A Sociedade Música Pela Música reencontra o Sete de Abril após 16 anos de silêncio
Sob regência de Sérgio Sisto, cerca de 40 coralistas e solistas participam da primeira semana de funcionamento do Theatro e defendem o palco como espaço de formação de público e transformação social
Por Adriana Cunha e Luiz Inácio Amorim / Em Pauta
Quatro dias após a reabertura, o Theatro Sete de Abril recebeu, depois de 16 anos fechado para apresentações com público, cerca de 40 coralistas e solistas da Sociedade Pelotense Música Pela Música (SPMM). Sob regência e acompanhamento ao piano do maestro Sérgio Sisto, no sábado (11 de julho), o grupo apresentou trechos de óperas e clássicos populares durante a programação gratuita da Semana de Pelotas, em um reencontro entre uma entidade de 35 anos, o público e um dos principais palcos da história cultural da cidade.
O Sete de Abril foi oficialmente reaberto no dia 7 de julho, aniversário de 214 anos de Pelotas. Interditado em janeiro de 2010, após uma vistoria apontar comprometimento na estrutura de sustentação do telhado, o prédio passou por uma obra de restauro e permaneceu fora do circuito de apresentações com plateia por mais de uma década e meia. Na primeira semana de funcionamento, o teatro recebeu música, dança e circo em uma programação que se estendeu até o dia 12.
A SPMM subiu ao palco depois do grupo Ojuobá — Cantos Sagrados e Populares. No repertório, estiveram obras como “Va, pensiero”, o “Coro dos Ferreiros”, “Libiamo”, da ópera La Traviata, a “Ária do Toureiro”, de Carmen, e a canção “Granada”. Ao lado do coro, participaram solistas acompanhados por Sérgio Sisto. Mais do que ocupar um horário na programação comemorativa, a apresentação deu aos integrantes da Sociedade a oportunidade de voltar a pensar o que um palco aberto pode fazer pela música produzida em Pelotas.
Cleusa Maria Graça Borba Monteiro tem 89 anos e canta na Sociedade há 26. O primeiro contato com o grupo aconteceu depois de uma apresentação no Centro Português. Ela gostou do que ouviu, fez o teste e passou a integrar o coro. Desde então, acumulou ensaios, festivais e apresentações, mas não descreve a experiência apenas como uma atividade musical. “Eu me sinto muito bem cantando. Rejuvenesço, fico muitos anos mais jovem”, conta.
Quando perguntada sobre uma memória favorita, Cleusa lembra de uma apresentação ligada ao Festival Sesc de Música. A resposta, porém, muda ao olhar para a noite no Sete de Abril. “Certamente hoje será uma memória favorita: a inauguração do Theatro Sete de Abril, pelo qual tanto esperamos”, afirmou antes de subir ao palco. Embora a cerimônia oficial de reabertura tenha ocorrido quatro dias antes, a fala traduz a sensação de participar do primeiro ciclo de espetáculos depois de 16 anos de portas fechadas.
Uma sociedade ligada à cidade
A história da SPMM começou em outubro de 1990, quando um grupo de pessoas interessadas em composições clássicas organizou um coral. Cinco anos depois, Sérgio Sisto assumiu a regência. Em 1996, a entidade foi declarada de utilidade pública e, em 2025, recebeu o título de Patrimônio Imaterial de Pelotas. O coro permanente reúne aproximadamente 60 vozes, enquanto a apresentação no Sete contou com cerca de 40 coralistas e solistas.
Sílvia Regina conhecia a Sociedade antes mesmo de fazer parte dela. Pelotense, viveu durante um período em Niterói, no Rio de Janeiro, e aproveitava as visitas à cidade natal, muitas vezes próximas ao Festival Sesc de Música, para assistir às apresentações do grupo. Quando voltou definitivamente para Pelotas, há cinco anos, não demorou a se unir ao coro.
Hoje, além de cantar como soprano, integra a diretoria como vice-tesoureira. Para Sílvia, a relação da Sociedade com a cidade pode ser percebida na resposta do público. “Quando anuncia qualquer atividade que nós tenhamos, a comunidade pelotense é muito receptiva e valoriza muito”, afirma. O reconhecimento como patrimônio imaterial, para ela, reforça um vínculo que já existia nas apresentações, nos ensaios e na presença do grupo em diferentes espaços culturais de Pelotas.
A ligação entre a entidade e o Sete de Abril também atravessa a trajetória de Sérgio Sisto. O maestro já havia regido no teatro na década de 1990 e chegou a assumir a direção artística da casa nos anos 2000. No retorno do palco ao circuito cultural, foi novamente ao piano que ele conduziu o coro e os solistas da Sociedade.
Um palco para formar público
Roger Bueno Gomes dos Santos conheceu a SPMM em 1995, quando tinha cerca de 18 anos. Apaixonado por ópera, recebeu o convite de um integrante, fez uma audição com Sérgio Sisto e entrou para o coro no segundo semestre daquele ano. Participou de diferentes espetáculos, passou um período afastado ao morar em outra cidade e, mais tarde, retornou a Pelotas. O vínculo com a Sociedade permaneceu e foi também uma das razões que o aproximaram da formação profissional em música.
Em 2020, Roger ingressou no curso de Música da Universidade Federal de Pelotas. Também passou a integrar a Companhia de Ópera do Rio Grande do Sul e atua como solista da SPMM. Ao falar sobre a importância da entidade, ele começa por uma condição básica: para que exista público, primeiro é preciso que as pessoas tenham a oportunidade de ouvir.
“Não há como tu gostares de algo que tu não conheças”, afirma. Para Roger, o papel da Sociedade é difundir música de qualidade sem construir uma divisão rígida entre o erudito e o popular. “A música que hoje é tratada como clássica já fez parte do cotidiano de outras épocas. Do mesmo modo, uma obra popular do presente pode permanecer e ser reconhecida no futuro”, lembra.
O contato com esse repertório, segundo ele, não serve apenas para ensinar nomes de compositores ou apresentar uma forma musical. “É como se tu deixasses de enxergar as coisas em preto e branco e passasses a enxergar em cores. Muda a percepção. A música transforma e muda vidas.”
Roger afirma que o trabalho desenvolvido pela Sociedade já alcançou jovens de bairros periféricos de Pelotas e ajudou alguns deles a construir carreiras como cantores. Para ele, a transformação não se limita ao destino individual de quem passa pela formação: alcança também as famílias e os lugares de onde esses artistas vieram. É um impacto que nem sempre aparece, mas pode ser sentido por quem convive com o trabalho da entidade.
A reabertura do Sete de Abril amplia esse alcance. Na avaliação do cantor, Pelotas possui músicos e vozes capazes de ocupar grandes palcos, mas ainda oferece poucas oportunidades para que eles construam uma carreira na própria cidade. Sem mercado e sem uma agenda contínua de apresentações, muitos precisam procurar espaço em outros centros — e, em alguns casos, fora do país.
Depois do silêncio
Durante 16 anos, a ausência do Sete de Abril foi também a ausência de um dos espaços capazes de reunir artistas, público e memória no centro de Pelotas. A reabertura devolve à cidade um prédio restaurado, mas o sentido do retorno depende do que passa a acontecer dentro dele. Para os integrantes da Música Pela Música, isso significa oferecer palco às vozes locais e criar condições para que mais pessoas conheçam repertórios que, muitas vezes, permanecem distantes do cotidiano.
Na primeira semana, o teatro voltou a ter plateia. Para a SPMM, porém, o reencontro só se completa se o palco permanecer aberto e em movimento. “Só não temos público quando não estamos no palco”, resume Roger.
Depois de 16 anos de silêncio, o Sete de Abril voltou a oferecer a Pelotas a chance de ouvir — e de descobrir — os próprios artistas.





