Síria: da Guerra Civil à Queda de Bashar Al-Assad e o Novo Contexto Político

Iniciado em 2011, o conflito na Síria se tornou um dos episódios mais devastadores e complexos do século XXI. Envolvendo disputas internas, interesses geopolíticos e uma crise humanitária sem precedentes, a guerra civil transformou completamente o país e toda a dinâmica geopolítica do Oriente Médio. Este texto apresenta um panorama da trajetória do conflito – desde suas origens e impacto até a queda do regime de Bashar al-Assad -, analisando também os impactos sociais, ambientais e políticos em um novo cenário ainda marcado por incertezas.

Figura 1: Rebeldes rasgam retrato do ex-presidente sírio, Bashar al-Assad, em Aleppo .

Guerra na Síria: 5 razões por que é tão difícil acabar com o conflito - BBC News Brasil

Foto: Karam al-Masri/EFE/EPA, 2025.

 

A GUERRA CIVIL

Embora o conflito tenha se iniciado em 2011, suas causas foram acumuladas durante décadas. O descontentamento com o regime autoritário da família Assad acumulava-se por anos. O governo, instaurado por Hafez al-Assad em 1971 e continuado por seu filho Bashar al-Assad em 2000, reprimiu manifestantes pró-democracia que foram às ruas durante o auge da Primavera Árabe em 2011. A resposta violenta do Estado levou a militarização do conflito e a fragmentação da oposição em múltiplas frentes, incluindo grupos jihadistas e milícias curdas.

Países como Estados Unidos, Árabia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Turquia apoiaram a oposição, enquanto Rússia, Irã, Iraque e o grupo libânes Hezbollah intensificaram seu apoio ao governo sírio, com ajuda militar e bélica. Mas, com o avanço do Estado Islâmico em 2014, os Estados Unidos lideraram uma coalização internacional para intervir no país, com foco na eliminação do grupo extremista. Já em 2020, um cessar-fogo mediado por Rússia e Turquia reduziu os combates na última província controlada pela oposição, Idlib, mas o controle territorial do país permaneceu dividido e o governo sírio nunca recuperou totalmente seu território.

 

IMPACTOS HUMANITÁRIOS DO CONFLITO

O resultado do jogo de poder na região fez com que a ONU classificasse a guerra síria como o “pior desastre causado pelo homem desde a Segunda Guerra Mundial”. Em cerca de uma década de conflito, houve mais de 400 mil mortes, das quais 117 mil foram civis, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH). Cerca de metade da população síria anterior à guerra, 11,5 milhões, se encontra refugiada em diversos países, principalmente entre Turquia, Jordânia, Líbano e Egito. Internamente, 80% da população do país vivem abaixo da linha da pobreza, segundo a ONU.

 

O PAPEL DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NO CONFLITO

O impacto ambiental teve um papel crucial no agravamento do conflito sírio. Segundo a reportagem do DW (2021), entre 2006 e 2010, o país enfrentou uma das piores secas de sua história, colapsando o setor agrícola e forçando o êxodo de trabalhadores rurais para os centros urbanos em busca de emprego. Os que permaneceram, na maioria agricultores pobres, se transformaram em um alvo fácil para o recrutamento de grupos terroristas como o Estado Islâmico. O aumento dos preços dos alimentos, a escassez de água e o desemprego crescente, como consequências da falta de chuva, foram um fomentador do conflito.

 

A QUEDA DE ASSAD E O NOVO GOVERNO SÍRIO

Apesar das forças de oposição não terem conseguido derrubar o governo de Assad em 2011, foram muitas dessas mesmas forças que conseguiram derrubar o governo em 7 de dezembro de 2024. Após sucessivas derrotas militares e diante da crescente insatisfação popular, parte da elite política e militar rompeu laços com o presidente. A capital Damasco foi tomada por rebeldes e Assad fugiu para a Rússia com a sua família.

Derrotados em 2014, os rebeldes se reagruparam na cidade de Idlib. Lá, a principal força de oposição rompeu com a al-Qaeda em 2016, assumindo o controle de conselhos locais. Esse grupo, Hayat Tahrir al-Sham (Comitê de Libertação do Levante, ou HTS) é o que está no comando em Damasco. O grupo que surgiu diretamente da antiga al-Qaeda no Iraque, não conseguiu se livrar dessas raízes e continua sendo uma organização profundamente autoritária e sectária. O líder do HTS, Ahmed al-Shaara tem uma forte reputação de brutalidade contra grupos minoritários da Síria, como alauítas, curdos, xiitas e armênios.

De acordo com o Brasil de Fato, em janeiro deste ano, um mês após o grupo ter tomado o poder da Capital síria e ter derrubado o governo de Assad, as novas autoridades anunciaram o fim da vigência da constituição do país e o líder do HTS, Ahmed al-Shaara, foi nomeado como o presidente da Síria durante o período de transição do governo. Al-Shaara assinou uma declaração constitucional que estabelece um período de transição de cinco anos para o país.

 

ASSASSINATO DE CIVIS ALAUÍTAS

No início de março deste ano, episódios de violência ocorreram nas províncias de Latakia e Tartous, resultando em mais de mil mortos, muitos deles civis de minoria alauíta. O grupo étnico religioso do qual a família de Bashar al-Assad faz parte, constitui cerca de 10% da população síria e suas tradições religiosas diferem de ramos tradicionais do Islã.

Organizações de direitos humanos como o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) denunciaram o governo de cometer crimes contra a humanidade e limpeza étnica, enquanto o governo recém-formado prometeu punir os responsáveis e acusou os seguidores de Assad e potências estrangeiras de semear o caos e instigar ainda mais o conflito.

 

GOVERNO DE TRANSIÇÃO COM MINORIAS

Diante de pressões populares, o HTS anunciou um governo de transição com a inclusão de representantes de minorias: uma ministra cristã, um ministro alauíta e um ministro druso. Esse gabinete ampliado é visto como um marco importante na transição de décadas de governo da família Assad e na tentativa de melhorar os laços da Síria com o Ocidente.

 

A GEOPOLÍTICA DO ORIENTE MÉDIO APÓS A QUEDA DE ASSAD

A queda de Assad mudou significativamente a geopolítica da região do Oriente Médio. A influência do Irã na Síria enfraqueceu: suas rotas de suprimento para o Hezbollah no Líbano ficaram interrompidas, a embaixada iraniana foi saqueada e muitos diplomatas fugiram do país. Sem o apoio sírio, o Hezbollah perdeu força operacional e passou a enfrentar maiores dificuldades.

O Hamas, menos dependente da Síria, acompanha a instabilidade com preocupação, já que o “Eixo da Resistência” sofreu abalos.

Enquanto isso, Israel se aproveita da vulnerabilidade para reforçar sua posição regional, mobilizando forças contra a própria Síria, o Hamas e o Hezbollah. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu redireciona seus esforços contra o Irã, visando limitar a influência do país no Oriente Médio.

 

CONCLUSÃO

A queda do regime de Bashar al-Assad marca um ponto importante na história da Síria e em todo o contexto geopolítico do Oriente Médio. Após mais de uma década de guerra civil, o país inicia um novo ciclo sob a liderança do HTS, que, embora represente uma quebra com o passado autoritário dos Assad, traz consigo incertezas devido ao seu histórico violento. O novo governo de transição, pressionado interna e externamente, enfrenta muitos desafios, como a reconciliação nacional, a reconstrução do país e a garantia dos direitos das minorias.

Ao mesmo tempo, o vácuo deixado por Assad desestabiliza antigos aliados, como o Irã, e fortalece a posição regional de Israel. Sendo assim, o cenário pós-Assad é marcado por uma frágil esperança de mudança, mas permeada por uma desconfiança quanto ao futuro da democracia e dos direitos humanos. O futuro da Síria dependerá, em grande parte, da capacidade do novo governo de romper com as lógicas autoritárias e saber dialogar para construir um Estado que represente verdadeiramente o povo sírio.

 

Escrito por: Izadora Bartels Oliveira, Assistente de logística

 

REFERÊNCIAS

BRASIL DE FATO. Síria anuncia fim de operação militar contra apoiadores de Bashar al-Assad; mais de mil morreram, diz observatório. 10 mar. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/03/10/siria-anuncia-fim-de-operacao-militar-contra-apoiadores-de-bashar-al-assad-mais-de-mil-morreram-diz-observatorio. Acesso em: 21 abr. 2025.

BRASIL DE FATO. “Uma década de guerra na Síria: ‘Não imaginava isso até hoje’, diz refugiada no Brasil”. 15 mar. 2021. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2021/03/15/uma-decada-de-guerra-na-siria-nao-imaginava-isso-ate-hoje-diz-refugiada-no-brasil/. Acesso em: 21 abr. 2025.

PRASHAD, Vijay. Como entender a mudança de governo na Síria. Brasil de Fato, 23 dez. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/colunista/vijay-prashad/2024/12/23/como-entender-a-mudanca-de-governo-na-siria/. Acesso em: 21 abr. 2025.

CNN BRASIL. O que está acontecendo na Síria: um guia para entender o conflito. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-esta-acontecendo-na-siria-um-guia-para-entender-o-conflito/. Acesso em: 21 abr. 2025.

CNN BRASIL. O que se sabe sobre a pior violência na Síria desde a queda de Assad. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-se-sabe-sobre-a-pior-violencia-na-siria-desde-a-queda-de-assad/. Acesso em: 21 abr. 2025.

CNN BRASIL. Presidente da Síria forma governo de transição após massacres. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/presidente-da-siria-forma-governo-de-transicao-apos-massacres/. Acesso em: 21 abr. 2025.

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_________. O que está acontecendo na Síria? Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/o-que-est%C3%A1-acontecendo-na-s%C3%ADria/a-71880542. Acesso em: 21 abr. 2025.