• Ilustração em estilo aquarela mostrando os rostos estilizados de treze mulheres de diferentes raças, com cabelos e traços distintos, dispostas horizontalmente abaixo do título.
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Convite

CONVITE PARA O LIVRO “TECENDO CARTAS”


Imagem vertical em plano fechado mostra um pedaço de tecido retangular de algodão cru com bordados manuais. No centro, a frase "Tecendo CARTAS" é o elemento principal, com a palavra "Tecendo" em linha amarela cursiva e "CARTAS" em letras de forma pretas e amarelas. Ao redor, há diversas palavras e expressões bordadas em tons de vermelho, preto, azul e laranja, dispostas em várias direções. Entre elas estão: "compartilhar", "mulheres", "sobrevivências", "coragem", "histórias", "quebramos correntes", "memórias", "gente", "vozes" e "plural universidade". O fundo é neutro em tom bege claro.Imagem de página de texto com fundo bege. Segue a transcrição integral do conteúdo:"Convite para o livro Tecendo Cartas IIOlá,Como você está? Esperamos que bem, na medida do possível, diante das ambiguidades e desafios que surgem para quem escolhe (e pode) habitar os espaços da universidade. Escrevemos para compartilhar as reverberações e desdobramentos do livro Tecendo cartas: (sobre)vivências de mulheres na universidade¹ e para fazer um convite.Começaremos contando sobre a experiência do livro Tecendo Cartas. A ideia começou de forma despretensiosa, mas motivada pelo sonho de que as múltiplas mulheridades pudessem ser acolhidas, respeitadas e reconhecidas no contexto universitário. Sabemos que, infelizmente, isso ainda está longe de acontecer. Por isso, em meados de 2021, decidimos reunir experiências diversas em uma coletânea de cartas sobre o tema.Durante a escrita das cartas, muitas autoras que participam do livro nos procuraram para trocas e diálogos, o que nos fez pensar em diversas nuances que não havíamos considerado. Após o lançamento do livro, recebemos muitas manifestações de apoio, de agradecimento e de identificação. Foram e-mails, mensagens e publicações nas redes sociais, evidenciando a dimensão e a importância do movimento que o livro possibilitou: coletivização das violências, das dores, dos sofrimentos e das formas de resistência construídas por mulheres para se manterem no contexto universitário com satisfação e tentando construir caminhos alicerçados em suas existências.[Nota em tamanho menor]: Bordado feito por Renata Mattos Avril, uma das autoras que participou do livro Tecendo Cartas I. O bordado foi inspirado nas cartas que compunham o livro e fotografado por seu filho Nino Mattos Avril. Imagem de página de texto com fundo bege. Segue a transcrição integral do conteúdo:"Em nossa universidade, a UFPEL, realizamos o lançamento do livro através de duas rodas de conversa com a presença de algumas das autoras, tanto profissionais quanto graduandas, que desejaram participar do debate. Mais de uma centena de estudantes se inscreveram e tivemos que migrar para o auditório da Faculdade de Medicina, Psicologia e Terapia Ocupacional. Disponibilizamos lanches, houve uma apresentação musical e cada autora convidada fez um breve relato sobre sua carta. Então, abrimos o debate e o microfone passou a circular entre as pessoas presentes.As duas rodas de conversa foram muito impactantes, pois sua organização dialógica permitiu que viessem à tona relatos de violência trazidos pelas estudantes, pautados por medo, solidão e raiva, em muitos casos, derivadas dos processos que estruturam nossa sociedade através de lógicas patriarcais, racistas, classistas, capacitistas e cisheteronormativas. Tudo isso nos tocou profundamente e mobilizou os membros do Centro Acadêmico da Psicologia que trouxeram a demanda de mais discussões sobre o tema com o colegiado do curso. Essas falas mobilizaram também alguns colegas professores, os quais não estiveram no evento, mas ouviram relatos através de estudantes presentes. Eles passaram a exigir explicações sobre o que estávamos fazendo e a dizer que havíamos “jogado seus nomes na lama” nos questionando como iríamos resolver o problema que supostamente havíamos causado. O curioso é que nos relatos partilhados nas rodas de conversa nenhum nome foi citado! Mas o que mais nos impactou foi que não havia, da parte desses colegas, preocupação ou interesse nas violências sofridas pelas alunas. A questão era o que nós estávamos fazendo, o problema que estávamos “criando”, como se estivéssemos incitando uma rebelião. A demanda imediata dos representantes da lógica hegemônica foi “acabar com o problema” supostamente criado pelas mulheres. Na verdade, com o intuito de preservar sua suposta reputação e silenciar""a onda de vozes que se pronunciou no evento, buscavam garantir que os sistemas de poder que proporcionam a eles inúmeros privilégios não sofressem nenhum abalo.Sara Ahmed (2002) nos ajuda a compreender essa lógica quando evoca a figura da “feminista estraga prazeres”³, como aquela que nomeia os processos que acontecem a olhos vistos, e que, em seguida, passa a ser acusada de criá-los. Tais problemas são invisíveis àqueles que habitam lugares de privilégio. Nesse sentido, e a partir de sua pesquisa sobre o trabalho na universidade, a autora utiliza a imagem significativa de uma parede de tijolos para se referir às violências dos sistemas de poder contra quem não está dentro da norma hegemônica. Nessa lógica, inúmeras paredes existem para algumas pessoas, as quais se chocam contra elas constantemente, mas não para outras. Quando alguém aponta a existência de uma parede, antes invisibilizada, há uma tentativa imediata de quem está em posição de poder de responsabilizar quem a explicitou por sua criação. Foi o que aconteceu conosco! O objetivo de alguns colegas era mostrar que “o problema éramos nós”, mulheres que ficam “criando caso” na universidade, incitando o barulho, a fala, a coletivização onde deveria haver silêncio e dor vividos na solidão e na privacidade. Mas o pessoal é político!Nesse sentido, a pesquisadora Elsa Dorlin (2021, p. 16) destaca que é fundamental “[...] desindividualizar as vivências⁴ das mulheres, reconhecendo em cada uma dessas vivências individuais as múltiplas expressões de uma condição social e histórica comum”. Cabe destacar que coletivizar não significa desconsiderar as reverberações singulares. A força desse movimento de acolhimento e reconhecimento de lógicas de violências institucionalizadas se mostrou um caminho fundamental para transformação de sofrimentos em alicerces de resistência e construção de possibilidades de existência na universidade.² AHMED, Sara. Viver uma vida feminista. São Paulo: Ubu, 2022.³ SILVEIRA, Marília. Carta às pesquisadoras que criam caso. In: FARIAS, Camila Peixoto; LUCZINSKI, Giovana Fagundes (orgs.). Tecendo cartas: (sobre)vivências de mulheres na universidade. São João de Meriti: Desalinho, 2022.⁴ DORLIN, Elsa. Sexo, gênero e sexualidades: introdução à teoria feminista. São Paulo: Crocodilo/ Ubu editora, 2021.""Nos inúmeros momentos de troca e diálogos sobre as cartas do primeiro livro, um aspecto sempre ficou evidente: o silenciamento e a invisibilização das violências sofridas por grupos minorizados como algo que caracteriza os mais diversos contextos universitários do país. Também ficou nítido que quando corpos vivos, plurais, racializados, genderizados, com deficiência ou empobrecidos passam a narrar o que sentem e o que vivenciam na universidade, não é mais possível fingir universalidade e neutralidade. Somam-se aqui todos os corpos dissidentes de gênero e de sexualidades como a população LGBTQIAPN+. São corpos que questionam, desafiam, inventam possibilidades de vida que não estão em acordo com os ideais sociais e institucionais hegemônicos (cartesianos e coloniais). A pluralidade pulsa e, mesmo que tente ser excluída, aparece, inclusive, nas manobras que visam a aniquilação dessas subjetividades.As vivências a partir do livro Tecendo Cartas nos fizeram perceber de forma ainda mais aguda a importância de seguirmos compartilhando e coletivizando nossas (sobre)vivências no contexto universitário. Destacamos as diversas formas de violência vividas pelas múltiplas mulheres que o habitam e nos questionamos: que mulheridades podem existir na universidade? Nem mesmo aquelas que performam o ideal vigente. E as mulheridades não normativas: trans, travestis, lésbicas, indígenas, quilombolas, com deficiência, neurodivergentes, intersexo, assexuais, não binárias, de diferentes territórios e religiões? Corpos para os quais é dito constantemente, direta ou indiretamente, que a universidade não é seu lugar. Por isso entendemos que as possibilidades de alianças, de apoio e amparo entre diferentes grupos oprimidos no ambiente universitário são um caminho fundamental para sua transformação. Gloria Anzaldúa (2021), autora que nos convida a escrever, acordando a escritora que existe em todas nós, nos convoca também a movimentos de coalizão⁵: a pensar⁵ ANZALDÚA, Gloria. A vulva é uma ferida aberta e outros ensaios. Rio de Janeiro: A Bolha Editora, 2021.""um nós mais amplo a partir da pluralidade de opressões que coloca diferentes grupos em múltiplas posições de sofrimento.Tendo isso em vista, lançamos o convite para participação no livro Tecendo Cartas II. Com imensa esperança, convidamos a todas as pessoas que se sentirem tocadas por essa proposta a nos enviarem suas cartas narrando suas vivências na universidade. A escrita pode ser feita de forma totalmente livre, sem formatações ou regras pré-estabelecidas. Solicitamos o envio da carta até dia 30 de outubro de 2025 para o e-mail pfcamila@hotmail.com.A partir dessa chamada, leremos com carinho e atenção todas as cartas recebidas para, juntamente com a curadoria editorial, construir a composição do livro Tecendo Cartas II. Por fim, compartilhamos um trecho inspirador do texto “A transformação de silêncio em linguagem e ação” de Audre Lorde⁶:“[...] O fato de estarmos aqui e que eu esteja dizendo essas palavras, já é uma tentativa de quebrar o silêncio e estender uma ponte sobre nossas diferenças, porque não são as diferenças que nos imobilizam, mas o silêncio. E restam tantos silêncios para romper!”Deixamos nosso abraço e nosso desejo de trocas e construções conjuntas!Afetuosamente,Camila e Aline.⁶ Comunicação de Audre Lorde no painel “Lésbicas e literatura” da Associação de Línguas Modernas em 1977 e publicado em vários livros da autora."