“No compasso do samba, ninguém fica para trás”

 Escola de samba de Arroio Grande celebra pessoas com deficiência e famílias atípicas

Bandeira da escola de samba Acadêmicos do Grande Arroio. foto Rádio Difusora especial / Em Pauta

Luís Garcez / Em Pauta

Em 2026, o carnaval de Arroio Grande, RS, celebrou, por meio da escola de samba Acadêmicos do Grande Arroio, a luta por inclusão, respeito e equidade em nossa sociedade. Durante as noites de sexta (13), domingo (15), terça (17) e sábado (21), a escola decorou e animou a passarela do samba arroio-grandense com seu desfile, que incluía uma dupla extremamente relevante como porta-bandeira e mestre-sala: uma mãe atípica e um futuro psicólogo.

Apresentando o enredo “Inclusão: A voz dos excluídos – No compasso do samba, ninguém fica para trás!”, a escola, fundada em 2000 e consolidada como uma das quatro principais de Arroio Grande, trouxe para o festejo carnavalesco a vivência de pessoas com deficiência, das minorias sociais, da população LGBTQIA+, dos negros, dos indígenas, das mulheres e de todos os outros que ainda hoje lutam por espaço e visibilidade em nossa sociedade.

De acordo com Maria Letícia de Matos Ferreira, veterana do carnaval local e presidente e rainha de bateria da Acadêmicos, a escolha do tema se deu pelo sonho do vice-presidente da escola: criar uma ala de cadeirantes para a agremiação. “Mostramos que o carnaval é um espaço que pertence a todos”, afirmou a rainha da bateria. O sonho não apenas se realizou, como foi além: o desfile de 2026 contou com cadeirantes, mães atípicas desfilando com seus filhos e também uma ala dedicada às “deficiências invisíveis”, como o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade e o transtorno do espectro autista.

Apesar das dificuldades, como a falta de um barracão adequado, desafios financeiros e desistências de última hora, além da sensação comum de que algo poderia ter sido feito de uma forma ainda melhor, Letícia afirma que a escola obteve sucesso em se destacar diante das concorrentes ao priorizar o acolhimento como diferencial. “Abraçamos pessoas de diferentes lugares com carinho, criando laços de família verdadeira”, enfatizou. A rainha de bateria apostou na alegria dos componentes cantando o samba-enredo com emoção e alegria como fator-chave para os desfiles.

No coração do desfile encontrava-se um dos pilares de qualquer escola de samba: o mestre-sala e a porta-bandeira. A dupla, formada por Thomás Pereira Freitas, de 22 anos, e Lutiele Tajes da Silva, de 45, trouxe consigo para o carnaval arroio-grandense a essência do tema escolhido pela escola. Apesar de ser a primeira vez de ambos nos respectivos postos, Thomás já está em seu quarto ano desfilando no carnaval da cidade, enquanto Lutiele completa uma década na passarela.

Mestre-sala Thomás e porta-bandeira Lutiele se apresentam lado a lado

Entretanto, a escolha da dupla não se resume ao passado tão enraizado no carnaval arroio-grandense que ambos compartilham, ela também leva em consideração a experiência de vida dos dois, já que Lutiele é mãe de um menino autista de nível três de suporte, e Thomás cursa psicologia na Universidade Federal de Pelotas e realizou estágio na APAE da cidade. Dessa forma, ambos representam dois lados diferentes, mas complementares, da mensagem de força, resiliência e esperança que a Acadêmicos quis retratar e, colocados para desfilar lado a lado, representam a necessidade de cooperação e comunidade entre as famílias de pessoas especiais e os profissionais de saúde.

A dupla treinou por cerca de 50 dias durante um período de dois meses, com apoio de coreógrafos que ensinaram técnica, postura e controle emocional, desde girar a bandeira com precisão a manter o sorriso ao cortejar o parceiro. “O mais bonito de tudo é que se criou uma amizade. Tem briga, mas também tem muito amor de verdade. Quando a gente tá na avenida, nasce uma conexão muito forte. O dia que a gente conseguiu acertar tudo no ensaio, eu só olhava pra ele e gritava ‘te amo! te amo!’. Me sinto como a mãe dele”, brincou a porta-bandeira.

Ambos se prepararam com afinco, às vezes sozinhos, em casa, e outras vezes juntos, na rua, criando uma conexão e sincronia profunda. “Terminamos satisfeitos, dançando não só pela escola e pela nota, mas também para mostrar que mães atípicas podem brilhar”, disse Lutiele, que enxerga o carnaval como algo muito maior do que uma “disputa clubística” e se autodenomina uma “amante de carnaval”. Thomás complementou que ter toda aquela confiança depositada em si mesmo aproximava-o ainda mais da celebração e fazia florescer sua admiração pelo carnaval arroio-grandense.

Thomás Pereira Freitas e Lutiele Tajes. Foto: Luís Garcez / Em Pauta

O desfile da Acadêmicos do Grande Arroio não foi apenas um espetáculo de dança e fantasias, mas um grito de alma que ecoou pela avenida, unindo corações partidos por um sistema falho em um abraço coletivo de esperança e dignidade. Os componentes da escola personificaram uma ponte viva entre os excluídos e a tão prioritária inclusão, provando que o samba tem o poder de curar feridas invisíveis e colocar holofotes em vivências que precisam, sim, de destaque. Além de celebrar a diversidade, a escolha sensível do tema reforçou o carnaval de Arroio Grande como espaço de união e transformação social, fazendo ecoar no coração da cidade a mensagem: no compasso do samba, ninguém fica para trás!

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