Entre as classificadas da 20ª Reculuta da Canção Nativa, música renova a tradição cancioneira com um tom mais intimista
Por Bryan Sanches Kern
Juliano Moreno interpreta canção composta também por Rafael Teixeira Chiapetta
A canção “Perfume de China”, interpretada por Juliano Moreno e Rafael Teixeira Chiapetta, apresentada na 20ª Reculuta da Canção Crioula, em 2024, constitui uma manifestação relevante da música nativista contemporânea do Rio Grande do Sul. Inserida no contexto dos festivais tradicionalistas, a obra reafirma o compromisso de preservar e atualizar elementos culturais característicos da identidade sul-rio-grandense. Pode ser situada dentro do panorama da música regional gaúcha, considerando sua construção poética, seus aspectos musicais e seu significado cultural.
A Reculuta da Canção Crioula integra um conjunto de festivais nativistas que, desde a década de 1970, desempenham papel fundamental na valorização e difusão da cultura gaúcha. Esse movimento, denominado nativismo, buscou fortalecer uma estética musical própria, vinculada ao ambiente rural, à figura do gaúcho e aos símbolos identitários do Estado, tais como o cavalo, o mate, a paisagem campeira e o cotidiano do homem do campo.
Nesse contexto, “Perfume de China” representa uma continuidade desse processo cultural, mas também uma renovação estética. A obra se distingue por privilegiar uma abordagem mais introspectiva e sensível, deslocando a narrativa épica tradicional para uma dimensão de memória afetiva e subjetividade. Dessa forma, insere-se em uma fase mais recente do nativismo, na qual a tradição é reinterpretada a partir de experiências individuais e simbolismos mais sutis.
Poética e simbolismo na letra
A letra da canção utiliza imagens sensoriais que evocam principalmente o olfato, sentido frequentemente associado a recordações emocionais. O “perfume de china” funciona como metáfora central, representando não apenas a presença feminina tradicionalmente denominada “china”, mas também um conjunto de lembranças afetivas que atravessam o tempo. Assim, o perfume converte-se em símbolo de permanência, constituindo um elo entre passado e presente.
A figura da china, recorrente na literatura e na música regional gaúcha, é aqui revisitada não como personagem secundária do universo campeiro, mas como elemento afetivo essencial. Ao relacionar essa figura ao perfume, a canção atribui à memória feminina um caráter imaterial e duradouro, reforçando a importância da afetividade na construção da identidade cultural.
Os versos exploram ainda elementos da paisagem e da vida rural, porém não de forma descritiva, mas sensorial. A paisagem não é apresentada como cenário estático, e sim como extensão da subjetividade do eu lírico, conferindo à obra um caráter poético que vai além da estética meramente documental, comum em parte da canção nativista tradicional.

Sonoridade leva a uma escuta das emoções expressas sem excessos
Aspectos musicais
Musicalmente, “Perfume de China” emprega instrumentos característicos da música regional, como violão, gaita e contrabaixo acústico. A estrutura harmônica é simples e de andamento lento, o que contribui para a atmosfera contemplativa sugerida pela letra. Essa escolha favorece a recepção da canção enquanto expressão emocional e introspectiva.
As interpretações de Moreno e Chiapetta são marcadas por um registro vocal contido e intimista, sem excessos de ornamentação ou dramaticidade. Esse tipo de vocalização aproxima a obra da estética já consolidada no nativismo contemporâneo, em que a palavra poética é valorizada e a interpretação busca transmitir sinceridade e transparência emocional. Assim, a sonoridade reforça a proposta da canção e se harmoniza com seus elementos simbólicos.

Juliano canta a tradição gaúcha vivida no seu cotidiano
Dimensões culturais e identitárias
A cultura gaúcha mantém forte vínculo com a memória, o pertencimento e a territorialidade. “Perfume de China” dialoga diretamente com essa dimensão, ao ressignificar símbolos tradicionais e incorporá-los à experiência afetiva individual. A metáfora do perfume destaca a imaterialidade da memória e reforça a ideia de que a tradição não se limita às práticas concretas, mas envolve sentimentos, valores e lembranças transmitidos entre gerações.
Desse modo, a canção contribui para a compreensão da cultura regional como dinâmica e processual, afastando-se de representações fixas e estereotipadas. A tradição, portanto, é apresentada não como repetição do passado, mas como vivência cotidiana constantemente reelaborada.
A música nativista passou por transformações desde sua consolidação nos festivais da década de 1970. Se, inicialmente, prevalecia um tom épico e coletivo, associado à exaltação da figura do gaúcho e de suas práticas, a produção contemporânea tem incorporado elementos mais subjetivos. “Perfume de China” representa essa mudança ao enfatizar sentimentos individuais, vínculos afetivos e metáforas sensoriais sem abandonar os símbolos regionais.
Assim, a canção estabelece um diálogo equilibrado entre tradição e contemporaneidade. Ela reafirma elementos identitários do Rio Grande do Sul, mas por meio de uma abordagem poética que amplia o alcance da música regional, permitindo que ela se conecte também com públicos urbanos e com novas gerações que buscam outras formas de representação cultural.
“Perfume de China” se destaca como uma obra relevante no contexto da música nativista atual por reunir sensibilidade poética, interpretação musical refinada e forte carga simbólica. Ao tratar da figura da “china” como elemento afetivo e da memória como dimensão fundamental da identidade regional, a canção reforça a importância da tradição, mas sob uma perspectiva contemporânea e intimista.
A obra contribui para a compreensão de que a cultura gaúcha permanece em constante transformação, renovando-se a partir de interpretações individuais e coletivas. Sua relevância está justamente na capacidade de conciliar elementos tradicionais com uma expressão estética atualizada, fazendo com que a música regional se mantenha significativa em diferentes contextos sociais e geracionais.
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