Em “O Céu da Língua”, a linguagem sobe aos palcos

A peça estrelada por Gregório Duvivier mostra como a linguagem é um elemento vivo e que dá sentido a vida

Por Rafaela Silveira / Em Pauta

“Roteiro de “O Céu da Língua”, por Gregório Duvivier e Luciana Paes. Imagem: Rafaela Silveira / Em Pauta.

Há alguns dias, eu fui em uma peça de teatro, que é uma das minhas atividades favoritas, e na saída comprei o roteiro. Hoje, lendo e relembrando, voltei a ter o sentimento que eu tive quando terminou o espetáculo: eu queria que todo mundo que conheço tivesse assistido também. Essa foi a sensação que tive com “O Céu da Língua”, com Gregório Duvivier em cena e direção por Luciana Paes. O espetáculo é uma aula sobre linguagem, com muito humor e jeitinho brasileiro.

Gregório apresenta curiosidades linguísticas, etimologias, palavras intraduzíveis de outros idiomas e vai conectando tudo isso com reflexões sobre as pessoas e a humanidade. A peça é complexa porque ela te faz rir e, dois segundos depois, te faz pensar sobre a existência. E o mais impressionante é que essa estrutura não parece forçada. O texto é extremamente bem construído, dinâmico e engraçado.

Em um momento, falando sobre as palavras intraduzíveis de outros idiomas, Gregório fala:

Shemomechama é uma palavra da Georgia pro hábito de continuar comendo mesmo depois de já estar satisfeito. Como a gente não tem essa palavra no Brasil, o país que inventou a churrascaria rodízio? Abbioco é aquele soninho depois de comer muito. Fika, na Suécia, é a socialização em torno do café. Culaccino é uma palavra do italiano para a mancha que um copo gelado deixa na mesa. Desde que aprendi essa palavra eu tô mais atenta aos culaccinos. A existência de uma palavra não significa que os falantes pratiquem mais o fenômeno, mas o contrário: que a cultura em questão está mais atenta ao fenômeno.

Ele entrega a ferramenta pra olhar pra tua própria língua de outro jeito. A ideia de que uma palavra existe não porque o povo faz muito aquilo, mas porque presta atenção naquilo, muda completamente a forma como a gente entende o vocabulário como espelho cultural. No português, falamos cafuné, chamego, e saudade. E isso diz muito sobre o nosso povo. Também existem 37 palavras para descrever bagunça, o que confirma o ponto. É o nosso carnaval.

Mas o momento que mais me atravessou, é quando ele sai desse universo de curiosidades estrangeiras e volta pro nosso idioma:

Despedida é uma palavra nossa. Que a gente não dá muito valor. Em inglês, eles falam “say goodbye”. Ou “decir adiós”. Ou “Au revoir”. Em muitas línguas se despedir é dizer tchau. Mas é diferente, despedida não é dizer adeus, mas a cerimônia do adeus. Só uma língua que inventou a saudade poderia ter inventado a despedida. Se a saudade é a presença de uma ausência, a despedida é o prenúncio dessa ausência. Nos despedimos porque sabemos que vamos sentir saudades, e a despedida vai ajudar na saudade futura. Se despedir é tornar presente aquilo que não estará. Por isso a gente gosta de se despedir. E passa a vida inteira se despedindo.

Trecho do roteiro “Céu da Língua”. Imagem: Rafaela Silveira / Em Pauta.

“O Céu da Língua” tem esse mérito raro de ser, ao mesmo tempo, extremamente acessível e extremamente denso. Dá pra ir sem saber nada de linguística, como eu, e sair rindo pra caramba, ou dá pra ir estudando Letras e sair com uma lista de referências pra pesquisar depois. Eu aprendi muito, ri muito, e principalmente saí de lá com vontade de conversar sobre a linguagem com as pessoas ao meu redor.

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