“Educação e trabalho no mundo digital: aprender a aprender”
A Semana Integrada de Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão (SIIEPE) 2026 assume como tema a relação entre educação e trabalho no mundo digital, com foco na metacompetência aprender a aprender. A digitalização deixou de ser apenas um conjunto de ferramentas e passou a operar como infraestrutura que organiza práticas de estudo, comunicação, produção científica, gestão e trabalho. A incorporação acelerada de sistemas algorítmicos e de inteligência artificial (IA) atravessa profissões, serviços públicos, cadeias produtivas e o cotidiano acadêmico, reconfigurando tempos, linguagens, processos e expectativas. Esse cenário oferece oportunidades concretas de criação, acesso e eficiência, mas também pode produzir novas desigualdades, precarizações e formas de dependência tecnológica, especialmente quando o uso é acrítico ou quando as condições de acesso e formação são desiguais (CINI, 2023; CHAVES, 2020).
As questões centrais que orientam esta edição são diretas: o que muda quando aprender a aprender se torna a competência central para viver, trabalhar e se formar no mundo digital com IA? Colocar essa discussão no centro significa deslocar o debate do fascínio tecnológico para a formação de capacidades humanas e institucionais. Em um contexto em que tarefas são automatizadas, decisões são influenciadas por sistemas de recomendação e relações de trabalho se reorganizam em ambientes digitais, torna-se decisivo compreender o que se ganha, o que se perde e quem fica para trás. Perspectivas críticas sobre grandes bases de dados, IA e automação mostram que os efeitos não são neutros: dependem de arranjos de poder, de organização do trabalho e de regulação social, o que torna a educação um eixo estratégico para ampliar autonomia, proteger direitos e sustentar desenvolvimento com responsabilidade (WALTON; NAYAK, 2021).
Nesse cenário, aprender a aprender envolve autorregulação, método e intencionalidade. É a capacidade de identificar lacunas de conhecimento, formular boas perguntas, selecionar fontes confiáveis, testar ideias, revisar escolhas e transferir aprendizagens para situações novas. No ambiente acadêmico, isso se conecta à integridade intelectual e ao compromisso com evidências: aprender a aprender implica construir repertório para avaliar qualidade, reconhecer limites do próprio conhecimento e sustentar decisões com base em dados e argumentos. Essa metacompetência ganha centralidade porque o volume de informação cresce, a velocidade de circulação aumenta e as mediações tecnológicas alteram o modo como se estuda, se pesquisa e se trabalha. Ao mesmo tempo, a aprendizagem deixa de ser etapa que se encerra na graduação ou na pós-graduação e passa a ser um processo continuado, com requalificação e atualização ao longo de trajetórias profissionais diversas (ANGWAOMAODOKO, 2025; HOU, 2025).
Nesse horizonte, consolidar a alfabetização em IA torna-se parte da responsabilidade formativa da educação superior. Alfabetização em IA é a capacidade de compreender, usar e avaliar criticamente sistemas de IA em situações acadêmicas e profissionais, reconhecendo limitações, vieses, implicações de privacidade e riscos de respostas incorretas ou inventadas. Estudos recentes propõem modelos de competências para alfabetização em IA e apontam que essas competências variam conforme grupos de aprendizes e contextos, combinando dimensões técnicas, cognitivas, sociais e éticas (CHEE; AHN; LEE, 2024; CHIU et al., 2024; TENBERGA; DANIELA, 2024). Além disso, reafirmar a formação ao longo da vida como compromisso institucional e social implica articular educação formal, não formal e experiências de trabalho como espaços de aprendizagem, de modo a enfrentar transições ocupacionais e demandas emergentes sem naturalizar exclusões (ANGWAOMAODOKO, 2025; HOU, 2025).
Na educação superior, a IA amplia possibilidades, mas também exige responsabilidade. Pesquisas sobre integração de IA no ensino e na aprendizagem indicam potencial para personalização, acessibilidade e apoio à produção intelectual, desde que orientados por objetivos pedagógicos nítidos e por governança ética (IFENTHALER et al., 2024; WANG; WANG; SU, 2024). Ao mesmo tempo, a comunidade acadêmica já enfrenta dilemas práticos que precisam ser tratados com seriedade: autoria e integridade acadêmica, transparência de uso, qualidade do aprendizado, proteção de dados e avaliação do que estudantes efetivamente sabem e conseguem fazer. A discussão sobre competências digitais para uso eficaz de IA generativa em contextos de ensino superior reforça que não basta usar a ferramenta: é necessário desenvolver capacidades de planejamento, curadoria, verificação, reflexão e comunicação, alinhadas a finalidades formativas e padrões de qualidade acadêmica (LEVY-NADAV; INBAL-SHAMIR; BLAU, 2025). Isso exige pactos institucionais e práticas pedagógicas que valorizem processos de aprendizagem, e não apenas produtos.
Nesse ponto, vale um convite específico aos docentes, porque a transformação digital frequentemente produz a sensação de choque de gerações, como se a experiência pedagógica estivesse, de repente, desatualizada diante de novas linguagens e ferramentas. O caminho mais potente para reduzir esse choque não é competir com a familiaridade tecnológica dos estudantes, mas reafirmar a docência como liderança formativa e assumir a aprendizagem contínua como parte do próprio ofício. Evidências em competência digital docente e competências relacionadas à IA indicam que o desenvolvimento profissional precisa combinar domínio de ferramentas com critérios pedagógicos, reflexão ética e capacidade de orientar o uso crítico, inclusive quando estudantes já chegam sabendo usar, mas ainda precisam aprender a avaliar, verificar, argumentar e produzir com rigor (FALLOON, 2020; NG et al., 2023; TENBERGA; DANIELA, 2024). Quando docentes atualizam repertórios, constroem rotinas de experimentação e compartilham práticas entre pares, abre-se espaço para uma cultura de aprendizagem intergeracional, na qual experiência pedagógica e novas possibilidades tecnológicas se encontram para qualificar o ensino e reduzir inseguranças. Mais do que adotar recursos, trata-se de ampliar a autonomia docente para decidir quando usar IA, como explicitar seus limites, como desenhar avaliações nítidas e como proteger autoria, privacidade e equidade no ambiente acadêmico (AKGUN; GREENHOW, 2021; FU; WENG, 2024).
Para transformar princípios em prática, a SIIEPE 2026 se organiza por eixos orientadores que ajudam a estruturar debates, submissões e interlocuções entre áreas, sem perder a unidade do tema. Esses eixos reúnem experiências e investigações sobre autonomia e autorregulação da aprendizagem, metodologias e avaliação em ambientes digitais, e também sobre competências para atuar no mundo digital com IA, como alfabetização em IA e em dados, curadoria e verificação de informação, comunicação multimodal e colaboração em rede, conectando formação acadêmica às demandas do trabalho e dos serviços públicos (NG et al., 2023; CHAN, 2024). Da mesma forma, explicitam que não há inovação sustentável sem confiança pública e responsabilidade institucional: integrar IA a práticas pedagógicas, científicas e administrativas demanda princípios de transparência, proteção de dados, mitigação de vieses e prevenção de danos, além de políticas de integridade e de bem-estar digital. Pesquisas em ética da IA na educação apontam a necessidade de abordagens centradas nas pessoas, com responsabilização e nitidez sobre limites, especialmente quando tecnologias passam a influenciar avaliação, acesso a oportunidades e trajetórias educacionais (AKGUN; GREENHOW, 2021; FU; WENG, 2024). Por fim, esses eixos reforçam que acesso ao digital não é sinônimo de uso qualificado: diferenças de infraestrutura, tempo disponível, suporte pedagógico, repertório cultural e condições materiais podem ampliar desigualdades, o que torna a formação ao longo da vida inseparável de políticas de permanência, acessibilidade, acolhimento e oportunidades reais de desenvolvimento para diferentes perfis de estudantes e trabalhadores (ANGWAOMAODOKO, 2025).
Na UFPel, esse debate tem um sentido adicional. Como universidade pública, gratuita, inclusiva e de qualidade, a UFPel assume a responsabilidade de formar com excelência e de produzir conhecimento comprometido com o desenvolvimento social. Em um mundo digital atravessado por IA, isso implica democratizar competências, ampliar participação e fortalecer práticas que reduzam vulnerabilidades informacionais. Implica também articular ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização como agenda integrada, capaz de sustentar rigor acadêmico, impacto territorial e cooperação com redes externas, sem abrir mão de princípios públicos. A universidade pública tem papel decisivo para que a transformação digital não se converta em aprofundamento de desigualdades, mas em ampliação de oportunidades, direitos e qualidade de vida.
A SIIEPE 2026 convida docentes, estudantes, estudantes de escolas, técnicos-administrativos em educação, pesquisadoras e pesquisadores, grupos de ensino, projetos de extensão, grupos de inovação e parcerias institucionais a submeter trabalhos, relatar experiências e construir caminhos coletivos. Interessa-nos tanto a investigação rigorosa quanto às práticas que já estão reconfigurando salas de aula, laboratórios, serviços e comunidades. Interessa-nos discutir ganhos e limites, soluções e dilemas, e principalmente como garantir que a IA seja instrumento de qualificação do trabalho, fortalecimento da cidadania e ampliação do direito à educação, e não um atalho que fragiliza processos formativos. A SIIEPE 2026 é um convite para transformar as questões centrais em produção acadêmica, em redes de colaboração e em compromissos institucionais: aprender a aprender, com responsabilidade, para que a UFPel siga sendo referência pública de formação, ciência e transformação social.