“Depois Daquele Ano” mostra que é possível fazer adaptações consistentes
A série “Depois Daquele Ano” adapta o sucesso literário “Depois Daquele Verão” sem perder a essência da história
Por Manuela Bragamonte / Em Pauta
Adaptar um livro que conquistou milhares de leitores nunca é uma tarefa simples. Em “Depois Daquele Ano”, série inspirada no romance “Depois Daquele Verão”, de Carley Fortune, o desafio foi transportar para as telas uma narrativa marcada pela nostalgia, pelos sentimentos não ditos e pelas lembranças de um verão que mudou a vida de seus protagonistas.
A produção preserva o núcleo emocional da obra original ao acompanhar a trajetória de Percy e Sam, dois amigos que constroem uma conexão profunda ao longo dos anos. Assim como no livro, a narrativa alterna entre momentos do passado e do presente, permitindo que o público descubra gradualmente como essa relação foi construída. A diferença está na forma como a adaptação reorganiza alguns acontecimentos para criar maior suspense entre os episódios e manter o ritmo característico das produções seriadas.
Uma das principais mudanças aparece no desenvolvimento dos personagens secundários. Enquanto o romance concentra quase toda a atenção na perspectiva de Percy, a série amplia o espaço dedicado a figuras como Charlie, Delilah e às famílias dos protagonistas. Essa escolha torna o universo da história mais amplo e oferece novas camadas às relações que, no livro, aparecem de maneira mais discreta.
Outro aspecto que diferencia as duas versões é a forma de transmitir as emoções. A narrativa literária permite que o leitor acompanhe os pensamentos e conflitos internos da protagonista, recurso difícil de reproduzir na televisão. Para compensar essa ausência, a adaptação aposta em diálogos inéditos, cenas exclusivas e uma atuação marcada por silêncios, olhares e gestos que comunicam sentimentos sem a necessidade de longas explicações.
Visualmente, a série também expande a experiência do livro. As paisagens do lago, as cabanas e a atmosfera dos verões ganham protagonismo por meio da fotografia, reforçando a sensação de nostalgia que permeia toda a narrativa. O cenário deixa de ser apenas um pano de fundo e passa a contribuir diretamente para a construção da identidade da obra.
Embora existam alterações na ordem de alguns acontecimentos e a inclusão de cenas que não fazem parte do material original, essas mudanças não descaracterizam a essência da história. Pelo contrário, funcionam como adaptações necessárias à linguagem audiovisual, oferecendo um ritmo mais dinâmico sem comprometer os principais temas do romance.
No fim, “Depois Daquele Ano” não busca substituir “Depois Daquele Verão”, mas dialogar com ele. A série apresenta uma leitura própria da obra, preservando sua sensibilidade enquanto explora possibilidades que apenas o formato televisivo permite. Para quem já leu o livro, a adaptação oferece novos olhares sobre personagens conhecidos. Já para quem conhece a história pela primeira vez na televisão, a leitura do romance continua sendo uma oportunidade de aprofundar sentimentos e nuances que somente a literatura consegue revelar.



