Luto: enfrentamento comum que atravessa diferentes realidades

Psicóloga explica como o luto é vivenciado em diferentes etapas e destaca seus impactos emocionais

 

Bárbara Carvalho / Em Pauta

O laço preto simboliza o luto como experiência individual, marcada pela dor íntima e pela ausência que reorganiza a vida cotidiana. Imagem: banco de imagens / Em Pauta

 

Ao longo da vida, cada ser humano vivencia sentimentos, constrói convicções próprias e enfrenta dúvidas particulares. Apesar das diferenças individuais, há uma experiência comum que atravessa pessoas de distintos contextos sociais, culturais e etários: o luto.

Dados do Censo de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que o Brasil possui mais de 200 milhões de habitantes, sendo 29.937.706 residentes na região Sul do país. Independentemente de classe social, raça, gênero ou idade, todas essas pessoas, em algum momento da vida, enfrentarão a perda de alguém significativo.

Para compreender os estigmas e os impactos desse processo, a reportagem entrevistou a psicóloga Luana Ribeiro Bueno, graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) desde 2019. Ela é especialista em autismo e em psicologia escolar e educacional, além de pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Desenvolvimento Infantojuvenil (NPDI/UFPel).

Segundo a profissional, a perda não é socialmente bem aceita, embora seja uma condição inerente à existência humana. Esse desconforto pode ser observado desde a infância, em situações como a frustração ao perder um jogo, um objeto importante ou um animal de estimação. Com o avanço da vida, as perdas tornam-se mais complexas, especialmente quando envolvem pessoas próximas.

A psicóloga explica que é comum o desenvolvimento de sintomas depressivos após a morte de alguém significativo. Esses sintomas fazem parte do processo de luto e não configuram, necessariamente, um transtorno depressivo. Em alguns casos, no entanto, a perda pode desencadear um episódio de transtorno depressivo maior, inclusive em pessoas que não apresentavam quadros anteriores. Isso ocorre porque a vivência do luto ativa sentimentos como tristeza intensa, sofrimento profundo e dor emocional, que podem se prolongar ao longo do tempo.

“Não só é possível, como é extremamente comum de acontecer. A partir da perda é que se ativam muitos sintomas, como tristeza, dor intensa e sofrimento, que muitas vezes se estendem e se aprofundam”, afirma.

Na prática clínica, Luana relata que o luto costuma ser vivenciado em etapas. De modo geral, o processo pode iniciar pela negação, quando a pessoa não aceita a perda ou ignora os próprios sentimentos. Em seguida, pode surgir a raiva, caracterizada por irritação, agressividade e revolta diante da dor. Posteriormente, ocorre a barganha, marcada por questionamentos como “por que comigo?” ou “por que não fui eu?”.

Após essas fases, surgem os sintomas depressivos, que envolvem tristeza profunda, choro intenso e recolhimento social. Esse momento pode ocorrer dias, semanas ou até meses após a perda, quando a pessoa compreende de forma mais concreta a ausência definitiva. Por fim, ocorre a aceitação, etapa em que o indivíduo reconhece a realidade da perda e inicia um processo de retomada dos vínculos com a vida.

“É importante lembrar que cada indivíduo é diferente e vai externar essa emoção de uma maneira diferente. Em algum momento se vivencia uma certa aceitação, um entendimento de que aquele episódio é real, e a pessoa começa a trazer novamente esses ligamentos com a vida”, conclui.

O pôr do sol sobre a água representa a continuidade da vida após a perda, sugerindo a possibilidade de seguir em frente sem apagar a memória de quem se foi. Foto Bárbara Carvalho /Em Pauta

 

 

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