Instituição é espaço de memória, pesquisa e preservação de uma série de saberes e fazeres que vem marcando cotidiano local
Por Najara Leal e Raissa Iepsen

Espaço de exposição fica na Praça Pedro Osório junto ao Centro Histórico do município Fotos: Najara Leal e Rafaela Silveira
A cidade de Pelotas carrega um dos patrimônios culturais mais reconhecidos do Brasil: sua tradição doceira. Símbolo da identidade local e orgulho da população, essa herança encontra no Museu do Doce um espaço dedicado à memória, à pesquisa e à preservação de tudo aquilo que fez a cidade ser conhecida como a Terra do Doce. Localizado em um dos casarões históricos mais imponentes da Praça Coronel Pedro Osório, o museu combina arquitetura, história e cultura para contar, de forma sensível e acessível, como os doces moldaram Pelotas ao longo dos séculos.
O prédio onde o museu funciona já é, por si só, parte essencial dessa narrativa. Construído em 1878 para a família do conselheiro Francisco Antunes Maciel, o casarão guarda marcas de um período em que Pelotas era uma das cidades mais prósperas do País. Restaurado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), hoje abriga um acervo que revela as origens e as transformações da tradição doceira, desde os tempos do charque até a consolidação dos doces como símbolo cultural.
Para a bolsista do museu e estudante de Museologia, Isabella Campagnollo, compreender a história da edificação é compreender Pelotas. Ela recorda que o antigo proprietário foi uma personalidade muito influente. A história do museu, das pessoas que moravam neste local e da tradição doceira falam sobre o passado de Pelotas, tanto pelas tradições econômicas, como as do doce e do charque, quanto por sobrenomes famosos como este. “Hoje em dia, há uma galeria comercial na rua Félix da Cunha com o nome de Antunes Maciel. Quase 200 anos depois, ele continua presente. Casarões como este remetem a uma era em que a cidade era extremamente rica”, observa.
O museu oferece aos visitantes uma experiência que vai além da observação de objetos. Tachos de cobre, formas antigas, livros de receitas escritos à mão e utensílios originais compõem um percurso que convida o público a mergulhar nas memórias da produção doceira. Cada peça carrega histórias de quem preparava, criava e reinventava receitas, que hoje fazem parte do patrimônio imaterial da cidade.

Há uma série de propostas que visam interagir com diversos públicos e promover o debate e o conhecimento da História
Quem comparece ao espaço percebe como a mediação e o cuidado com o público fazem diferença. Isabella explica como as atividades educativas aproximam crianças, jovens e adultos do museu: “As visitas que acontecem no museu são geralmente mediadas. Tu podes marcar um horário para vir com a tua escola ou grupos pelo e-mail do museu [museudodocedaufpel@gmail.com] e também nas redes sociais pelo Facebook e Instagram. Além disso, a gente tem algumas ações educativas para as crianças que vêm visitar o museu, desde desenhos até jogos de memória ou quebra-cabeças. Há ainda peças táteis e outras brincadeiras. Grande parte dessas peças é disponibilizada pelo curso de Arquitetura da UFPel. Outras são desenvolvidas por outros setores, como o de computação.”

Local reúne um acervo que remete a várias atividades que constituíram sistemas econômicos
Influências diversas
A origem dos doces de Pelotas, porém, é mais complexa do que muitos imaginam. Longe de ser apenas uma herança europeia, a tradição doceira carrega influências diversas, resultado do encontro entre culturas no período do charque. Isabella conta a história: “Bom, a tradição doceira de Pelotas não começou, realmente, como uma tradição doceira. Começou com essa cidade que tinha essa grande economia baseada em charque [a produção para todo o País de carne salgada, que era a única forma de conservação desse alimento na época]. E, com o tempo, conforme foi se exportando o charque para o Nordeste, alguns outros alimentos voltavam, assim, como uma troca comercial, como, por exemplo, a cana-de-açúcar, o próprio açúcar e o coco. E, por aí, foram se adaptando receitas portuguesas. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, as receitas dos doces de Pelotas não são apenas europeias. Há muitas adaptações das receitas originais feitas, principalmente, pelas pessoas que trabalhavam nas casas dessas pessoas ricas que importavam esses alimentos. Então, é justamente pela mão de obra das pessoas negras, né? Justamente aí está a questão de matriz africana dos doces. Então, a gente tem muitas influências de diversos povos, não é só uma cultura europeia, ao contrário do que muita gente pensa”.

Ao longo de sua existência Museu serve como cartão postal e referência da cultura pelotense
Para muitos visitantes, conhecer o museu representa resgatar memórias afetivas e descobrir novas perspectivas sobre a cidade. Alguns visitaram o museu na infância e voltam quando já estão adultos. O local cumpre com o papel de mostrar a história com os detalhes enfatizados pelas contribuições dos monitores. Através dos objetos, todo um contexto histórico é resgatado.
A tradição doceira também segue viva fora do museu, fortalecida por famílias e empreendedores da cidade. Um dos exemplos é a Fran’s Doceria, cujo proprietário, Cezar Venzke, reforça como a cultura doceira é sustentada pelo afeto e pela união familiar. Ele conta que tudo começou dentro de sua casa: “Começou com a minha cunhada e meu irmão, que já trabalhavam com a fábrica e a marca deles. Depois, eu me reuni com as minhas duas filhas, a minha esposa e o meu filho. Veio todo mundo trabalhar. A gente participou da [Feira Nacional do Doce] (Fenadoce) e aí passamos a trabalhar no Mercado Público de Pelotas. Há 12 anos estamos aqui. Foi a família que se envolveu. E o nome Franz foi por causa das filhas, Francine e Franciele, reunimos o nome das duas.”
Para ele, o cenário doceiro de Pelotas evolui continuamente. “A cultura doceira está cada vez melhor e mais qualificada. Hoje existe uma associação das doceiras, da qual fazemos parte. Tudo é trabalhado para garantir um produto bom, porque Pelotas tem que ser referência. Trabalhamos muito para conquistar o selo de Indicação Geográfica, que foi um processo longo, mas muito importante para a cidade.”
Preservando objetos, saberes e histórias, o Museu do Doce segue como um espaço fundamental para manter viva a memória da cidade. Além de um centro cultural, o museu é um lugar de encontro entre gerações, de educação e de pertencimento, um ambiente onde o passado segue iluminando o presente da Terra do Doce.
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