Cinematografia oriental influencia produção norte-americana tendo o silêncio como o coração do tempo
Por Gustavo Silva Fuchs

A tensão entre os protagonistas se revela nos olhares desviados e na composição visual Fotos: Divulgação
Dirigido por Wong Kar-Wai, “In the Mood for Love” completa 25 anos da sua data de lançamento (2000). É um dos filmes mais influentes do cinema asiático contemporâneo e, ao mesmo tempo, uma das obras que mais silenciosamente transformaram a sensibilidade do cinema americano. Com uma narrativa mínima e marcada pela contenção, Wong Kar-Wai criou uma estética que se tornou uma linguagem emocional própria, onde o sentimento é expresso não pelas palavras, mas pelo que fica entre elas: o gesto interrompido, o olhar suspenso, o corredor estreito, o som repetido de uma música distante.
O filme acompanha dois vizinhos, o Sr. Chow (Tony Leung) e a Sra. Chan (Maggie Cheung), que descobrem que seus cônjuges têm um caso. Em vez de se envolverem romanticamente, eles vivem um amor que nunca se concretiza, construído na ausência e na repetição dos encontros casuais. O que se desenrola é menos uma história de amor e mais um estado de espírito: um clima de desejo contido e melancolia que atravessa cada cena.
Em “In the Mood for Love”, a estética substitui o diálogo como forma de expressão. Wong Kar-Wai faz o silêncio falar. A fotografia de Christopher Doyle e Mark Lee Ping-Bing usa tons saturados e luz difusa, transformando cada plano em pintura. Corredores estreitos, portas semiabertas e reflexos em espelhos expressam o confinamento emocional dos personagens. Os cheongsams (vestidos chineses tradicionais) usados por Maggie Cheung marcam o tempo com elegância e repetição, funcionando como memória visual. As cores, que alternam entre vermelhos profundos, verdes escuros e amarelos queimados, não descrevem o sentimento, mas o traduzem em temperatura.

O isolamento do Sr. Chow (Tony Leung) é acentuado pela luz e pelos enquadramentos que o separam do espaço
A trilha sonora, com o tema recorrente “Yumeji’s Theme” dá ritmo ao tempo do filme. A montagem fragmentada e o uso de câmera lenta reforçam a sensação de que o tempo não corre, mas se repete e se dobra sobre si mesmo. O filme constrói uma relação direta entre memória, tempo e cinema: cada olhar é um passado que não volta, cada cena é uma tentativa de tocar o que já se perdeu.
Mais do que uma história de amor, “In the Mood for Love” é uma meditação sobre a ausência. O amor não é um acontecimento, mas o que resta depois que ele não acontece. Wong Kar-Wai transforma o espaço entre duas pessoas no próprio coração do tempo e esse sendo um tempo que não cura, mas conserva, que transforma o instante em lembrança e a lembrança em imagem. Esse amor interrompido é o centro da dor e também da beleza do filme: o que não se consolida torna-se eterno justamente porque permanece inacabado.
A influência de “In the Mood for Love” no cinema americano é profunda, embora muitas vezes discreta. Sua estética de melancolia urbana, suas cores saturadas e seu ritmo contemplativo aparecem em diretores como Sofia Coppola (“Lost in Translation”), Barry Jenkins (“Moonlight”), Todd Haynes (“Carol”) e Paul Thomas Anderson (“Phantom Thread”). Todos herdaram de Wong Kar-Wai a ideia de que o sentimento pode ser construído pela atmosfera, e não apenas pelo diálogo. O cinema americano, tradicionalmente direto e narrativo, aprendeu com o cinema de Hong Kong a valorizar o intervalo, o silêncio e a incompletude.

Sra. Chan (Maggie Cheung), envolta em cores suaves, representa melancolia e delicadeza de sentimento que não se concretiza
Ao tratar o amor como ausência e o tempo como memória, “In the Mood for Love” propõe uma estética da contenção que desafia as convenções do cinema tradicional. É um filme que pede um olhar atento, não de quem espera ação, mas de quem se deixa afetar pelo silêncio. Sua força está no que não mostra, nas pausas, nas paredes finas e nas palavras não ditas.
No fim, “In the Mood for Love” é um cinema que se lembra. Um cinema que não quer registrar o que acontece, mas o que permanece depois que tudo passou. Wong Kar-Wai transforma o amor em lembrança e o tempo em ferida. E é, nesse espaço entre o desejo e a perda, que nasce sua beleza: o amor que não acontece vira imagem, e o cinema se torna a própria memória do que não foi.
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