunca vai querer sair dele, só que ao mesmo tempo temos a vontade de ser mais, de ser melhor do que o nosso eu de ontem. Esse medo das coisas diferentes que vão vir para gente sempre vai continuar existindo, mesmo depois do TCC tenho certeza que ele continuará existindo, mas para gente ser melhor do que nosso eu de ontem, para gente ser o que a gente quer ser, a gente tem que encarar.”

Marco Ayala performa “Entre o Corpo e o Mistério” 

Minha conversa com Álvaro teve que acontecer no dia seguinte, por redes sociais, pois na noite do espetáculo ele se encontrava muito cansado após cantar tantas músicas. A primeira questão que levei a ele foi qual o motivo por trás da escolha do nome do espetáculo, afinal, “Sonhos não envelhecem” é apenas um trecho de uma das tantas músicas de Milton Nascimento. Álvaro me respondeu que sim, havia um motivo muito específico. Desde criança teve gosto pela música, mas os percalços da vida o fizeram se afastar da arte e acabar no caminho da física, onde se formou, fez bacharel, mestrado e doutorado. Entretanto, nos últimos anos decidiu experimentar novamente aquela atividade que tanto gostava quanto novo e percebeu que seu sonho ainda era jovem como ele era, naquela época.

João Ferreira Filho também me respondeu através das redes. Conversamos um pouco sobre o próprio Milton Nascimento, e João admitiu que, anterior ao período de preparação para “Sonhos Não Envelhecem”, não conhecia tão bem o repertório de Milton Nascimento, pois Milton nunca foi um dos compositores a qual João procurou saber mais detalhes. O músico considera um valioso aprendizado a oportunidade de se mergulhar na obra de um artista tão relevante para a música brasileira. Considera que, além de toda a questão técnica, sobre harmonia, ritmo, melodia, poesia, etc. que é extremamente bem elaborada, a obra de Milton também se destaca pelo contexto e subtexto das músicas, e que ajudaria muito a difundir a obra de Milton entre as novas gerações se as mensagens que ele quis trazer em suas músicas fossem melhor entendidas.

Para encerrar, Álvaro Ayala declarou que “O espetáculo de hoje não nasceu apenas de uma vontade pessoal, mas também como uma forma de expressão onde a Sociedade Pelotense Música Pela Música visa apoiar o desenvolvimento da música pela cidade de pelotas. Entretanto, neste momento onde a SPMM enfrenta dificuldades devido ao acidente do maestro Sérgio Sisto, esse se torna um momento onde a SPMM também necessita de apoio, não só da comunidade como também, principalmente, de seus sócios. A apresentação de Álvaro e João é a primeira de um grupo de apresentações que virão com o intuito de promover a sustentação da SPMM. Os músicos que a Sociedade sempre apoiou agora estão preocupados em apoiar a Sociedade, e é isso que irá acontecer nos próximos eventos. Uma confluência de bons interesses, de círculos virtuosos. Nessa perspectiva, eu gostaria de frisar que a SPMM é um espaço que precisa de apoio da comunidade pelotense para se manter e continuar realizando seu objetivo de levar a música ao seu mais alto nível na cidade de Pelotas.”

Integrantes da Sociedade Pelotense Música pela Música

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