Realidade agridoce: como doces artesanais sustentam estudantes da UFPel

Conheça as histórias das microempresas universitárias Bolos Forenses, Miiau Cookies e Patas de Açúcar

Luís Esteves Garcez/Em Pauta

Equilibrando uma vida universitária marcada por alegrias e dificuldades, três alunos da UFPel encontraram nas panelas uma forma criativa de complementar a renda, ao mesmo tempo que levam alegria para colegas e professores e cultivam a paixão pela culinária. Anderson Crizel Pinheiro Holz (dono do “Bolos Forenses”), Natalya Dettman (criadora do “Miiau Cookies”) e Eduarda Dos Passos Pereira Girão (mente por trás do “Patas de Açúcar”) vendem doces artesanais pela Universidade Federal de Pelotas.

“Eu adoro cozinhar, adoro estar na cozinha. Fazer o bolo, a cobertura, os recheios, ter novas ideias são coisas que me dão bastante alegria”, conta Anderson, mestrando em Química de 30 anos, que viu seu bolo de laranja viralizar primeiro entre os amigos de Rio Grande, sua cidade natal. Logo em seguida, a fama do doce chegou na própria cidade do doce, quando colegas e professores passaram a fazer encomendas.

Anderson começou a fazer os bolos aos 29 anos, no final de 2024. “Parte do motivo era juntar no valor da renda pra pagar o aluguel daqui de Pelotas”, revela. A fama cresceu organicamente: “O pessoal da UFPel, principalmente professores, começaram a comentar que queriam provar”. Seus bolos autorais, nos formatos tradicional, vulcão e torta, levam títulos forenses, homenageando sua formação em Química Forense, área que apaixona o mestrando. Aprendeu culinária sozinho aos 20 anos e sente orgulho de dizer que cada uma de suas receitas tem seu toque especial; cada um dos sabores da Bolos Forenses é único e não pode ser encontrado em nenhum outro lugar, como uma digital.

Apesar do prazer em cozinhar e em gerir a marca, admite desafios: “Muitas vezes, pra dar conta das encomendas, eu já fui de virada pro campus, sem dormir, o que me dava um cansaço físico e mental que dificultava bastante. Realmente estava sendo um período bem complicado, até que chegou um ponto que eu percebi que precisava cuidar da minha saúde também, aí comecei a dar uma diminuída nas produções.” Hoje, Anderson considera ter adquirido mais maturidade em relação a esse aspecto e consegue equilibrar as vendas com os estudos. Uma realização importante, considerando que a defesa da dissertação do mestrando acontece ainda esta semana. Como consequência, a produção de bolos está pausada há dois meses. Anderson planeja retomar ainda em março, pois já tem em mente que enfrentará um período de até dois meses sem auxílio acadêmico, enquanto espera a bolsa do doutorado sair.

O famoso bolo de laranja, primeiro item do cardápio da Bolos Forense. Foto: Anderson Holz/ especial Em Pauta

Natalya, com seus recém-feitos 23 anos, cursa o 3º semestre de Letras – Redação e Revisão de Textos e lançou a Miiau Cookies em 14 de julho de 2025. “O nome do Miiau Cookies veio porque na época meu gato ainda não era castrado e ele miava muito”, ri. Veio de Camaquã para Pelotas com o noivo; hoje, 100% da renda que ela traz para dentro de casa é dos cookies. Testes intensos (de 3 a 4 meses) criaram receitas próprias; a doceira considera que acertar a massa com Nutella foi o “turning point” da marca.

Sua habilidade de doceira carrega um legado afetivo: “Acho que é um carinho pela cozinha que vem de família mesmo… quando eu era pequena demais para cozinhar, eu assistia minha vó na cozinha e ficava fazendo várias perguntas. Minha família sempre foi muito fã de doces bem caseiros, então fazíamos desde a goiabada pro biscoito até o biscoito em si; minha mãe também fazia bolos e recheios pra nós, então acho que, por crescer no meio disso, eu acabei pegando um carinho por cozinhar.”

Hoje, morando sozinha, ela perpetua essa tradição: “sigo as mesmas coisas, mas com toques pessoais”. Foi essa base que a levou aos cookies recheados, inspirada por uma trend de tortas de cookie de Nutella e catalisada por um vídeo viral de confeiteira; testou por meses até acertar a massa pela primeira vez. “Eu amo cozinhar, acho que é uma das coisas que mais gosto de fazer”. Assim nasceu a Miiau Cookies, com quatro unidades de cookies sabor chocolate meio amargo, assados em uma air fryer.

No entanto, fevereiro de 2026 expôs a fragilidade dessa empreitada. Natalya enfrenta um “limbo”: recesso acadêmico, carnaval e um calendário letivo bagunçado. “Hoje mesmo, cheguei no Anglo às seis e meia e até agora vendi só uma unidade. Tá só eu e os cachorrinhos no corredor”, descreveu, frustrada, faltando dez minutos para as oito da noite. Seu público é inteiramente universitário, então recessos não só atrapalham, eles colocam uma chave de fenda metafórica nas engrenagens da Miiau Cookies. O final de semestre em um mês isolado já diminui muito a circulação dos estudantes (nesse período, quem pode faltar aula normalmente vai faltar aula), unido a isso, diversos professores de diferentes cursos decidiram por aulas remotas no mês, diminuindo ainda mais a quantidade de alunos no Anglo e afetando diretamente a renda de Natalya. “Não achei que o ano fosse literalmente só começar após o carnaval.”

Uma das primeiras embalagens da Miiau Cookies. Foto: Natalya Dettman / especial Em Pauta

Eduarda Girão inicia o terceiro semestre de Jornalismo no final de março e iniciou a marca Patas de Açúcar em outubro de 2025 (inspirada na Miiau Cookies, inclusive). A menina de 19 anos traz a história mais recente das três, mas nem por isso menos transformadora. O “Patas”, como ela chama carinhosamente, surgiu da necessidade prática de renda extra para se manter estável, além de permitir para a menina um ou outro luxo de vez em quando, complementando com o que ela ganha no estágio na Radiocom 104.5 FM. Eduarda diz que rapidamente começou a gostar genuinamente de cozinhar e o Patas parou de ser apenas uma fonte de renda. Sua relação com a culinária é nova, mas enraizada na infância: via minha mãe fazendo doces em casa desde criança e ajudava com coisas simples; até hoje liga para casa em busca de dicas maternas quando decide testar algo novo na cozinha. Essa ponte familiar suaviza o aprendizado e facilita a união do empreendedorismo com o recém-descoberto hobby autêntico.

Durante os três últimos meses de 2025, seus biscoitos caseiros cativaram mais professores que alunos: “Tenho uma leve suspeita que os professores do Jornalismo são formigas disfarçadas”, brinca a doceira. Pausou a produção pós-recesso para priorizar provas e trabalhos finais, mas não foi o único motivo. Eduarda presumiu que não teria movimento suficiente no Anglo durante fevereiro para que valesse a pena equilibrar a vida de estudante com a de vendedora e, analisando a situação relatada por Natalya, sua inspiração, pode-se dizer que Eduarda estava certa.

Além do lucro, o Patas trouxe ganhos intangíveis. “Vender minhas coisinhas para meus colegas e professores ajudou a ter uma conexão com eles, também fiquei muito feliz de receber elogios e dicas nesse processo”, conta. Para Eduarda, que admite ter dificuldades em se expressar com quem não tem intimidade, as vendas foram terapêuticas: “Acho que isso ajudou também a me abrir um pouquinho, melhorou minha autoconfiança”. Gerenciar a marca não atrapalhou seus estudos, pelo contrário, deixou a rotina da faculdade mais leve para a futura jornalista, pois apesar de desafios logísticos, como transportar os biscoitos até o campus, os ganhos se mostram muito maiores do que os prejuízos, indo muito além do significado financeiro de ambas as palavras.

Eduarda também relatou que o processo a fez perceber dinâmicas sociais não no campus em si, mas especificamente dentro de sua turma: competição interna e favoritismo. Eduarda diz que prefere se manter de fora: “Sempre tento ter cuidado em não vender algo que outra pessoa já esteja vendendo, acho que se eu fosse de outro curso que não tivesse ninguém vendendo, não ia ter essa competição”. No entanto, relações positivas prevalecem fora do círculo imediato: “No Anglo eu tenho uma amizade boa com a Miiau (forma como Natalya Dettman passou a ser conhecida pelo campus)”. Seu recado é de persistência: “Não é pra desistir de tentar fazer algo que tu gosta só por causa disso, mas talvez procurar um público mais interessado no que tu vende seja uma ideia melhor. O que deu certo pra mim foi focar nos professores”. Para o próximo semestre, a doceira planeja inovações, com o desejo de trazer algo novo que o campus Anglo ainda não viu.

Primeira foto de divulgação da Patas de Açúcar. Foto: Anna Siles / Em Pauta

O prazer é unânime. Anderson fica extremamente satisfeito com o feedback positivo, seja na vida real ou no ciberespaço. Natalya relata que o processo melhora seu humor e abre sua visão sobre quem está ao seu redor. Eduarda aprecia tanto o ato de testar coisas novas quanto as oportunidades de estabelecer novas conexões com colegas e professores, além de todo o aprimoramento pessoal que vender trouxe à menina.

Esses relatos pintam um quadro de prazer na cozinha e diversão nas vendas, mas, nas entrelinhas, eles também expõem as fragilidades do ensino superior público brasileiro. Com bolsas de mestrado e doutorado em transição demorada, dificuldade de encontrar oportunidades no mercado de trabalho como estudante, moradia cara em Pelotas (uma cidade que se diz universitária), junto a todas as outras contas e despesas da vida adulta e somado ainda com um calendário letivo sequelado da pandemia de 2020, muitos alunos recorrem a microempreendedorismos informais. Durante nossa conversa, Eduarda, após uma breve reflexão, desabafou que o apoio fica, na maioria das vezes, perdido em “postagens de Instagram”, não na estrutura real. No Brasil, onde federais concentram 80% dos alunos de baixa renda, essa “vida dupla” é normalizada, mas revela uma deprimente ironia sistêmica: todo incentivo (ou talvez seja melhor utilizar a palavra “pressão”?) governamental para colocar o jovem dentro da universidade, mas uma falta de suporte efetivo que garanta a permanência dele lá dentro.

A preocupação de Anderson com os meses que ficará sem o auxílio da bolsa, dependendo totalmente da renda da Bolos Forenses. Os momentos de fevereiro em que Natalya passou horas sentada nos corredores do Anglo, só para voltar para casa no final da noite levando de volta praticamente todos os cookies. A rivalidade presenciada por Eduarda, que é plenamente plausível considerando que, mesmo com um coleguismo comunitário entre estudantes que entendem o quão difícil é se virar na universidade, uma venda feita por um deles pode muito bem custar a venda de outro. Todas essas situações são rasgos em um papel de parede que, se arrancados, revelam uma parede em urgente necessidade de reformas.

A resiliência dos três guia, incentiva e inspira. Anderson retornará com toda garra após sua defesa. Natalya exportou a sua marca dos corredores universitários para o iFood e feiras pela cidade; Eduarda batalhou contra sua timidez e venceu, mal terminou o semestre e já pensa nas novidades que trará para o próximo, tendo certeza de que não vai desistir. No campus, os doces dos três, e todas as comidinhas (e diversos outros produtos) vendidas pelos inúmeros outros alunos com uma história que essa matéria não traz, tecem conexões e aprimoram múltiplas habilidades: culinária, empreendedorismo, logística, comunicação etc. Entretanto, a reflexão sistêmica não pode ser deixada de lado: federais deveriam ir além de vagas, as bolsas deveriam ser mais estáveis, os auxílios-moradia deveriam ser mais fáceis de conseguir, deveria existir um apoio emocional concreto dentro de cada campus. Vários “deveria” nessa última frase, queria eu que a palavra apta para ser usada no lugar fosse “irão”. Enquanto isso não acontece, Bolos Forenses, Miiau Cookies e Patas de Açúcar adoçam não só o paladar de seus colegas e professores, mas a realidade de todos nós. Os três provam que o estudante brasileiro é forte e otimista, capaz de construir caminhos doces, mesmo em realidades amargas.

 

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