Longa-metragem traz história presente na nossa sociedade, mas na maioria das vezes, silenciadas pelo sistema
Por Giovana Costa
No dia 7 de agosto, o filme “A Melhor Mãe do Mundo” chegou ao cinema brasileiro trazendo uma narrativa comovente, com debates sensíveis e intensos. Dirigido por Anna Muylaert, a trama relata a história de Gal, interpretada por Shirley Cruz, uma catadora de materiais recicláveis que decide fugir de casa com seus filhos para escapar da violência do marido Leandro, papel interpretado por Seu Jorge. Com apenas sua carroça como refúgio, a protagonista atravessa a cidade de São Paulo em busca de segurança e recomeço.
O longa-metragem tem como objetivo principal trazer esse debate da violência doméstica, mas durante os seus 106 minutos vêm à tona diversos pontos para serem pensados, como por exemplo uma realidade totalmente silenciada da sociedade brasileira, a vida de vários recicladores, pessoas que vivem à margem da sociedade e que dependem da reciclagem para sobreviver.
Logo no início do filme, somos inseridos na rotina desses trabalhadores, começamos a entender a história da protagonista Gal (Shirley Cruz), o quanto ela batalha e as suas dificuldades na reciclagem, usando toda sua força para puxar a carroça. Mas também é perceptível a sua angústia no olhar, e que o peso que ela carrega nas costas não é apenas da sua carroça, e, sim, de uma rotina exaustiva de ser mãe e de todos os abusos que sofre dentro da sua casa.

Quando Gal iniciou a “aventura” com seus filhos Fotos: Divulgação
A diretora Anna Muylaert aborda com sutileza e com uma linguagem intimista vivências femininas que estão presentes na nossa sociedade, mas são silenciadas. Ela convida o espectador a embarcar na aventura de Gal e seus filhos, a recicladora cria coragem e se joga pelas ruas de São Paulo apenas com seus filhos e a sua carroça, vivendo dias angustiantes, sem saber se vai ter o que dar de comer para os filhos, sem ter segurança para dormir. Gal ainda recebe ligações de seu marido Leandro, que não sabe onde ela está. Vivendo dias na corda bamba, finalmente ela chega na casa de sua prima, onde acha que pode ser seu refúgio.
Ao chegar na casa, o espectador já percebe que a realidade da prima de Gal não é muito diferente. O seu marido também faz o uso de álcool com frequência. E, em uma conversa das duas, sua prima confessa que é traída pelo marido, mas trata isso com a maior naturalidade. Além disso, em alguns momentos, é mostrado que a sua prima, além de cuidar da casa e dos filhos, também é responsável pelo bem-estar do seu sogro que sofre de Alzheimer.
São nesses diálogos presentes no longa, que a diretora relata histórias íntimas e totalmente políticas, nas quais surgem questionamentos do tipo: Quem cuida das mulheres que cuidam de todo mundo?

Gal e seu marido Leandro no momento que ele a encontrou na casa da prima
Outro ponto chamativo do filme são as cores. Nas cenas em que a Gal está apenas com os filhos, as cores estão mais vivas, mas quando está com o marido tudo se fecha, como, por exemplo, na cena em que Leandro a encontra na casa de sua prima. Imediatamente Gal foge para o banheiro, enquanto ele bate na porta. A câmera se dirige para seu olhar angustiante, e as cores escurecem, ficando claro apenas na volta dos seus olhos, para mostrar para o público o medo que a personagem carrega.

O conforto do abraço de uma mãe
“A melhor mãe do mundo”, sem dúvidas, é um filme emocionante, dirigido por Anna Muylaert, conhecida por obras como “Que Horas Ela Volta?”. A realizadora mantém seu olhar característico sobre questões sociais brasileira. Durante todo o longa, o espectador é convidado a mergulhar na viagem de Gal e seus filhos, e, ao longo da trama, reconhecer seu esforço. Apesar das dificuldades, ela tenta dar o melhor para os seus filhos.
O filme nos entrega um retrato corajoso, que já vem à tona em seu título, mostrando para o público a força de uma mulher, e que a sua coragem e resiliência ficam mais fortes, justamente por ela ser mãe.
Ficha técnica
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Shirley Cruz, Rihanna Barbosa, Benin Ayo, Seu Jorge, Luedji Luna, Rubens S. Santos, Rejane Faria, Lourenço Mutarelli.
Duração: 106 min.
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