O Role Playing Game (Jogo de Interpretações de Papéis) segue crescendo na Capital Nacional do Doce
Por Inácio Amorim e Sofia Mazza

Além de entretenimento, o RPG vem sendo cada vez mais ponto de interesse dos estudiosos Fotos: Sofia Mazza
Entre histórias de vampiros, dragões e dados de vinte lados, o RPG de mesa tem se revelado em Pelotas como ferramenta de socialização, resistência e expressão criativa. De entretenimento, o RPG passou a ser objeto de estudos universitários. Para quem nunca jogou, a definição pode vir da infância: “Sabe quando éramos crianças e brincávamos de faz de conta? No fundo é muito parecido com isso, um jogo de imaginação em que criamos uma história coletivamente”, explica a jogadora e estudante de Design Kethlyn Bisso. Cada participante tem seu personagem, e um dos jogadores é o Narrador, responsável por compor o mundo e conduzir a história. Para organizar, usam-se tabuleiros, dados e regras que garantem a vez de cada um na composição da narrativa.
Nas décadas de 1990 e 2000, jogar RPG em Pelotas era uma atividade que acontecia em diversos espaços improvisados. O fotógrafo e jogador veterano Jô Folha relembra o período entre 1999 e 2000, quando estudava no Colégio Agrícola Visconde da Graça (CAVG): “Lá já existia um grupo de jogadores, acabamos virando amigos e foi assim que comecei a participar das mesas de RPG. Era tudo muito vivo, com muita gente envolvida, muito engajamento e bastante apoio para novas mesas e novos live actions. Com frequência também rolavam mesas de RPG na Praça Coronel Pedro Osório e até em barzinhos — qualquer lugar virava cenário de jogo”.
O fotógrafo recorda que algumas histórias precisavam ser divididas em várias mesas, devido ao grande número de participantes. O acesso ao material, porém, não era fácil: “A internet ainda engatinhava, o acesso ao material e aos livros de RPG não era fácil. Existia uma loja de RPG na cidade que tinha alguns livros e cartas de Magic, e esse lugar virou outro ponto de encontro forte da galera”.

Histórias de terror são um gênero que atraiu muitos adeptos aos jogos de criação
Chris Marques, também jogador veterano, relembra o período entre 1998 e 2002. “Jogamos entre amigos, tinha bastante revista de jogos e acabava que uma vez ou outra aparecia alguma notícia sobre RPG de mesa. Primeiro era algo para a gente poder ser os personagens dos jogos ou desenhos que gostava, então eram meio que improvisados os sistemas, a gente não tinha muita noção. Depois, mais para a frente, apareceram os manuais e as coisas foram ficando mais organizadas.” Segundo ele, o sistema “Vampiro: A Máscara” (“Vampire: The Masquerade”) foi um marco que levou mais pessoas a conhecerem o jogo, com diversos eventos de live action na cidade. As partidas aconteciam na casa de amigos, de forma intercalada, já que não existiam muitos lugares específicos para esse tipo de encontro na época.
Esse cenário começou a se transformar radicalmente com a popularização da internet e o surgimento de novas referências culturais. Chris Marques observa que “com acesso à informação de hoje, há pessoas famosas jogando lives de YouTube entre outras coisas, enquanto antigamente era muito nichado”.
Esse fenômeno ganhou força especialmente a partir de 2020, quando o streamer brasileiro Cellbit (Rafael Lange), criou o RPG de mesa “Ordem Paranormal”, transmitido ao vivo para milhares de espectadores. O projeto, que começou de forma despretensiosa como uma história de terror narrada entre amigos, rapidamente se transformou em um fenômeno nacional. A campanha de financiamento coletivo do jogo “Ordem Paranormal: Enigma do Medo” bateu recordes na plataforma Catarse, superando a marca de R$ 2 milhões de reais arrecadados, tornando-se o maior projeto da área criativa em plataformas brasileiras de financiamento coletivo.

Com o acesso à internet democratizado, o interesse pelo RPG tem crescido
Paralelamente, o sistema “Tormenta20”, da Editora Jambô, também se consagrou como um marco no mercado nacional de RPG. A campanha de financiamento coletivo do livro superou a meta inicial de R$ 80 mil, arrecadando mais de R$ 1,9 milhão e tornando-se um case de sucesso estudado nos meios acadêmicos. O material é descrito como “o maior e melhor RPG brasileiro” e “recordista absoluto de financiamento coletivo no país”, com uma comunidade engajada que contribuiu para o fortalecimento da marca no mercado.
Acompanhando esse movimento nacional, o cenário municipal de Pelotas também vive sua própria expansão institucional. No âmbito acadêmico, foi fundada a cadeira de TTRPG (Tabletop Role-Playing Game) para o curso de Design de Jogos, ministrada pela professora Mônica de Lima. Simultaneamente, foi fundado o clube de RPG Instituto Feudal, vinculado ao IFSul, cujo coordenador é Marco Collares, historiador formado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e docente do Instituto Federal Sul Rio-grandense (IFSul). Essas iniciativas representam a consolidação do RPG não apenas como entretenimento, mas como objeto de estudo e prática institucionalizada na cidade, oferecendo espaços dedicados que antes não existiam para que novos jogadores possam descobrir essa forma de expressão criativa e socialização.
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