“Frankenstein” de Guillermo del Toro perde a sutileza da versão original

Nova adaptação do clássico do terror comprova as habilidades do diretor como um competente criador de histórias fantásticas, mas esquece detalhes que tornam o personagem da obra literária de 1818 tão único    

Por Vinicius Terra   

O filme “Frankenstein”, dirigido e escrito por Guillermo del Toro, foi lançado recentemente na Netflix, no dia 7 de novembro. O lançamento marca a segunda parceria cinematográfica da plataforma de streaming com o diretor, que antes havia colaborado na adaptação em stop-motion “Pinóquio por Guillermo del Toro” (2022), vencedor do Oscar de Melhor Animação, na cerimônia de 2023. De forma resumida, “Frankenstein”, baseado na obra homônima de Mary Shelley, lançada em 1818, conta a história de um cientista que dá vida a uma forma humanóide, criando uma série de acontecimentos ligados à responsabilidade bioética.

 

              A Criatura (Jacob Elordi) se vê no espelho pela primeira vez ao lado de seu criador Victor Frankenstein (Oscar Isaac) (Fotos: Divulgação/Netflix)

 

Quando uma história é tão icônica e atemporal como “Frankenstein”, que inspira obras e que ainda é referenciada na cultura pop após 200 anos da publicação da obra original, no Reino Unido, é difícil evitar comparações ao avaliar uma nova adaptação. A fim de contextualizar, além da obra ser um clássico do horror, ela é considerada o precursor da ficção científica na literatura por muitos historiadores. Portanto, é inevitável fazer um paralelo entre as duas obras, isto é, os feitos positivos e negativos do diretor quando equiparado à obra gótica do século XIX.

Uma adaptação nada mais é do que uma interpretação. E na interpretação de del Toro, o diretor explora as lacunas para tornar o visual mais apelativo, enquanto o livro é contido e tudo se passa nos pensamentos e sentimentos dos personagens. Essa diferença é crucial na adaptação dos formatos e, não necessariamente, significa algo ruim ou bom por si só. O prelúdio do filme, a título de exemplo, começa com a aparição da Criatura (Jacob Elordi) em uma cena de ação, perseguindo os marinheiros e matando-os em um banho de sangue – enquanto no livro presenciamos algo mais soturno e assombrador.

Estes tipos de mudanças são necessários para a adaptação de um material, que até funcionam bem aqui. Porém, o filme parece perder um pouco de rumo quando se apresenta como uma versão pasteurizada e processada dos eventos de origem. Del Toro parece querer explicar demais as lacunas deixadas pelo livro, e transforma todos os atos cruéis cometidos pela Criatura em atos realizados pelo Victor Frankenstein (Oscar Isaac). O que antes era uma disputa filosófica entre quem é a verdadeira Criatura e o monstro de “Frankenstein”, no filme parece ser jogado em tela exatamente quem o diretor quer mostrar como o monstro real — o cientista Victor. Os questionamentos e a sutileza do livro de Mary Shelley transformam-se em cenas com diálogos mais apressados e sem tanta profundidade.

É no personagem de Victor que, talvez, possamos observar as mudanças de maior peso da adaptação, assim como as que tornam a obra menos sutil. No filme, Victor narra que seu pai odiava sua mãe e a ele, o que parece uma tentativa de Gillermo del Toro tornar o personagem amargurado por conta de sua criação e da perda da mãe enquanto ainda era uma criança. Enquanto no livro, o pai de Victor era bastante compreensivo e amoroso com a mãe. Parece que essa mudança serve para garantir ao filme uma razão de ser que na obra original não existia – às vezes, as coisas são apenas o que são e nada além.

Quanto aos personagens periféricos, Elizabeth (Mia Goth) parece ser um dos pontos centrais da mudança nessa adaptação. Ela está mais presente, ainda que, agora, talvez resumida a um papel mais romântico ainda do que na obra original, apenas reconfigurado. Ainda assim, ela tem uma personalidade própria, curiosa e interessada pelas pequenas coisas da humanidade. Um outro personagem especialmente simbólico na vida de Victor é Henry Clerval, que some completamente dessa adaptação, ainda que alguns traços sejam transportados para o irmão do protagonista, William (Felix Kammerer). No livro, Clerval é o melhor amigo de Victor, e o oposto dele. Essa troca entre eles, que era bastante intimista na obra original, faz falta na adaptação, que agora parece não ter um contraponto à megalomania de Victor.

 

William (Felix Kammerer) e Elizabeth (Mia Goth) acompanham com medo as ações do doutor Frankenstein

William (Felix Kammerer) e Elizabeth (Mia Goth) acompanham com receio as ações do doutor Frankenstein

 

Apesar disso, o longa-metragem toma um rumo interessante quando começa a versão da Criatura sobre os fatos. A segunda parte do livro, da Criatura vivendo na floresta com a família pobre, é a mais importante para entendermos o processo de aprendizagem do monstro, principalmente, quando ele aprende que a violência é intrínseca à humanidade. Neste ponto, o diretor conseguiu transpor para o audiovisual perfeitamente como a Criatura se sente ao confrontar a humanidade pela primeira vez. Nessas partes mais isoladas da Criatura, o diretor consegue expandir e deixar o visual bem emocionante, da forma como a história merece.

E por falar em visual, provavelmente, o melhor aspecto desse “Frankenstein” é como as cores são trabalhadas e como os cenários são construídos. Não é mistério para ninguém que Guillermo del Toro sabe falar de monstros em sua obra e construir mundos mágicos como ninguém — desde o mundo de fadas distorcido de “O Labirinto do Fauno” (2009), até como ele mostra essa Europa do século XIX do jeito gótico imaginado por Mary Shelley. Além dessa parte positiva, há escolhas que funcionam bem dentro da proposta visual do diretor, entre elas a figura do anjo da escuridão nos sonhos de Victor, uma das maneiras pelas quais del Toro trabalha os aspectos mais simbólicos.

 

A criatura escapa para a floresta, em uma cena reminiscente de Hamlet

 

No fim das contas, não é um filme ruim, porém mediano, o que o torna decepcionante não só para quem já leu o livro, mas também para aqueles que conhecem a obra de Guillermo del Toro, que já produziu adaptações melhores e mais profundas. O diretor, de modo geral, domina a tradução de formatos, de um livro com uma narrativa baseada em cartas e narrações de personagens, para momentos de maior ação. Em síntese, o filme funciona bem para quem quer passar um tempo com cenas bonitas e momentos emotivos, ainda que um pouco superficiais. O longa-metragem já está disponível para streaming na Netflix.

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