Modelagem Matemática do COVID-19: Atualização de 19.06.2020

O contexto mundial e brasileiro é analisado na atualização semanal dos pesquisadores do GDISPEN sobre a evolução da pandemia do COVID-19.

O Brasil dentro do cenário mundial:

  • O Brasil se encontra no 97° dia da epidemia após o 100° caso e não apresenta atenuação no seu crescimento. Nesta sexta-feira, 19/06, superou a marca de 1 milhão de pessoas que já se infectaram com o novo coronavírus e está muito próximo de atingir 50.000 óbitos. Segundo reportagem do jornal Estadão, passados 114 dias desde o primeiro caso, hoje praticamente toda a população brasileira está em risco de exposição ao vírus. O COVID-19 já chegou a 85% dos municípios do país (4.742), que correspondem por 98% de toda a população, de acordo com o levantamento do projeto de transparência de dados Brasil.io (https://brasil.io/home/). Dados em 18/06: confirmados: 978.142; óbitos: 47.748; recuperados: 482.102; casos ativos: 448.292
  • No mundo em 18/06: confirmados: 8.569.985; óbitos: 455.575; recuperados: 4.509.468; casos ativos: 3.604.942

No gráfico pode-se ver a evolução diária da epidemia no mundo. São analisados 12 países, onde, na maioria, a epidemia está em ascendência. O Brasil segue com ritmo de crescimento elevado. Dentre os países selecionados, os números gerais do Brasil são inferiores somente aos dos Estados Unidos. Analisando os valores por 1 milhão da população, temos no Brasil 4.654 casos confirmados e 227 mortes.

Na tabela abaixo, são apresentadas as taxas de infecção e fatalidade no mundo, dando uma idéia geral da epidemia (https://informationisbeautiful.net/). São apresentados os casos confirmados (confirmed cases), mortes (death), a porcentagem de casos que foram a óbito (% cases who have died), os casos por milhão da população (cases per million people), e óbitos por milhão (death per million people), para os 20 países que lideram cada categoria no dia de hoje. Pode-se verificar que os Estados Unidos, Brasil, Rússia e Índia são os países com o maior número de infectados por COVID-19, respectivamente. Se analisarmos os casos por milhão da população, este ranking é de Chile, Peru, Estados Unidos e Bielorússia, sendo que o Brasil se encontra em 8° (subiu 3 posições nesta semana). Analisando o número de mortes, Estados Unidos, Brasil, Reino Unido e Itália tem os maiores valores. Já nas mortes por milhão de habitantes, Bélgica, Reino Unido, Espanha e Itália lideram os números, sendo que o Brasil se encontra em 13° (caiu 1 posição nesta semana).

Na sequência apresentam-se gráficos que mostram como a epidemia está distribuída ao redor do planeta. São apresentados os gráficos para casos confirmados e óbitos por milhão de habitantes respectivamente (https://ourworldindata.org/coronavirus-data).

Na figura a seguir, apresenta-se o gráfico da evolução da epidemia no Brasil, tanto para o número de infectados quanto para o de óbitos diários, evidenciando a curva de tendência (média móvel de 7 dias) para ambos os casos. A curva segue em ascendência, mas parece estar iniciando um comportamento de estabilização. Em conjunto são apresentados os gráficos que mostram a distribuição destes casos dentro das regiões do país.

Nas figuras abaixo pode-se visualizar os números de casos confirmados e óbitos em cada estado da federação, distribuídos por região, na ordem: nordeste, norte, centro-oeste, sudeste e sul.

O RS dentro do cenário brasileiro:

Nos gráficos a seguir, apresenta-se a evolução do COVID-19 para o Brasil e 14 estados, a partir do 100° caso. Dentre estes estados, o RS segue tem trajetória menos intensa que SP, RJ, CE, PE, AM, ES, BA, AL, DF e PA.

O RS possui 156,65 infectados e 3,57 óbitos por 100.000 habitantes, e tem a 3ª menor taxa de casos confirmados, dentre os estados selecionados.  Dentre os 3 estados da região sul, o RS segue apresentando o maior indicador no número de óbitos, 3,57, seguido pelo Paraná com 3,55 e Santa Catarina com 3,1. Em números acumulados o RS possui 17.822 infectados e 406 (2,3%) óbitos.  Do valor total de casos confirmados, 80% se recuperaram (14.290) e 18% seguem em acompanhamento (3,126). Analisando o gênero, 53% dos infectados são do sexo feminino e 47% do sexo masculino.

Com o aumento do número de casos confirmados e de suspeitos de COVID-19, o sistema de saúde do RS tem acompanhado um aumento no número de ocupação dos leitos de UTI, sendo que atualmente, aproximadamente 71% destes leitos estão ocupados. Hoje, temos 2014 leitos de UTI no estado, com um aumento de 64 novos leitos nesta semana (em relação à última sexta-feira). Percebe-se pelas barras vermelhas o aumento das internações.

O número de casos de COVID-19 continua crescendo no RS. Na sequência é apresentado o gráfico do número de reprodução diário (Rt) desde o início dos casos no RS. Foram considerados os dados de casos confirmados por data de início dos sintomas (http://ti.saude.rs.gov.br/covid19/). Este dado é mais suave uma vez que é atualizado diariamente de forma retroativa à data real em que os sintomas iniciaram. Os dados de casos confirmados iniciam no final da 9ª semana epidemiológica no dia 29/02 e os resultados são apresentados para a semana posterior, considerando um Rt médio por semana. Observa-se a variação do Rt ao longo das semanas epidemiológicas 10 a 24, sendo que na última semana (24ª) o estado teve um Rt=0,92, com um índice de confiança de 95% variando entre 0,89 e 0,96. Cabe observar que, se for utilizado o dado acumulado por data de notificação (ao invés do dado por início dos sintomas), este valor de R é maior e fica em torno de 1,1.

Os valores de Rt são calculados através de um modelo parametrizado para epidemias, desenvolvido por um grupo experiente de pesquisadores do colégio Imperial de Londres, Reino Unido (Thompson et al., 2019). Este modelo leva em conta a incidência de casos notificados. Assim, a interpretação de um valor de Rt menor do que 1 deve ser feita com cautela.

Na sequência é apresentado o gráfico dos dados confirmados de COVID-19 para o RS, juntamente com os dados modelados pelo modelo matemático SIR utilizado pelo GDISPEN. Uma projeção para os próximos 5 dias é feita, estimando que o estado atingirá neste período em torno de 19.000 infectados. No modelo matemático SIR foi considerado um período de infecção de 5,2 dias.

Abaixo seguem os gráficos de 16 cidades gaúchas que possuem mais de 100.000 habitantes. No total são 363 municípios do RS que possuem casos confirmados de COVID-19 (de um total de 497 municípios). No modelo matemático SIR, para as cidades, foi considerada uma taxa de reprodução R0 que variou de 1 a 1,4. Observe que estão sendo utilizados os dados por data de notificação. Ainda, observe que o R utilizado é maior que o do estado em alguns casos, uma vez que em alguns destes municípios a epidemia está mais agressiva (com uma prevalência maior). Para as cidades de Porto Alegre, Pelotas e Santa Maria, os dados confirmados das prefeituras municipais são utilizados nos gráficos. Para as demais cidades, são utilizados os dados da Secretaria da Saúde do estado (SES RS). Pelotas está com 172 casos confirmados de COVID-19 no dia 18/06 (dado divulgado pela Prefeitura Municipal), sendo que antes do final desta publicação registrou 5 novos casos.

Este estudo tem finalidade puramente acadêmica e científica, mostrando a grande aplicabilidade da modelagem matemática em problemas reais. As discussões, opiniões, idéias e publicações geradas a partir dos resultados do modelo utilizado são de autoria dos respectivos autores, e não necessariamente representam aquelas das instituições a que estes pertencem. Detalhes da pesquisa podem ser consultados na página do laboratório do Grupo de Dispersão de Poluentes & Engenharia Nuclear (GDISPEN): https://wp.ufpel.edu.br/fentransporte/.

* Os dados da epidemia foram consultados antes das 16h do dia 19.06 nas redes sociais e nos sites do Ministério da Saúde do Brasil e da Secretaria da Saúde do RS, da Universidade John Hopkins, da Fiocruz, da plataforma P2k do DMS da UFPel, do Worldometeres, do Our World in Data e Information is Beautiful. Os dados podem divergir de acordo com a fonte consultada.