Entretenimento marcado pelos bailes farroupilhas vem dando lugar a novos ritmos musicais e novas compreensões dessa arte na fronteira gaúcha, especialmente como uma terapia
Por Daniel Santos e Lucas Maciel

As danças gauchescas representam a tradição cultural da região
O município de Herval, localizado na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, é um dos berços da cultura tradicionalista gaúcha e sempre teve a dança como um dos melhores entretenimentos da sua população, que é apaixonada pelos famosos bailes farroupilhas. Eles fazem parte das programações dos tradicionais rodeios crioulos, que sempre influenciaram a cultura na cidade, mas, com o passar das décadas, novas tecnologias e outras expressões culturais foram surgindo, assim enfraquecendo a tradicional. Além disso, a dança vem sendo praticada como uma ferramenta de melhor integração social e de corpo e mente.
A dança em Herval, assim como em todos os lugares do planeta, sempre funcionou como uma espécie de escape da rotina, pois ela esteve e está presente nos momentos de lazer da população hervalense. E foi assim que surgiram as invernadas artísticas (grupos de dança tradicionalista) no Centro de Tradições Gaúchas (CTG) da cidade, que são uma das portas de entrada para os jovens na dança.

Guilherme Damaceno oferece um espaço de liberdade para a sua turma nas aulas de dança
Em torno das tradições, surgem novos estilos de dança na Sentinela do Sul (apelido carinhoso da cidade de Herval). Com a chegada das novas tecnologias, o município foi entrando em contato com novas culturas e, assim, a população foi descobrindo novos gostos. Nos dias atuais, eventos como o Carnaval e a Fejunahe (Festa Junina de Herval) foram tomando um pouco do espaço cultural do tradicionalismo.
Grupos de dança tradicionais
Nos tablados do CTG Minuano, os ensaios vão muito além de coreografias e danças. O presidente do Conselho Municipal de Cultura e instrutor de dança Robito Maciel, que atua há mais de 20 anos, relata que a dança é como uma terapia. Ele recorda ter acompanhado a transformação dos alunos que chegavam ao grupo incapazes de sustentar o olhar ou de se comunicar verbalmente devido à timidez excessiva.
Segundo Maciel, o movimento tradicionalista oferece um espaço seguro de superação, no qual a postura física exigida pela dança acaba se traduzindo em uma nova postura diante da vida: “Eu já vi muita gente que não conseguia falar, que tinha vergonha até de levantar os olhos, e através da dança encontrou uma superação”, conta.
Atualmente, a cidade comporta quatro grupos de danças tradicionais, número que, segundo o presidente, corresponde a cerca de metade dos existentes no período anterior à pandemia de covid-19. “No período entre 2002 e 2008, chegamos a ter cerca de oito grupos de invernada e um de folclore argentino na cidade”, acrescenta.

Integrantes do ano de 2003 na invernada do CTG Minuano Foto: Gilson Fotografias
Novos estilos
Com a globalização, a sociedade mundial tem vivenciado um intercâmbio cultural intensificado e cidades do interior como Herval foram fortemente impactadas. Na dança, com a chegada de novos meios de comunicação, novos ritmos de música foram entrando no cenário cultural do município da fronteira gaúcha. “Eu tinha grupos com pessoas de 15 a 73 anos, até mais, e eles só queriam dançar [com a música nordestina do tipo] forró”, comenta Maciel, sobre o enfraquecimento da dança tradicional.
Atualmente, na cidade, existe um estúdio de fitdance, onde as aulas são orientadas pelo instrutor e proprietário Guilherme Damaceno. Ele deu seus primeiros passos na dança através da invernada e, depois de anos buscando ganhar a vida em outras áreas, viu na dança o seu futuro.
O instrutor, além do fitdance, oferece aulas de dança de salão e afirma que deu o seu pontapé inicial na carreira de professor, orientando aulas de samba para o Carnaval. Guilherme tenta impactar a cultura de Herval oferecendo um espaço de liberdade para seus alunos. “Isso é muito mais do que dançar, eu preciso convencer as pessoas o que isso é realmente, que vai ser bom para elas, que elas são capazes de fazer e de que não precisam ter vergonha de chegar aqui e dançar”, destaca Damaceno.

A dança oferece um meio para trabalhar a relação entre corpo e mente, além da integração grupal
Guilherme também leva o nome de Herval para outros cantos através de seu trabalho, no ano de 2025 ele se apresentou em alguns festivais pelo Estado. Neste ano, ele já participou ativamente do Carnaval, tanto de Herval, quanto de Arroio Grande, cidade vizinha da Sentinela.
Dança, saúde e bem-estar
Para os instrutores Guilherme e Robito, a dança vai além do movimento corporal, ela é um ato de liberdade em que a mente descansa e se acalma. Isso vai de acordo com os estudos que indicam que a prática da dança ajuda no sustento de uma saúde mental saudável.
Em um cenário no qual um em cada cinco adultos enfrenta alguma doença de origem mental, a dança surge como uma terapia não farmacológica eficaz. A literatura médica destaca que o diferencial da dança está na integração: ela exige uma conexão total entre mente e corpo para ser executada.
Essa prática permite expressar emoções reprimidas através do movimento, funcionando como uma válvula de escape para o isolamento. Ao fortalecer a autoestima e promover a ressocialização, a dança se alinha ao conceito de saúde mental da Organização Mundial de Saúde (OMS), que envolve não apenas a ausência de doenças, mas a capacidade de contribuir com a comunidade e lidar com as tensões da vida.
Quando perguntado sobre o que significa a dança, Guilherme responde: “Ela é como o amor, inexplicável, algo que nos faz ir além.” Assim, se presume que a dança é um dos pilares para uma sociedade culturalmente saudável.
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