Incêndio destruiu célebre Teatro 28 de Setembro

Espaço foi uma referência cultural gaúcha até 1917 em Bagé   Foto: http://memoriasdopampa.blogspot.com.br/

 

Mariana Lealdino

     O Theatro Guarany, na cidade de Pelotas, mantém sua reputação no interior do estado do Rio Grande do Sul e atrai os mais diversos shows e espetáculos para os apreciadores de qualidade artística. O Guarany se destaca em imponência, e nos detalhes arquitetônicos, e está presente nos roteiros turísticos que contam um pouquinho da história de uma Pelotas de outrora. O que poucos sabem, é que a aproximadamente 200 quilômetros de distância, Bagé já teve um dos teatros mais bonitos e importantes do Estado. O Teatro 28 de setembro estava em quarto lugar da região, em tamanho e acomodações, e chamava a atenção no quesito beleza, e em sua arquitetura luxuosa interna. Sua história está registrada no livro “Inventário cultural de Bagé: um passeio pela história”, de Elizabeth Fagundes (Praça Matriz de Bagé. 2005).

A criação da Sociedade “28 de setembro”, mantedora do teatro do mesmo nome, foi iniciativa do Clube Abolicionista, militantes do Partido Liberal, no período do Segundo Reinado. O nome do teatro foi uma homenagem à data que promulgou a Lei do Ventre Livre em 1871. O surgimento desta lei reacendeu, no Rio Grande do Sul, a campanha abolicionista. O teatro foi construído para servir de instrumentos aos ideais desse movimento humanitário que integrava o Partido Liberal.

Bagé já ostentava o título de cidade e não possuía um teatro amplo, só pequenos teatros adaptados. O projeto, segundo pesquisas, foi de José Obino. A execução da obra ficou a cargo de Paulo Gusiles, tendo como sócio João Moll. As pinturas do interior foram feitas por Ricardo Giovanini, italiano natural de Parma, que chegou em Bagé, em 1885, como cenógrafo da Companhia Lírica Italiana. Logo resolveu fixar residência na cidade. Giovanini também era pintor e ministrava aulas. No início do século, transferiu-se para Rio Grande.

Uma sociedade anônima criada em 1881, presidida pelo advogado pecuarista, José Francisco de Freitas, dirigia o teatro.

Conforme um artigo publicado no jornal Correio do Sul, de 12 de julho de 1992, escrito por Francisco Taborda, o cinema em Bagé teve sua estreia no Teatro 28 de Setembro, logo depois que as primeiras exibições ocorreram na França. A primeira sessão cinematográfica foi em Paris, no Grand Café, em 28 de dezembro de 1896, quando os irmãos Louis e August Lumière exibiram um documentário de 17 metros denominado “Saída dos Operários da Fábrica”.  Dois anos depois, em 1898, antes mesmo de Pelotas e de Rio Grande, que eram os pontos de entrada da Europa, Bagé assistiu a espetáculos do “cinematógrafo” dos irmãos Lumière.

No início de 1898, O Teatro recebia em seu palco a Companhia de Variedades do Teatro Lucinda do Rio de Janeiro. Na programação do dia 9 de janeiro de 1898, um domingo, figurou como integrando à segunda parte do programa da noite, a apresentação dos seis quadros do cinematógrafo. O jornal da época, O Commercio, publicou: “É a maravilha do século “!

No dia 16 de novembro de 1912, o médico Nicanor Peña, maragato, morreu, aos 53 anos de idade dentro do teatro. Conta-se que ele se sentiu mal, e teria dito: “Levantem-me, quero morrer de pé”.

Em 1916, o teatro chegou a receber a presença de Olavo Bilac, o cronista e poeta brasileiro do período literário parnasiano, membro fundador da Academia Brasileira de Letras. 

Infelizmente, contudo, durante uma sessão cinematográfica, um incêndio destruiu o teatro.  A cidade inteira foi chocada com a notícia que em 10 de junho de 1917, às 22h30min, iniciou-se um fogaréu que afetaria gerações dos amantes das artes. As pessoas que assistiam ao filme, juntamente com os funcionários, saíram sem ferimentos. Mas o prédio logo foi consumido em chamas.

Segundo os jornais da época, o operador do cinema causou o incêndio ao ter aproximado um foco de luz elétrica de um rolo de fita, afastando-se da máquina sem tentar apagar o fogo rompido. Bagé não tinha corpo de bombeiros na época.

Até hoje, lamentavelmente, não houve recursos para se construir outro teatro local, que é uma demanda exigida por muitos artistas da cidade. Anos após, o terreno foi permutado e nele construído o Banco do Brasil.

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