O beijo [Carlos Drummond de Andrade]

Mandamento: beijar a mão do Pai
às 7 da manhã, antes do café
e pedir a bênção
e tornar a pedir
na hora de dormir.
 
Mandamento: beijar
a mão divino-humana
que empunha a rédea universal
e determina o futuro.
Se não beijar, o dia
não há de ser o dia prometido,
a festa multimaginada,
mas a queda — tibum — no precipício
de jacarés e crimes
que espreita, goela escancarada.
 
Olha o caso de Nô.
Cresce demais, vira estudante
de altas letras, no Rio de outras normas.
Volta, não beija o Pai
na mão. A mão procura
a boca, dá-lhe um tapa,
maneira dura de beijar
o filho que não beija a mão sequiosa
de carinho, gravado
nas tábuas da lei mineira de família.
 
Que é isso? Nô sangra na alma,
a boca dói que dói
é lá dentro, na alma. O dia, a noite,
a fuga para onde? Foge Nô
no breu do não-saber, sem rumo, foge
de si mesmo, consigo,
e não tem saída
a não ser voltar,
voltar sem chamado,
para junto da mão
que espera seu beijo
na mais pura exigência
de terroramor.
 
Olha o caso de Nô.
7 da manhã.
Antes do café.
Menino antigo (Boitempo II)

Memória prévia [Carlos Drummond de Andrade]

O menino pensativo
junto à água da Penha
mira o futuro
em que se refletirá na água da Penha 
este instante imaturo.
 
Seu olhar parado é pleno 
de coisas que passam 
antes de passar
e ressuscitam
no tempo duplo da exumação.
 
O que ele vê
vai existir na medida
em que nada existe de tocável 
e por isso se chama
absoluto.
 
Viver é saudade
prévia.
 
Menino antigo (Boitempo II)

Museu [Ana Martins Marques]

Se houvesse 
um museu
de momentos
 
um inventário
de instantes
 
um monumento
para eventos
que nunca aconteceram
 
se houvesse 
um arquivo 
de agoras
 
um catálogo 
de acasos
 
que guardasse por exemplo
o dia em que te vi atravessar a rua 
com teu vestido mais veloz
 
se houvesse 
um acervo 
de acidentes
 
um herbário 
de esperas
 
um zoológico
de ferozes alegrias
 
se houvesse 
um depósito
de detalhes
 
um álbum
de fotografias
nunca tiradas
 
(O livro das semelhanças, 2015)

Iniciação [Orides Fontela]

Se vens a uma terra estranha
curva-te

se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

— és infinitamente mais estranho.

(Rosácea)

Disciplina: Teoria e Crítica da Poesia [2019]

Disciplina: Teoria e Crítica da Poesia
Recorte: Poéticas de uma certa modernidade brasileira: Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Hilda Hilst, Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski e Orides Fontela.

Horário: terça-feira, das 8h às 11h40
Início das atividades: 19 de março

Obras poéticas
Carlos Drummond, A rosa do povo (1945)
Carlos Drummond, Claro enigma (1951)
João Cabral, Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (1947)
João Cabral, A educação pela pedra (1966)
Hilda Hilst, Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974)
Hilda Hilst, Da morte. Odes mínimas (1980)
Ana Cristina Cesar, Luvas de pelica (1980)
Ana Cristina Cesar, A teus pés (1982)
Paulo Leminski, Caprichos & relaxos (1983)
Paulo Leminski, Distraídos venceremos (1987)
Orides Fontela, Alba (1983)
Orides Fontela, Rosácea (1986)

L’albatros [Charles Baudelaire]

Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d’eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!
L’un agace son bec avec un brûle-gueule,
L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.

(Les fleurs du mal / As flores do mal, 1857)

O albatroz [Charles Baudelaire] [Guilherme de Almeida]

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O Poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

Tradução: Guilherme de Almeida
(As flores do mal, 1857)

O albatroz [Charles Baudelaire] [Ivan Junqueira]

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

Tradução: Ivan Junqueira
(As flores do mal, 1857)

Fala [Orides Fontela]

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)

[Transposição, 1969]