Grupos Antiga Pelotas, Pelotas Antiga e Olhares Sobre Pelotas se reúnem no Facebook, Instagram e Youtube, interessados em compartilhar imagens do passado da cidade
Por Pedro Ezequiel de Almeida

Participantes compartilham fotos como este antigo cartão postal com a Praça General Pedro Osório
Em um cenário conturbado de anos, o resgate histórico na cidade de Pelotas segue marcado por dificuldades ainda não resolvidas. A preservação da memória urbana parece caminhar em círculos: prédios históricos permanecem abandonados, como o edifício do Clube Comercial de Pelotas; obras de restauro acumulam atrasos, a exemplo do Grande Hotel, fechado desde 2018 para reformas que não se concluem; e espaços públicos centenários seguem sem revitalização, como a Praça Coronel Pedro Osório. Em contraste, cresce, paralelamente, o interesse popular em revisitar, registrar e discutir o passado da cidade.
Nas redes sociais, Facebook, Instagram e Youtube, iniciativas espontâneas passam a ocupar um vazio deixado fora das telas, funcionando como espaços de memória coletiva. Fotografias antigas, relatos pessoais e registros urbanos ajudam a reconstruir a história de Pelotas, ainda que de forma fragmentada, informal e distante das políticas oficiais de preservação.
Grupo Antigo Pelotas
Um dos exemplos mais expressivos desse fenômeno é o grupo Antiga Pelotas, no Facebook, criado há seis anos. Com cerca de 122 mil membros, o espaço reúne usuários interessados em compartilhar imagens de outras épocas, recordar vivências pessoais e trocar experiências ligadas ao cotidiano da cidade. Mais do que um ambiente de crítica, o grupo se consolida como um espaço de socialização guiado pela nostalgia de tempos passados e pelo apreço à cultura e à história de Pelotas.
Áurea Pimentel, uma das criadoras e idealizadoras do grupo, destaca que o crescimento do Antiga Pelotas foi muito rápido desde a sua criação, impulsionado pelo interesse coletivo em relembrar e compartilhar a história da cidade. “Com um ano e mais um pouco nós chegamos a 45 mil membros. A cada mil pessoas que entravam era uma alegria imensa. E nós continuávamos estudando a história juntos, publicando juntos, relembrando nossas memórias”, recorda.

Áurea Pimentel celebra tanto número de adeptos como comprometimento com objetivos do grupo
Todo o trabalho de organização, moderação e cuidado com o grupo é realizado de forma voluntária, reforçando o caráter colaborativo e comunitário da iniciativa. Na página, não há publicidade nem interesses comerciais envolvidos. O espaço é monitorado com o objetivo de preservar o respeito entre os participantes e garantir que o foco permaneça na história e na memória da cidade.
Para Áurea Pimentel, esse cuidado também parte do próprio público. “A melhor parte do Antiga Pelotas é o carinho do povo pelotense, do nosso público. É o zelo que eles têm com aquele espaço virtual que podem participar. São as pessoas dizendo que aqui não pode haver falta de educação, aqui não pode publicidade, aqui a gente não ataca ninguém. É aquele carinho, aquele zelo. Isso é o diferente”.

Página na rede social tem sido um modo de compartilhar memórias vivenciadas na cidade
Pelotas Antiga
Apesar do nome muito parecido, outro perfil é o Pelotas Antiga que atua principalmente no Instagram e reúne cerca de 16 mil seguidores. A página adota uma postura mais crítica em relação às transformações arquitetônicas da cidade e às perdas históricas acumuladas ao longo do tempo. Ao invés do debate aberto característico dos grupos no Facebook, o Pelotas Antiga aposta em uma curadoria definida e em uma narrativa cativante, que conta a história de Pelotas a partir dos arquivos, documentos e imagens que ainda restam, transformando o material histórico em reflexão sobre o presente.
O idealizador do Pelotas Antiga, Nikolas Corrêa, também desenvolve um projeto paralelo intitulado Pelotas Mal-Assombrada, que propõe passeios noturnos por locais da cidade associados a mistérios, crimes e acontecimentos marcantes, explorando outra camada da memória urbana pelotense. A proposta também abre espaço para a socialização e para a promoção do resgate histórico a partir da curiosidade popular por enigmas históricos, episódios pouco documentados e fatos ainda não plenamente esclarecidos da cidade.

Leonardo Tajes propõe avanço da fotografia para o audiovisual como forma de lembrar história
Olhares sobre Pelotas
O uso das redes sociais, nesse contexto, também possibilita abordagens mais especializadas e narrativas mais aprofundadas. É o caso do projeto Olhares Sobre Pelotas, criado pelo jornalista e sociólogo Leonardo Tajes em 2011. A iniciativa se diferencia ao investir em produções audiovisuais, como documentários e vídeos explicativos, que contextualizam a história da cidade e aprofundam temas ligados ao patrimônio e à memória coletiva.
“No início era um projeto mais fotográfico… e aí então fomos incorporando no projeto mais informações…” Com o tempo, segundo Leonardo Tajes, o Olhares Sobre Pelotas passou a migrar para o formato de documentários, a partir da percepção de que a fotografia, sozinha, impunha limites ao aprofundamento histórico e contextual das narrativas. A mudança ampliou o alcance do projeto: os documentários já somam mais de 200 mil visualizações no YouTube. Entre os mais notórios estão três documentários que sintetizam diferentes dimensões da memória local: “Praça Coronel Pedro Osório”, “A sociedade do charque” e “Culturas e tradições”, este último voltado às práticas culturais, costumes e manifestações que ajudaram a formar a identidade da cidade.
Mesmo com o alcance e a adesão do público, Leonardo Tajes levanta um alerta: a mobilização nas redes sociais, embora importante, não é suficiente para garantir a preservação do patrimônio histórico.
“Acredito que as redes sociais contribuem para a manutenção da história e da cultura da cidade, alcançando pessoas que os livros ou os documentários demorariam mais para atingir. No entanto, tenho dúvidas sobre o quanto elas conseguem, sozinhas, mobilizar a população para preservar os prédios e a cidade em que se vive. As redes não substituem a educação formal nem a familiar, e essas questões estão ligadas a fatores sociais mais complexos, que precisam ser trabalhados ao longo de gerações. A preservação do patrimônio envolve também políticas públicas, senso de pertencimento e a relação com o espaço público, aspectos que vão além do alcance das redes sociais”.
As experiências do Antiga Pelotas, Pelotas Antiga e Olhares Sobre Pelotas revelam diferentes formas de atuação diante de um mesmo problema estrutural da cidade. Sustentadas pela união de pessoas comuns, pelo trabalho voluntário e pelo interesse coletivo na história local, essas iniciativas demonstram a força da sociedade civil na preservação da memória pelotense. Ao criar espaços de encontro, diálogo e produção de conhecimento, os projetos mantêm viva a história da cidade e estimulam a reflexão sobre o passado. Ao mesmo tempo, sua existência evidencia uma lacuna persistente: a dificuldade do poder público em assumir, de forma contínua e efetiva, a responsabilidade pelo resgate, preservação e valorização do patrimônio histórico de Pelotas.
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