Livro mais recente de Suzanne Collins revela as origens do personagem Haymitch Abernathy
Júlia Radmann Tomm
“Amanhecer na Colheita” é o mais recente lançamento da escritora Suzanne Collins. O novo livro, que se passa no mesmo universo da trilogia “Jogos Vorazes” (que inclui “Em Chamas” e “A Esperança”), é ambientado no quinquagésimo Jogos Vorazes e segundo Massacre Quaternário e tem seus acontecimentos antecedendo aos da trilogia original.

Contextualizando, “Jogos Vorazes”, que também conta com uma série de adaptações cinematográficas, é uma trilogia que acompanha a história de Katniss e Peeta. São jovens escolhidos ao acaso para participar de uma competição anual criada pela Capital, como forma de controle dos distritos, após sofrer um ataque. Como punição pela rebelião, cada distrito deve enviar um garoto e uma garota para lutar até a morte, enquanto a Capital transforma tudo em um espetáculo. O título “Amanhecer na Colheita” faz referência ao dia em que jovens de 12 a 18 anos são sorteados, marcando o início desse momento cruel.
No livro “Amanhecer na Colheita”, o personagem principal é o já conhecido Haymitch Abernathy, vencedor do quinquagésimo Jogos Vorazes e Segundo Massacre Quaternário e mentor de Katniss e Peeta na trilogia original. Nos livros anteriores, conhecemos Haymitch como um vencedor amargurado e alcoólatra. Já em “Amanhecer na Colheita”, o personagem é descrito antes de a vida o transformar em quem ele é na trilogia. A obra conta a história de Haymitch no ano do segundo Massacre Quaternário, edição especial em que foram escolhidos o dobro de tributos de cada distrito, ou seja, dois meninos e duas meninas. Apesar de os leitores já saberem que Haymitch vence sua edição, o que nunca foi contado é como tudo acontece e, principalmente, o que o fez ele se tornar quem conhecemos depois. É isso, somado à escrita envolvente de Suzanne Collins, que prende o leitor do início ao fim.
Suzanne Collins, em entrevista ao editor David Levithan, comentou: “Da mesma forma, você sabe que Haymitch se torna um vencedor e Snow mata seus entes queridos, mas você não sabe os eventos que levaram a esses fins. Como? Por quê? Onde? O quê? Quem? Você precisa ler o livro para descobrir.” Essa fala reforça o mistério e a expectativa que “Amanhecer na Colheita” cria ao explorar as raízes de um personagem tão complexo, revelando os detalhes e camadas que antes não tínhamos conhecimento.

O ator Woodrow Tracy Harrelson interpretou Haymitch Abernathy na série de filmes de 2012 a 2015
Haymitch, antes dos Jogos, era um jovem apaixonado por sua garota, Lenor Dove, e por sua família. Por viver na Costura (Fim do distrito 12), não tinha uma vida fácil, assim como qualquer outro morador de lá, mas o garoto de 16 anos, antes de ir para a arena, era amoroso, cuidadoso, preocupado e não bebia álcool. Bem diferente da versão adulta que não consegue suportar a sobriedade. No novo livro, conhecemos mais esse lado doce de Haymitch. Vemos um pouco do seu amor intenso por sua namorada e descobrimos como era sua rotina, morando com sua mãe e seu irmão. Outros personagens que também são muito importantes na trilogia são apresentados mais jovens, como Burdock, o pai de Katniss, que era um grande amigo seu e Astrid, a mãe de Katniss. Dessa forma, o livro ajuda a entender por que Haymitch toma o lado de Katniss na trilogia e por que se importa tanto com ela. Ao conhecermos sua versão jovem, fica claro que ele enxerga nela os seus amigos de juventude, principalmente o pai dela e muito do que ele próprio já foi. A relação entre os dois, que já era forte na saga original, ganha um novo significado: percebemos que é muito mais profunda do que parecia.
Neste livro, a autora consegue expandir de forma excepcional o universo que seus leitores tanto gostam, sem deixar de lado as críticas sociais profundas que sempre estiveram enraizadas na trama. A cada página, entendemos melhor por que as coisas são como são no futuro retratado na trilogia original. Tudo começa a fazer ainda mais sentido.
Desde o primeiro livro da saga, Suzanne Collins já traz fortes críticas sociais disfarçadas de romance distópico: a repressão da Capital sobre os distritos, o uso do sofrimento como forma de controle e espetáculo pelo presidente Snow, e o contraste entre o luxo absurdo da Capital e a fome nos distritos. Além disso, a saga evidencia o papel crucial da mídia na manutenção desse sistema autoritário. A Capital manipula as informações, esconde tudo que possa enfraquecer sua imagem e apresenta uma realidade distorcida para manter o controle não só físico, mas também mental da população. O mais assustador é perceber que, aos poucos, na atualidade, a realidade de Panem se aproxima da nossa.
Nos livros, os ricos ficam cada vez mais ricos, enquanto os pobres ficam cada vez mais pobres e tornam-se praticamente escravos. A Capital, representando os mais privilegiados, ostenta roupas extravagantes, festas exageradas e desperdício de comida. Um trecho marcante da trilogia no livro “Em Chamas” reforça essa crítica: durante a turnê dos vitoriosos, Peeta se revolta ao descobrir que, enquanto pessoas morrem de fome nos distritos, os cidadãos da Capital tomam uma bebida para vomitar o que comeram e assim poder comer mais.

Os habitantes da Capital em uma das versões cinematográficas
Em “Amanhecer na Colheita”, Collins aprofunda ainda mais essa crítica ao mostrar como a Capital manipula até mesmo as regras dos jogos, dobrando o número de tributos para tornar o espetáculo mais sangrento e atrativo. O sofrimento de adolescentes vira entretenimento, e suas dores são ignoradas. Haymitch, por exemplo, não é apenas um vitorioso: é um jovem marcado pela violência, solidão e perda. Neste livro, conhecemos seu lado mais doce, ele ainda não era o homem amargo que vemos nos outros livros, mas sim um garoto preocupado com a família, que sequer bebia. Seu trauma é construído ao longo da trama, e revela o quanto o sistema desumaniza até quem sobrevive.
A escrita de Suzanne neste livro mantém a mesma essência dos anteriores, mas com um ritmo mais acelerado do que em “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, outro livro que antecede a trilogia e também “Amanhecer na Colheita”, que era mais denso. Por já sabermos parte dos acontecimentos, a autora nos leva rapidamente ao início dos jogos, mergulhando direto na ação. Mesmo assim, ela consegue, com maestria, desenvolver as emoções e construir novas camadas para a saga, fazendo com que tudo se encaixe perfeitamente nos cinco livros que compõem a história desses jogos brutais.
Todos os quatro primeiros livros foram adaptados para o cinema com sucesso, mantendo o tom político e emocional da obra original. Agora, “Amanhecer na Colheita” também terá sua adaptação, prevista para novembro de 2026, com atores e atrizes como Maya Hawke, Ralph Fiennes, Elle Fanning e Joseph Zada. A expectativa é alta, já que a história traz à tona um personagem antes visto apenas pelas consequências do trauma.
Com “Amanhecer na Colheita”, Suzanne Collins entrega mais uma obra incrível, capaz de emocionar e impactar tanto leitores novos quanto os fãs antigos. O livro é um presente para quem acompanha a saga, pois aprofunda personagens queridos e amarra com maestria todos os acontecimentos dos cinco livros. A autora mostra, mais uma vez, sua habilidade em criar uma narrativa crítica, envolvente e necessária, que mesmo após tantos anos, segue extremamente atual.
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