Caminho da música nativista vai da poesia das palavras à interpretação nos palcos

Processo criativo com raízes na cultura rio-grandense é marcado pela integração de compositores, melodistas, instrumentistas e cantores      

            Por Maikelly de Souza da Silva      

Existe um momento preciso, invisível ao público e silencioso para o mundo, em que uma história deixa de pertencer apenas a quem a viveu e começa a existir como algo maior. É um instante que acontece antes do palco, antes das luzes e do microfone, antes mesmo de qualquer nota ser reproduzida. Acontece quando um poeta começa a escrever o que sente, o que vive ou o que observa. É ali, naquele gesto, que começa uma canção.

O que vem depois disso, porém, é um percurso que poucos enxergam: uma cadeia de mãos e sensibilidades que transformam aquela poesia em música, capaz de produzir sentimentos até para quem nunca viveu aquela história. É um processo coletivo, uma construção em camadas, no qual contribui cada pessoa (poetas, melodistas, instrumentistas, intérpretes) com uma parte de si para que a canção, ao final, fique pronta. Todo esse processo criativo é testemunhado pelo violonista Ricardo Silva, e pelos cantores Robledo Martins e Marina Dornelles, que participam ativamente desta tradição musical.

 

      Instrumentos como a gaita dão lugar a processo que vai dos sentimentos íntimos à comunicação plena entre artistas e público Foto: Maikelly Silva

 

Quando a história começa

A música nativista gaúcha surgiu a partir dos anos 1970, em torno dos festivais que se espalharam pelo Rio Grande do Sul. Ela nunca foi apenas mero entretenimento regionalista. Desde sua origem, buscou narrar o mundo a partir do olhar do pampa. A canção nativista carrega letras com críticas sociais profundas, traduzidas com as linguagens e símbolos que fazem parte do imaginário do sul do Brasil.

Esse movimento não surgiu do nada. Ele se insere num contexto mais amplo de canção engajada na América Latina das décadas de 1960 e 1970. No Rio Grande do Sul, porém, esse impulso criativo encontrou um caminho próprio: artistas urbanos e universitários, muitos deles atravessados pelos debates da época, voltaram o olhar para o campo e para a fronteira, e ali encontraram uma matéria-prima rica e pouco explorada. Dali surgiu uma mistura sonora que mescla ritmos folclóricos gaúchos com experiências vocais, instrumentais e temáticas, criando algo genuinamente novo a partir de raízes antigas. Mas o que faz essa música resistir não é apenas o peso histórico ou a crítica social, é a capacidade de contar histórias que se parecem com a vida de quem escuta.

A palavra vem primeiro, e quase sempre, ela chega como fragmento. Às vezes, é uma frase que não sai da cabeça, às vezes, é uma cena que precisa ser nomeada. O poeta sabe que a emoção se esconde nos detalhes, e que o maior desafio não é escrever bem, mas ser verdadeiro no que escreve. Nessa fase, há uma solidão produtiva que define o processo criativo. Porém, a palavra que saiu de sua experiência (frequentemente íntima) vai ser lida, interpretada e moldada por outras pessoas. Cada uma com sua própria história, sensibilidade e visão daquilo que a letra está dizendo.

Quando a palavra encontra o ritmo

Se o poeta é quem planta a semente, quem começa com tudo, o melodista é quem faz brotar a raiz. Quem lê aquela letra e imagina qual nota combina com aquela sensação. Qual ritmo traduz aquele sentimento. Qual contorno melódico vai fazer aquela história respirar de uma maneira que talvez apenas as palavras não pudessem fazer.

A relação entre letra e melodia numa canção não é de hierarquia, mas de diálogo. A melodia não serve à letra, e vice-versa. Na verdade, ela a interpreta, às vezes concordando, às vezes criando tensão que enriquece o sentido. Uma melodia mais grave pode fazer uma letra nostálgica pesar ainda mais. Uma melodia sobre uma letra que fala de esperança pode transformar o verso de uma forma que nem o próprio poeta havia imaginado quando escreveu.  

Esse diálogo do melodista exige uma sensibilidade dupla: honrar o que o poeta escreveu e trazer sua própria visão, sua escuta, sua experiência. É um equilíbrio delicado que nem sempre vai ser rápido. Nessa fase, algo fundamental acontece. A canção começa a ganhar identidade própria. Uma vez que a melodia certa é encontrada, tudo parece encaixar em seu lugar com uma naturalidade inexplicável.

 

A poesia vira som nas mãos dos instrumentistas que traduzem palavras em acordes          Foto: Maikelly Silva

 

O som que veste a canção

Com a letra e a melodia em mãos, chega o momento da participação dos instrumentistas, que se integram com sua técnica e sensibilidade, criam a atmosfera que vai sustentar tudo o que até então foi construído.

Ricardo Silva começou a tocar violão aos oito anos, por influência familiar. Seus tios tocavam, seu pai tocava e toca até hoje. Nunca estudou música formalmente, aprendeu pelo que os músicos chamam de “tirar de ouvido”. Ao longo dos anos, ele acumulou uma trajetória diversificada, tendo tocado para públicos completamente diferentes, de bailes aos festivais nativistas, e explica que esse múltiplo percurso moldou uma compreensão particular sobre o que significa tocar. “Significa transmitir a mensagem poética das palavras através da sonoridade de uma melodia, através dos arranjos criados e da sua execução. Isso é tocar um instrumento: explorar a sua sonoridade”.

 

Para Ricardo Silva, tocar é a mensagem do poeta como uma extensão da alma através da sonoridade     Foto: Maikelly Silva

 

Segundo o músico, a técnica é necessária, mas não suficiente. Ela é o meio, não o fim. O instrumentista que domina apenas a técnica consegue executar a música, mas não necessariamente passar o que ela precisa transmitir. Para isso, é preciso algo mais: sensibilidade para ler a letra, entender o que ela quer dizer, e escolher a sonoridade que vai potencializar isso.

“O instrumentista, além da técnica de tocar, tem que ter a sensibilidade de analisar a letra e tentar passar o que ela quer transmitir para quem está escutando a música. Então, naquele momento, tu tens que ter a sensibilidade para escolher entre uma melodia alegre ou triste, usar acordes que consigam transmitir alegria ou tristeza, ou ansiedade. Então, através dos acordes e melodia que tu vais escolher, tu consegues transmitir o que o poeta está querendo falar na letra”.

Esse processo de escolha acontece nos ensaios. A maior parte dos arranjos nascem em encontros entre os músicos, dos momentos em que um sugere algo e outro responde, em que uma frase musical surge do improviso e é reconhecida por todos como a solução que estavam buscando.

“A conversa entre todos durante a criação de uma música é muito produtiva, porque cada um tem um ponto de vista diferente e cada um tem uma ideia. Unindo todas as ideias e os pontos de vistas, sai uma melodia. Muito da música é criado no ensaio e nos momentos em que a gente está ensaiando e executando”.

Quando os instrumentos se juntam, a dinâmica muda. Tocar sozinho exige um tipo de concentração, mas tocar em grupo exige outra, mais complexa e mais generosa. No grupo, é preciso saber quando avançar e quando recuar, quando destacar o próprio instrumento e quando ceder espaço para os outros. A harmonia do conjunto só surge quando cada um entende que sua função não é individual, mas sim coletiva.

“Quando tu estás tocando com mais instrumentos, quando se juntam mais instrumentos, tu tens que ter essa sensibilidade e o cuidado para que todos os instrumentos apareçam e contribuam, cada um com a sua parte, para que se crie uma harmonia nessa melodia”.

Ricardo usa o termo “dinâmicas” para descrever os momentos em que o instrumento fala mais alto, os picos expressivos de uma música, as passagens onde a sonoridade é usada deliberadamente para destacar algo. São esses momentos que, quando bem colocados, podem mudar completamente o sentido de um verso, transformando-o em algo inesquecível.

O primeiro sentimento que ele menciona quando começa a tocar é gratidão. Gratidão por ter o dom, por ter a oportunidade, por estar sendo o instrumento pelo qual uma mensagem vai chegar até alguém.

Ricardo conta que, no 4º Legado da Canção Gaúcha em Santo Ângelo, o grupo executava uma canção sobre os indígenas e sua terra. Na plateia, havia um homem indígena. Ao final da apresentação, o homem subiu ao palco e agradeceu em lágrimas.

A cada palmo da terra latina

Há um lamento ameríndio,

Segregando a realidade

Que escola conta dos índios.

[…]

Pois tudo que nos contaram

Sobre a colonização,

Não passa de uma mentira

Onde a verdade é invasão!”

 “Sepulcro Caiado”, de Igor Silveira.

 

São esses momentos que ilustram o que a música nativista pode fazer: transformar uma história particular numa experiência que atravessa a barreira entre quem canta e quem ouve.

 

 

A voz que transmite

Ao final de todo esse percurso, há uma voz. O intérprete é o último elo de uma longa teia, e geralmente é o que o público mais percebe. É ele quem recebe uma obra que passou por várias mãos e precisa fazer com que tudo isso transborde em seu corpo e seu instrumento mais potente – a voz.

 

Robledo Martins: arte está em colocar a própria identidade a serviço da história que a canção quer contar   Foto: Maikelly Silva

 

O músico Robledo Martins descobriu que queria cantar aos 17 anos, num anfiteatro de Pelotas, assistindo a um show de Noel Guarany. Antes disso, já tocava violão. Mas foi naquela noite que algo se confirmou, numa certeza silenciosa que ele descreve com precisão de quem sabe exatamente o quer dizer: é isso que eu quero, eu quero cantar. Desde então, nunca mais parou.

“É necessário, para um intérprete, entender o que o poeta quis expressar na sua escrita, para, assim, ser o instrumento de divulgação da obra. Através da interpretação, a música ganha asas, cor, nuances de vida, e de tantas coisas que acabam adjetivando o que a poesia pede”.

Para Robledo, o processo de dar vida a uma canção começa sempre pela letra. É a poesia que abre o caminho para a interpretação. Sem ela, aliada a uma melodia, não há como expressar o canto em sua plenitude.

“Para mim, é imprescindível a análise, se envolver com aquilo que foi escrito, que foi feito a melodia, estar perto dos compositores, é importante, pois cada compositor tem um estilo, um jeito de escrever e de musicar diferente dos demais, e isso é muito importante para a diversificação musical”.

Cada cantor tem, nas palavras de Robledo, a sua digital, uma forma de cantar que é irreproduzível, que carrega a soma de tudo que essa pessoa viveu, sentiu, perdeu e celebrou. Mas essa identidade não pode ser imposta à canção, ela precisa encontrar seu lugar dentro dela sem apagá-la. Por isso, a análise é imprescindível. O intérprete que não mergulha na obra que vai defender, corre o risco de colocar a si mesmo no lugar da história, quando deveria ser o contrário.

O que define o sucesso de uma apresentação, para ele, não é o aplauso. É o choro. O momento em que as pessoas na plateia estão com lágrimas nos olhos é o sinal de que chegou aonde todo o cantor quer chegar: no coração das pessoas. Mas o riso também conta, ele lembra. A alegria tem o mesmo peso.

 

Para Marina Dornelles, interpretar vai além da voz, o corpo inteiro fica entregue à narrativa Foto: Arquivo pessoal

 

A cantora Marina Dornelles cresceu cercada de música. Filha de músico, compositor, intérprete, violonista e pianista. A música não foi uma escolha de carreira, foi uma herança que ela fez sua.

“A música é meu refúgio. Quando tudo parece dar errado, é com ela que tudo faz sentido. Hoje em dia, estar no palco é uma grande realização pessoal”.

Interpretar vai muito além da voz. O gestual, a forma de vestir, o posicionamento no palco. Tudo isso faz parte da história que está sendo contada, continua Marina. É esse conjunto que transforma uma execução tecnicamente boa em algo que toca de verdade.

“É quando a poesia nasce, e me é mostrada… eu, particularmente, me emociono muito”.

Marina descreve uma situação como algo essencial sobre interpretar uma música: quando recebe uma composição que se encaixa perfeitamente no seu timbre, no seu tom, no seu estilo. É, segundo ela, o sentimento de vencer antes mesmo de subir no palco. A música parece ter sido feita para aquela voz.

“Não é só sobre cantar, é sobre viver e expressar a música por inteiro. Acredito que seja assim que a história realmente ganha forma e toca as pessoas, pelo menos é o que esperamos e tentamos fazer, com vontade e dedicação”.

Há ainda o reconhecimento mais íntimo: quando a letra fala sobre algo que ela mesma viveu, quando cantar não é interpretar uma história alheia, mas revisitar sua própria. Nesses momentos, a linha que separa o artista da canção desaparece.

“Com certeza. O que mais me faz sentir que a música lavou minha alma é a identificação. Cantar algo em que eu verdadeiramente acredito, sem tirar nem pôr, ou reviver uma história que já foi vivida por mim e está ali, contada na letra”.

Durante muito tempo, o campo da música nativista foi predominantemente masculino. Não por uma regra escrita, mas pelo acúmulo de convenções que foram se solidificando ao longo dos anos. Porém, nos últimos tempos, a presença feminina vem crescendo, ganhando força.

Levar uma canção ao palco é descrito por Marina como um respeito e uma responsabilidade sem igual. Há um trabalho inteiro por trás, toda uma construção coletiva que convergiu até ali. O intérprete é a voz que apresenta ao público o resultado desse trabalho.

“Eu percebo que a presença feminina no cenário nativista tem ganhado cada vez mais força. Particularmente, acredito que a voz feminina é especial, ela carrega sensibilidade… Quando uma canção é interpretada por uma mulher, sinto que a alma dela ganha outro sentido. A emoção vem de outro lugar, outro olhar”.

 

O caminho coletivo da música nativista, da palavra à interpretação

Existe uma pergunta que fica em todo esse processo: como algo que começou como uma experiência, em sua grande parte, particular, consegue se transformar em algo que todos reconhecem como seu?

A resposta, talvez, esteja justamente no caráter coletivo desse percurso. Cada mão por onde a canção passa adiciona um toque seu, sem deixar que a particularidade original suma. E quando finalmente chega ao público, a metamorfose se completa: a música passa a pertencer a todos.

Todo esse processo pode se resumir em um pouco do que o Robledo, a Marina e o Ricardo falam: é sobre pegar aquilo que muitas vezes não sabemos dizer e traduzir em voz, em nota, em entrega. É sobre a coragem de estar no palco de alma aberta. É sobre gratidão. Sobre responsabilidade com a obra, com os colegas, com o público.

A música nativista, entendida a partir dessa perspectiva, transforma-se em um arquivo vivo de experiências humanas contadas com as palavras, com os sons e com os símbolos do nosso lugar. Do Sul do Brasil. Do pampa, da fronteira, do campo, da cidade. Mas, ao mesmo tempo, transcendendo essa localidade.

Três formas diferentes de dizer a mesma coisa: que fazer música é um ato de entrega. Que é maior do que qualquer coisa. É uma forma de dizer que a história de um é a história de todos. Que a dor que não tem nome pode encontrar palavra. Que a palavra pode encontrar melodia. Que a melodia pode encontrar uma voz. E que essa voz pode tocar o coração de quem estava esperando por exatamente aquele som, mesmo que sem saber.

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