Repercussão do nosso relatório na mídia

Neste post, agregamos os links para acessar algumas das reportagens e comentários da imprensa e outras instituições de pesquisa sobre relatório “Desinformação, Mídia Social e Covid-19“, lançado no dia 17 de maio.

Reportagens da imprensa:

 

Análise:

 

Newsletter:

  • A International Fact-Checking Network – Poynter indicou o nosso relatório como sugestão de leitura em sua newsletter, a Factually.
  • Também fomos citados na newsletter do ObjETHOS, que dá destaque para um dos resultados do nosso relatório: o alto engajamento dos usuários que compartilham desinformação.

 

Quer conversar conosco sobre o relatório? Entre em contato por raquel.recuero@ufpel.edu.br (Raquel Recuero) ou fbonowsoares@gmail.com (Felipe Soares).

DESINFORMAÇÃO SOBRE COVID-19 NA MÍDIA SOCIAL BRASILEIRA: Laboratório MIDIARS divulga relatório de pesquisa

Está disponível o novo relatório de pesquisa sobre desinformação e Covid-19 na mídia social brasileira do Laboratório MIDIARS. O relatório sistematiza o um ano (2020) de pesquisas sobre o assunto, que buscou investigar os elementos de  desinformação sobre a pandemia na mídia social brasileira, bem como sugerir possíveis formas de combate ao fenômeno com base no trabalho.

Dentre os principais resultados, a pesquisa aponta que foram fundamentais  para o espalhamento da desinformação (1) o enquadramento político-partidário da pandemia e do vírus, potencializado pela polarização política; (2) a dificuldade do conteúdo verificado em circular dentro das bolhas polarizadas e extremizadas politicamente;  (3) o alto engajamento dos usuários que compartilham desinformação; (4) o enquadramento do jornalismo declaratório como suporte do conteúdo desinformativo; (5) o papel de autoridades políticas e de saúde que legitimam o conteúdo problemático através de sua posição social ou cargo público; (6) a ação de veículos apócrifos hiperpartidários na produção e espalhamento desses conteúdos problemáticos; (7) a desconfiança em relação a vacinas em função do enquadramento político do tema; (8) a associação do discurso desinformativo ao discurso da violência através da promoção da xenofobia contra a China e asiáticos em geral.

As recomendações para combate à desinformação caminham por uma ação urgente dos agentes institucionais e estatais na criação de campanhas contra esses conteúdos problemáticos que circulem não apenas na mídia social, mas também na tradicional (já que é muito difícil “furar as bolhas”); ações de letramento digital e fomento ao debate público com autoridades científicas sobre os temas-chave; cobrança de ações de combate à desinformação nas plataformas; responsabilização de agentes públicos na propagação e legitimação dos conteúdos falsos; ações dos veículos jornalísticos para evitar manchetes de baixa qualidade, de modo a impedir que sejam usados para dar credibilidade à desinformação.

O relatório com os resultados detalhados está aqui: Desinformação covid midiars 2021

E aqui você pode conferir uma apresentação em PDF do relatório.

Para entrar em contato conosco, estamos disponíveis através de raquel.recuero@ufpel.edu.br (Raquel Recuero) e fbonowsoares@gmail.com (Felipe Soares).

 

 

Nova publicação: How the Mainstream Media Help to Spread Disinformation about Covid-19

Principais pontos

  • Analisamos o compartilhamento de links da imprensa em grupos públicos no Facebook em três eventos relacionados a Covid-19. Particularmente, olhamos para manchetes que poderiam reforçar narrativas de desinformação.
  • Descobrimos que os grupos que compartilham as manchetes “problemáticas” não são os mesmos grupos que compartilham outros links da imprensa. Isto é, temos dois ecossistemas de informação distintos.
  • Identificamos também que estes links da imprensa com manchetes “problemáticas” são compartilhados em sua maioria em publicações no Facebook acompanhadas de mensagens desinformativas.

 

Overview

O nosso artigo “How the Mainstream Media Help to Spread Disinformation about Covid-19” foi publicado na última edição do M/C Journal. No artigo, analisamos publicações em grupos públicos no Facebook que incluíam 20 links da imprensa sobre Covid-19. Estes links foram selecionados a partir de uma análise de conteúdo para identificar manchetes que poderiam contribuir para narrativas de desinformação. Dez links possuíam manchetes “problemáticas” e os outros dez foram utilizados como um grupo controle, contendo manchetes sobre as mesmas temáticas, mas sem informações que poderiam reforçar a desinformação. Descobrimos que a maioria dos links que poderiam contribuir para narrativas desinformativas eram compartilhados em grupos que não compartilham os links do grupo controle. Foi o que chamamos de bolha da desinformação, já que também olhamos para as publicações nos grupos públicos com estes links e identificamos que a grande maioria (86,2%) eram acompanhadas de mensagens que reproduziam desinformação – como afirmar que vacinas são perigosas e que medidas de distanciamento social são desnecessárias.

A nossa pesquisa mostra como jornalistas devem estar atentos na produção de manchetes quando publicam notícias. Afinal, manchetes mal construídas, como as que analisamos, acabam sendo utilizadas para legitimar discursos desinformativos nas mídias sociais. Assim, a imprensa pode acabar contribuindo para o espalhamento de desinformação sobre Covid-19.

 

Método

O primeiro passo para a construção do nosso corpus de análise foi selecionar três eventos relacionados à pandemia de Covid-19 no Brasil. O primeiro evento selecionado foi a repercussão de pronunciamento de Jair Bolsonaro em 24 de março de 2020, quando minimizou a pandemia, criticou as medidas de distanciamento social e afirmou que era necessário salvar a economia. O segundo evento foi quando especialista da OMS falou que a transmissão da doença através de pacientes assintomáticos parecia ser rara. O terceiro evento foi quando a Anvisa interrompeu os testes da vacina Coronavac.

A partir de uma análise exploratória no Facebook, utilizando o CrowdTangle, selecionamos os links da imprensa mais compartilhados sobre cada um dos eventos. Utilizamos a análise de conteúdo (com dois analistas) para identificar manchetes que poderiam reforçar narrativas desinformativas. Por exemplo: (1) “Desemprego é crise muito pior do que coronavírus”, diz Bolsonaro; (2) Pacientes assintomáticos não impulsionam coronavírus, diz OMS. Consideramos problemáticas apenas as manchetes marcadas pelos dois analistas. Destas, selecionamos as dez de maior compartilhamento nos grupos públicos do Facebook para analisar. Para criar um “grupo controle”, que nos ajudaria a identificar onde geralmente circulam as notícias da imprensa, selecionamos também as dez manchetes com maior número de publicações em grupos públicos do Facebook que não foram marcadas como problemáticas por nenhum dos analistas.

A partir destas 20 manchetes, realizamos nova busca com o CrowdTangle. Utilizamos a plataforma para coletar publicações de grupos públicos do Facebook que incluíam o link para alguma destas notícias. No total, coletamos 2762 posts. Utilizamos a análise de redes sociais para mapear os grupos que compartilhavam estes links, identificando “comunidades” que compartilham links semelhantes (métrica de modularidade). Utilizamos também a análise de conceitos conectados para explorar os nomes dos grupos de cada comunidade. Por fim, utilizamos novamente a análise de conteúdo (dois analistas) para analisar as mensagens de posts que compartilhavam as manchetes que reforçavam a desinformação sobre Covid-19.

 

Resultados

A nossa análise mostra que as manchetes que poderiam reforçar a desinformação são publicadas, em sua maioria, em grupos que não publicam os links do nosso “grupo controle”. No total, apenas 10,7% dos grupos possuíam posts com os links de manchetes problemáticas e posts com links do grupo controle. Entre os outros grupos, 43,8% compartilhou apenas links com manchetes que reforçavam a desinformação e os outros 45,5% compartilharam os outros links da imprensa. Isto pode ser visto na imagem 1, em que links problemáticos estão em vermelho e links do grupo controle estão em azul; e na imagem 2, em que são identificadas duas comunidades a partir da métrica de modularidade (os sete links do grupo roxo foram identificados como problemáticos).

Figura 1. Grafo de rede

 

Figura 2. Grafo de rede com modularidade

 

Para explorar que tipos de grupos faziam parte de cada comunidade, selecionamos os nomes dos grupos e criamos uma rede de conceitos a partir do método chamado análise de conceitos conectados. Este método nos permite identificar os termos mais presentes nos nomes dos grupos e suas conexões (quando aparecem juntos, são parte de um mesmo nome de grupo). Descobrimos que a comunidade roxa (Figura 3), onde circularam as manchetes que reforçavam desinformação, possui alinhamento político próximo de Bolsonaro e outras temáticas da extrema-direita. Entre os grupos mais ativos estão: “Aliança pelo Brasil”, “Bolsonaro 2022”, “Nação Bolsonaro 2022” e “Sou de direita com orgulho”. Já na comunidade verde (Figura 4), Bolsonaro também aparece com centralidade, porém está principalmente associado a conceitos contrários ao seu nome (contra, fora, anti). Também aparecem grupos de esquerda e de localidades (Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, entre outros). Estão entre os grupos mais ativos: “Somos 70%”, “União da Esquerda”, “Lula presidente”, “Anti-Bolsonaro”. Portanto, descobrimos que, na média, as duas comunidades representam diferentes discursos políticos.

Figura 3. Rede de conceitos do grupo roxo

 

Figura 4. Rede de conceitos do grupo verde

 

Por fim, olhamos para as publicações que compartilhavam links de manchetes problemáticas. Após a análise de conteúdo, descobrimos que 81,8% das publicações com estes links também incluíam mensagens com desinformação no post. Este número é maior na comunidade roxa, que chamamos de “bolha de desinformação”, já que 82,6% dos posts incluíam mensagens com desinformação junto dos links da imprensa. Alguns exemplos de mensagens são: “DESEMPREGO, A CÂMARA DOS DEPUTADOS, O SENADO E O STF MATAM MAIS DO QUE COVID19”; “QUARENTENA FAKE #FicaEmCasa, a mentira do século”; “E o Dória quer te forçar a tomar esta merda [vacina Coronavac]”.

 

Relevância

A imprensa tem um papel importante na divulgação de informações sobre a pandemia. Porém, manchetes como as que analisamos podem contribuir para a legitimação e o espalhamento de desinformação. Manchetes que apenas reproduzem declarações (desinformativas) de políticos, que se utilizam de clickbaits, ou que incluem informações fora de contexto podem contribuir para o que a Organização Mundial da Saúde chamou de Infodemia. Cabe aos jornalistas e aos veículos de imprensa ter um cuidado especial na produção de manchetes, já que este é o conteúdo mais visível no compartilhamento de notícias em mídias sociais.

 

Autores e financiamento

Os autores deste artigo são Felipe Bonow Soares (MIDIARS) e Raquel Recuero (UFPEL/UFRGS). O estudo contou com o apoio do CNPq e da FAPERGS. Os dados foram coletados através do CrowdTangle, a quem também agradecemos pelo acesso.

Nova publicação: Research note: Bolsonaro’s firehose: How Covid-19 disinformation on WhatsApp was used to fight a government political crisis in Brazil

Publicamos na Harvard Misinformation Review um paper inicial sobre as ações no WhatsApp dos grupos que espalham desinformação sobre Covid-19.   Neste estudo, analisamos mensagens desinformativas sobre Covid-19 em grupos públicos do WhatsApp. Nossos principais resultados mostram um enquadramento político da desinformação e alta prevalência de teorias da conspiração. Em particular, esta desinformação foi utilizada para reforçar uma narrativa da extrema-direita e combater uma crise sofrida pelo governo Bolsonaro.

Os nossos resultados mostram como a desinformação sobre Covid-19 no WhatsApp conectou a pandemia a questões políticas, produzindo um conteúdo que favorecia uma narrativa de extrema-direita. De forma particular, identificamos como Bolsonaro ajudou a mobilizar esta campanha de desinformação, tendo impacto no número de compartilhamentos e nos tópicos das mensagens. Estes resultados implicam que o discurso de legitimação de líderes políticos pode influenciar diretamente o espalhamento de desinformação sobre Covid-19.

Autores e financiamento
Os autores deste artigo são Felipe Soares (MIDIARS), Raquel Recuero (UFPEL/UFRGS), Taiane Volcan (MIDIARS), Giane Fagundes (UFPEL) e Giéle Sodré (UFPEL). O estudo contou com o apoio da CAPES, CNPq e da FAPERGS. Agradecemos a equipe do Monitor das Eleições, que permitiu o acesso aos dados utilizados no estudo.

Esta pesquisa já tem outros resultados que foram publicados em Português em preprint no Scielo.  

Artigos sobre Covid-19 e desinformação publicados em 2020

Este ano o grupo de pesquisa se concentrou bastante em pesquisar e produzir resultados sobre a questão da desinformação e o COVID-19. A seguir, uma compilação do que temos publicado, para quem quiser consultar.

  • O Discurso Desinformativo sobre a Cura do COVID-19 no Twitter: Estudo de caso (Raquel Recuero e Felipe Soares), E-Compós: https://www.e-compos.org.br/e-compos/article/view/2127
  • Disputas discursivas e desinformação no Instagram sobre o uso da hidroxicloroquina como tratamento para o Covid-19 (Felipe Bonow Soares, Carolina Bonoto, Paula Viegas, Igor Salgueiro, Raquel Recuero), 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom: http://www.intercom.org.br/sis/eventos/2020/resumos/R15-0550-1.pdf
  • Polarização, Hiperpartidarismo e Câmaras de Eco: Como circulaa Desinformação sobre Covid-19 no Twitter (Raquel Recuero, Felipe Soares, Gabriela Zago), pré-print (SciELO): https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.1154
  • Desinformação sobre o Covid-19 no WhatsApp: a pandemia enquadrada como debate político (Felipe Bonow Soares, Raquel Recuero, Taiane Volcan, Giane Fagundes, Giéle Sodré), pré-print (SciELO): https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.1334
  • Covid-19, desinformação e Facebook: circulação de URLs sobrea hidroxicloroquina em páginas e grupos públicos (Felipe Bonow Soares, Paula Viegas, Carolina Bonoto, Raquel Recuero), pré-print (SciELO): https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.1476

Preprint: Covid-19, desinformação e Facebook: circulação de URLs sobrea hidroxicloroquina em páginas e grupos públicos

Principais pontos

  • Analisamos a circulação de URLs sobre a hidroxicloroquina em páginas e grupos públicos do Facebook entre março e julho de 2020. Nossos resultados apontam para a polarização no compartilhamento de links nos dois espaços
  • Também identificamos um contexto de assimetria, já que páginas e grupos favoráveis ao uso da hidroxicloroquina para o tratamento do Covid-19 compartilharam mais desinformação
  • Por fim, notamos diferenças entre páginas e grupos. Houve maior frequência de compartilhamento de URLs nos grupos, que também apareceram mais associados a mídias hiperpartidárias e desinformação

 

Overview

O nosso o artigo “Covid-19, desinformação e Facebook: circulação de URLs sobrea hidroxicloroquina em páginas e grupos públicos” está disponível em formato preprint na SciELO. Neste estudo, discutimos como circulou a desinformação sobre a hidroxicloroquina em páginas e grupos públicos no Facebook. Para isso, coletamos mais de 70 mil publicações entre março e julho de 2020, utilizando o CrowdTangle. Os nossos resultados mostram que (1) a circulação de URLs foi polarizada, tanto no contexto de páginas, quanto grupos; (2) o conteúdo desinformativo foi utilizado para reforçar uma narrativa pró-hidroxicloroquina; e (3) os grupos deram maior visibilidade a mídias hiperpartidárias e desinformação em comparação com as páginas, os grupos também registraram maior frequência no compartilhamento de URLs.

A nossa pesquisa mostra um contexto de polarização assimétrica na circulação de informações sobre a hidroxicloroquina no Facebook, com grupos e páginas favoráveis ao uso do medicamento para Covid-19 associados ao espalhamento de desinformação. Este contexto faz com que o conteúdo verificado não circule nos espaços onde circula a desinformação. Além disso, observamos diferenças entre páginas e grupos, que são importantes para pensar em estratégias no combate a desinformação na plataforma.

Método

Os resultados que apresentamos neste artigo são baseados na análise de mais de 70 mil publicações de páginas e grupos públicos no Facebook, que coletamos utilizando o CrowdTangle. Para a análise destes dados, utilizamos a Análise de Redes Sociais para mapear a circulação das URLs e Análise de Conteúdo para identificar as fontes de informação dos links mais compartilhados e a presença de desinformação.

Para a Análise de Redes Sociais, separamos páginas e grupos e criamos duas redes bipartidas. Nestas redes, temos nós que representam as URLs e nós que representam as páginas ou grupos que as compartilharam. Também utilizamos algoritmos que calculam a tendência das páginas e grupos em pertencerem ao mesmo grupo a partir das URLs que compartilham (páginas e grupos ficam mais próximo de outras páginas e grupos que compartilham os mesmos links).

Utilizamos também a Análise de Conteúdo para avaliar 400 URLs. Estas URLs representam as 50 que mais foram compartilhadas em cada cluster (pró e anti hidroxicloroquina) de cada rede (páginas e grupos). Esses links foram analisados e classificados (1) de acordo com o veículo de origem (hiperpartidários, jornalísticos, institucionais ou links de mídia social – que apontam para outro canal) e (2) de acordo com o conteúdo (se continha ou não desinformação).

Resultados

Nossos resultados mostram que as URLs sobre a hidroxicloroquina (HCQ) circularam de forma polarizada tanto nas páginas quanto nos grupos. Ou seja, nas duas redes, temos comunidades distintas, uma pró-HCQ (azul) e outra anti-HCQ (verde). Estas estruturas de redes indicam que o conteúdo que circula em um dos clusters não circula no outro.

Também descobrimos que o contexto polarizado é assimétrico, ou seja, que os comportamentos no consumo de informações dos grupos são diferentes. Enquanto o cluster anti-HCQ deu preferência a veículos de imprensa e não circulou desinformação, o inverso ocorre no pró-HCQ. A maior parte da circulação de URLs neste cluster foi de desinformação, frequentemente apoiada em mídias hiperpartidárias – veículos que produzem conteúdo que dá preferência a uma narrativa política, por isso frequentemente distorcem fatos e produzem desinformação. A tabela abaixo detalha a análise das URLs que mais circularam em cada contexto.

Tabela 1. URLs mais compartilhadas

Rede Rede das páginas Rede dos Grupos
Cluster Anti-HCQ Pró-HCQ Anti-HCQ Pró-HCQ
Freq. Des. Freq. Des. Freq. Des. Freq. Des.
Imprensa 48 0 16 1 38 0 13 0
Hiperpartidário 1 0 28 22 11 0 32 25
Mídia social 1 0 1 1 0 0 2 2
Institucional 0 0 5 1 1 0 3 1
Total 50 0 50 25 50 0 50 28

Identificamos ainda dinâmicas distintas em páginas e grupos públicos. Como detalhado acima, os grupos compartilham mais URLs de mídias hiperpartidárias e mais desinformação favorável ao uso da hidroxicloroquina. Além disso, descobrimos também que a média de compartilhamento de URLs nos grupos foi mais alta nos dados analisados. Ou seja, os grupos mais frequentemente compartilhavam conteúdo sobre o tema. Em parte, isso se deve ao tipo de espaço, já que as páginas são gerenciadas por um ou poucos usuários, enquanto nos grupos qualquer participante pode publicar. Isto tem a ver, portanto, com as affordances do Facebook, ou seja, com a relação entre as ferramentas técnicas da plataforma e as ações dos usuários a partir delas.

A diferença nas dinâmicas de páginas e grupos tem impacto no número total de compartilhamento de desinformação, especialmente porque o cluster pró-HCQ foi também muito mais ativo do que o cluster anti-HCQ na rede de grupos. Na comparação entre estes dois clusters na rede de grupos, o conteúdo desinformativo do pró-HCQ foi compartilhado com maior frequência do que todas as 50 URLs mais compartilhadas naquele anti-HCQ. Na comparação entre páginas e grupos, o total de desinformação compartilhado no cluster pró-HCQ na rede de grupos é quase oito vezes maior em comparação com a desinformação compartilhada pelo mesmo cluster na rede de páginas. A tabela abaixo detalha os números de compartilhamento das URLs mais compartilhadas em cada contexto.

Tabela 2. Frequência do compartilhamento de URLs

Rede Rede das páginas Rede dos Grupos
Cluster Anti-HCQ Pró-HCQ Anti-HCQ Pró-HCQ
Desinformação 0 316 0 2509
Outro 613 299 2092 2416
Total 613 615 2092 4925

As altas frequências no compartilhamento de desinformação nos grupos possuem impacto para as estratégias de combate ao conteúdo problemático no Facebook. Ainda que a plataforma tenha iniciativas de marcar publicações de páginas como conteúdo desinformativo ou mesmo remover o conteúdo, como fez com declaração falsa de Jair Bolsonaro sobre a hidroxicloroquina, os nossos resultados apontam para a necessidade de pensar em estratégias para monitoramento de grupos públicos. Como vimos, a maior frequência de conteúdo desinformativo foi compartilhado nestes espaços.

Relevância

O acesso a informações verificadas é importante no combate ao Covid-19. O excesso de informações sobre a pandemia, a polarização nos discursos e o espalhamento de desinformação fazem parte do que a Organização Mundial da Saúde chama de “infodemia”. Assim, o nosso estudo contribui com a análise da circulação de conteúdo sobre a hidroxicloroquina no Facebook.

Os nossos resultados mostram polarização na circulação de informações, além de um contexto de assimetria, com o cluster pró-hidroxicloroquina compartilhamento mais desinformação. Além disso, identificamos o impacto dos grupos públicos no compartilhamento de desinformação. Este resultado está relacionado com as affordances do Facebook e indica a necessidade de estratégias específicas para combater a circulação de desinformação nestes espaços.

Autores e financiamento

Agradecemos ao CrowdTangle pelo acesso aos dados que utilizamos na nossa análise. Os autores deste artigo são Felipe Soares (UFRGS), Paula Viegas (UFRGS), Carolina Bonoto (UFRGS) e Raquel Recuero (UFPEL/UFRGS). O estudo contou com o apoio do CNPq e da FAPERGS.

Estudo do MIDIARS premiado no ENPÓS/SIIEPE

 

O nosso trabalho “O Covid-19 enquadrado como tema político pela desinformação no WhatsApp” (Felipe Soares, Raquel Recuero, Taiane Volcan, Giane Fagundes, Giéle Sodré) ficou entre os destaques da área de Ciências Sociais Aplicadas do XXII Encontro de Pós-Graduação da 6ª Semana Integrada da UFPEL. O vídeo da apresentação está disponível em nosso canal no YouTube.

 

O estudo premiado é parte das pesquisas que temos desenvolvido sobre Covid-19 e desinformação na mídia social. Neste estudo, analisamos mensagens com desinformação sobre a pandemia que circularam em grupos públicos do WhatsApp em março e abril de 2020. Os nossos resultados mostram que a desinformação enquadrou a pandemia como um tema político. Descobrimos que a desinformação sobre o Covid-19 foi utilizada principalmente como forma de combate à crise do governo Bolsonaro.

 

O trabalho que apresentamos no ENPÓS explorou as análises iniciais do nosso estudo sobre Covid-19 e desinformação no WhatsApp. Nós já ampliamos a análise em um artigo completo, que está submetido para avaliação em revista acadêmica e disponível em preprint no repositório SciELO. Nós também já publicamos aqui no blog um texto de divulgação, em que discutimos os principais resultados encontrados na nossa análise.

 

Os autores deste estudo são Felipe Soares (UFRGS), Raquel Recuero (UFPEL/UFRGS), Taiane Volcan (UFPEL), Giane Fagundes (UFPEL) e Giéle Sodré (UFPEL). O estudo contou com o apoio do CNPq e da FAPERGS. Agradecimentos especiais ao Fabricio Benevenuto e à equipe do Monitor de WhatsApp que muito gentilmente permitiram o acesso aos dados. Agradecimentos também à CAPES, CNPq e FAPERGS que de alguma forma apoiaram essa pesquisa.

Disputas discursivas e desinformação no Instagram sobre o uso da hidroxicloroquina como tratamento para o Covid-19

Principais pontos

  • Analisamos as publicações sobre a hidroxicloroquina que receberam mais interações no Instagram entre março e julho de 2020.
  • Identificamos o que entendemos por disputa discursiva, em que há dois grupos com discursos distintos que disputam a hegemonia da opinião pública: um discurso favorável ao uso da hidroxicloroquina para Covid-19 e outro, contrário
  • Enquanto o grupo anti-HCQ baseava seu discurso em conteúdo verificado, o grupo pró-HCQ reproduzia majoritariamente desinformação. Encontramos, portanto, assimetrias em uma disputa discursiva entre informação e desinformação

 

Overview

Na última semana, apresentamos nosso artigo “Disputas discursivas e desinformação no Instagram sobre o uso da hidroxicloroquina como tratamento para o Covid-19” no 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom). Neste estudo, analisamos a disputa discursiva sobre a hidroxicloroquina no Instagram. Apesar de ser uma plataforma popular no Brasil, ainda são poucos os estudos que olham para a desinformação no Instagram. Conforme dados da Reuters Institute, o Instagram é utilizado por 61% dos Brasileiros e quase metade destes utilizam para consumo de notícias e informações. Utilizamos o CrowdTangle para coletar publicações que mencionavam o medicamento entre março e julho de 2020 (n=5.124). Destas, selecionamos as 200 publicações com maior número de interações (=12.938.446, o que representa mais de 60% do total de curtidas e comentários do nosso conjunto de dados). Utilizamos a análise de conteúdo para identificar (1) se os discursos eram favoráveis ou contrários ao uso de hidroxicloroquina; (2) se produziram desinformação; e (3) que tipo de líder de opinião estava publicando a mensagem.

 

Identificamos um cenário de disputa discursiva que favorece a formação de discursos assimétricos. O grupo favorável ao uso do medicamento para Covid-19 (pró-HCQ) reproduz desinformação de forma articulada com líderes de opinião e conteúdo de fontes “alternativas”. O outro grupo, que se posiciona de forma contrária ao uso da droga (anti-HCQ), dá preferência ao discurso científico divulgando informações comprovadas sobre o tema. Assim, encontramos uma disputa discursiva entre informação e desinformação.

 

Método

A nossa análise foi realizada a partir da coleta de publicações do Instagram via CrowdTangle. Coletamos mais de 5 mil publicações, das quais selecionamos as 200 publicações que receberam mais interações. Para a análise destes dados, utilizamos a análise de conteúdo. Três analistas independentes classificaram as mensagens. Para a classificação final, utilizamos a concordância entre pelo menos dois analistas. Para todas as categorias, alcançamos bons níveis de concordância – calculados por meio de Kripendorff’s Alpha (entre 0,622 e 0,913).

 

Criamos três categorias de análise, em que buscamos identificar: (1) qual o discurso produzido em relação ao uso da hidroxicloroquina como tratamento para o Covid-19; (2) se a publicação continha desinformação; e (3) o tipo de usuário (líder de opinião) responsável pela publicação.

 

Para identificar tipo de discurso, dividimos as publicações em favoráveis, contrárias ou sem identificação clara. Neste último caso as mensagens apenas mencionavam a hidroxicloroquina como parte do contexto, mas não discutiam a eficácia da hidroxicloroquina. As mensagens favoráveis ao uso, reproduziam um discurso que apontava a hidroxicloroquina como tratamento eficaz para o Covid-19. Já as publicações contrárias, apontavam para estudos que atestavam a ineficácia da droga como tratamento. Para identificar a presença de desinformação, consideramos como desinformativas as publicações que incluíam informações distorcidas, manipuladas ou completamente falsas com a função de enganar.

 

Para identificar os líderes de opinião, criamos oito categorias após uma análise inicial dos dados. São elas: (1) políticos (exemplo: Jair Bolsonaro); (2) veículos de imprensa (exemplo: Estadão); (3) veículos hiperpartidários (exemplo: Conexão Política); (4) páginas de política (exemplos: Caio Coppola e Quebrando o Tabu); (5) páginas de saúde (exemplo: Medicina É); (6) jornalistas (exemplo: Luís Ernesto Lacombe); (7) páginas institucionais (exemplo: Ministério da Saúde); e (8) outros, para páginas que não se enquadravam em nenhuma das categorias acima (exemplo: Central da Fama).

 

Resultados

Nossos resultados mostram a existência de discursos assimétricos, já que o grupo favorável a hidroxicloroquina frequentemente reproduziu desinformação, enquanto o discurso contrário ao uso do medicamento para Covid-19 foi baseado em informações verificadas.

 

Encontramos uma maioria de publicações que produziam discurso favorável ao uso da hidroxicloroquina como “cura” ou profilaxia para Covid-19 (90), seguida pelas que produziam produziram discurso contrário (76) e uma minoria que não apresentava posição clara (34). Entre as mensagens pró-HCQ, quase três quartos reproduziam desinformação, o que indica a associação do discurso favorável ao medicamento a produção de conteúdo falso. Os gráficos abaixo detalham estes resultados.

 

Figura 1. Publicações pró-hidroxicloroquina

 

Alguns resultados são importantes para a nossa pesquisa. O primeiro é o enquadramento político da discussão. A apropriação da hidroxicloroquina como tema político reflete nos atores centrais da disputa discursiva. Políticos são os atores com a maior parte de interações no grupo que reproduz discurso favorável ao medicamento, enquanto páginas políticas e veículos hiperpartidários são os atores com o maior número de interações entre os que reproduzem discurso contrário ao uso da droga.

 

Os políticos são também os principais disseminadores de desinformação. Descobrimos que os políticos não só são aqueles que publicam mais mensagens desinformativas sobre o tema, mas também os que alcançam maior número de interações em suas publicações. A média de interações nas publicações de políticos que reproduzem desinformação é de quase 100 mil, o que representa a maior média entre todos os diferentes tipos de líderes de opinião que identificamos. Estes dados indicam o impacto dos políticos na disseminação de desinformação.

 

Em particular, vemos uma influência central do discurso de Jair Bolsonaro, que publicou oito mensagens sobre o tema (entre as 200 analisadas), todas favoráveis ao uso do medicamento. Destas oito mensagens, apenas uma não contém desinformação. Suas mensagens geraram 3.229.344, das quais 2.800.248 de interações são oriundas de publicações que produzem um discurso desinformativo. O discurso desinformativo também foi reproduzido em uma publicação do Ministério da Saúde, o que mostra que a própria comunicação governamental reproduz um discurso favorável ao uso do medicamento e que fortalece a desinformação.

 

De forma geral, os nossos resultados apontam para assimetrias nos discursos na disputa sobre a hidroxicloroquina. Enquanto o discurso anti-HCQ é baseado em informações verificadas, o discurso pró-HCQ majoritariamente reproduz desinformação. Além disso, identificamos como o tema foi apropriado pelo discurso político e são estes atores os principais disseminadores de informações falsas.

 

Relevância

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem destacado a relevância de acesso a informações confiáveis sobre a pandemia do Covid-19. Temos visto nas nossas pesquisas que a desinformação sobre a doença tem gerado impacto na mídia social no Brasil. Este contexto dificulta a ação coletiva, já que há excesso de informações, polarização nos discursos e mesmo circulação de desinformação.

 

Os nossos resultados mostram um contexto do que a OMS chama de “infodemia, já que encontramos uma disputa discursiva entre grupos com posições opostas e na qual o grupo pró-HCQ reproduzia desinformação. Além disso, identificamos um papel central dos políticos e outros atores políticos no espalhamento da desinformação. Além de enquadrarem o tema como disputa política, a presença destes atores legitima um discurso desinformativo. Este resultado ajuda a explicar como 18% dos brasileiros acreditam que hidroxicloroquina é a cura do Covid-19.

 

Autores e financiamento

Agradecemos ao CrowdTangle pelo acesso aos dados que utilizamos na nossa análise. Os autores deste artigo são Felipe Soares (UFRGS), Carolina Bonoto (UFRGS), Paula Viegas (UFRGS), Igor Salgueiro (UFPEL) e Raquel Recuero (UFPEL/UFRGS). O estudo contou com o apoio da CAPES, do CNPq e da FAPERGS.

Alguns Resultados- Pesquisa Desinformação e COVID-19 na Mídia Social

(por Raquel Recuero)

O MIDIARS já tem três preprints (um deles já publicado), e mais uma sequencia de artigos que estão submetidos focando a pesquisa sobre desinformação e covid-19 na mídia social. Alguns dos principais resultados:

  • A desinformação relacionada à pandemia é quase na sua totalidade enquadrada como uma questão política. Trata-se de ter um “lado” político e, por isso, adotar determinadas ações que interferem na saúde pública. Exemplo: Usar ou não usar máscara é relacionado a adotar ou não a uma filiação política. Se você defende A, não pode usar, se defende B, usa. (Recuero & Soares, 2020)  Do mesmo modo, grupos políticos e autoridade políticas têm um papel importantíssimo na legitimação e na circulação desse tipo de conteúdo. Também encontramos desinformação relacionada à pandemia alinhada com crises políticas no Brasil, oferecendo “histórias alternativas” sobre a crise ou atingindo diretamente adversários políticos (Resultados obtidos no Twitter, Facebook e WhatsApp em outros artigos ainda na espera para publicação.)
  • A desinformação circula de forma mais forte nos grupos de extrema direita. Esses grupos também terminam “filtrando” a circulação de conteúdo que possa desmentir a desinformação. Portanto, onde circula a desinformação, não circula o fact-checking e a mídia tradicional (Recuero, Soares & Zago, 2020Soares, Viegas, Bonoto e Recuero, 2020). Há uma forte relação entre polarização política e circulação da desinformação, portanto.
  • Quanto mais fechada a rede, mais difícil é a circulação de conteúdo que possa combater a desinformação. Particularmente, em canais onde há mais privacidade na circulação de conteúdo (WhatsApp e grupos no Facebook, por exemplo), circula mais conteúdo inteiramente fabricado, extremizado e teorias da conspiração. (Soares, Viegas, Bonoto e Recuero, 2020) Em lugares mais públicos, como o Twitter e as páginas do Facebook, circula menos conteúdo completamente falso e mais conteúdo enganoso (que tem verdades parciais).
  • Notamos a presença de campanhas desinformativas, que ocorrem em determinados momentos, de forma coordenada, em vários canais, de modo a atingir algum ponto considerado relevante. Por exemplo, campanhas contra a vacinação, campanhas contra adversários políticos e instituições (particularmente STF e OMS), e etc. Essas campanhas são acionadas sempre que há uma crise política. Não são baseadas apenas no espalhamento de links únicos desinformativos, mas, igualmente, em outras estratégias, como “opiniões” de autoridades que legitimam aquela ideia, links variados (como se vários “meios” estivessem dando a mesma informação ao mesmo tempo), imagens e etc.
  • Há campanhas para desacreditar a mídia tradicional e fortalecer veículos hiperpartidários (geralmente anônimos) como as “únicas fontes de informação” confiáveis. A campanha desinformativa política também “adota” pautas que são associadas a um mesmo sistema ideológico. Nesse sentido, o assunto da pandemia é sempre tratado como uma questão política e não como uma questão de saúde pública. A pauta da saúde é esvaziada e substituída por teorias da conspiração a respeito do vírus, questionamento de sua existência, discussão do vírus como um elemento de “controle” do estado, pautas antivacinas,  pautas antimedicamentos, pautas que focam a auto medicação como uma ação de liberdade individual, etc.
  • São usadas variadas estratégias de legitimação discursivas, notadamente autorização (pelos especialistas – “sou médico”, políticos – “autorizo”) e narrativização da pauta (como a criação de historietas que acompanham a desinformação, por exemplo: “Nos anos X e Y tivemos outras pandemias e as mesmas desapareceram naturalmente, como comprova a História,  sem a necessidade de vacinas”, particularmente enquadrando questões morais como o bem x o mal, nós x o inimigo), bem como avaliação moral (pessoas “do bem” agem do modo Y). Estratégias específicas para a circulação também são adotadas (como a criação de um senso de urgência no conteúdo – “urgente”, “espalhe o máximo possível”, mobilização através de call to actions e hashtags, etc.).

 

Por conta desses resultados, vemos que é preciso uma ação muito maior por parte de governos, instituições e outros especialistas contra a desinformação. Não basta apenas fact- checking ou material publicado na mídia tradicional (embora essas ações sejam importantes para evitar novas radicalizações) . Há uma audiência crescente para as teorias conspiratórias e uma radicalização da população em torno dessas pautas. É preciso agir de modo coordenado, com um discurso único, utilizando estratégias semelhantes àquelas usadas pela campanhas desinformativas, sob pena de não atingir aqueles mais radicalizados. Ações das próprias plataformas de mídia social no sentido de evitar a circulação de conteúdo desinformativo e apresentar a checagem junto com a desinformação também são fundamentais.

Partes desses resultados estão submetidos e/ou publicados. Estamos concluindo um estudo sobre Instagram e um primeiro estudo sobre vacinas. Em breve vamos publicar mais conteúdo específico dos artigos que estão publicados ou em pre-prints.

Monitor das Eleições: primeiro turno em Porto Alegre

(por Felipe Soares)

Como parte do Monitor das Eleições, do MIDIARS, temos acompanhado as campanhas digitais e realizado o monitoramento de suas páginas dos candidatos no Facebook e Instagram. Ontem, publicamos uma análise sobre os dados de mídias sociais no primeiro turno em Pelotas. Hoje, é a vez de Porto Alegre.

Na capital gaúcha, o segundo turno será entre Sebastião Melo (MDB), que recebeu 31,01% dos votos, e Manuela D’Ávila (PC do B), que alcançou 29%. Utilizamos o CrowdTangle para monitorar as páginas dos candidatos no Facebook e no Instagram. Nas mídias sociais, Manuela D’Ávila foi líder absoluta. Com quase 10 milhões de interações em suas publicações, Manuela foi responsável por mais de 77% do total de interações entre todos os candidatos. Quem também recebeu muitas interações nas mídias sociais, foi Fernanda Melchionna (PSOL), com um total de quase 1,4 milhão – mais de 11% do total de interações entre os candidatos. Apesar dos bons números nas mídias sociais, ela recebeu 4,34% dos votos e terminou a disputa em quinto lugar.

Sebastião Melo, candidato mais votado no primeiro turno, foi apenas o sexto em número de interações nas mídias sociais (o quinto, desconsiderando José Furtunati, do PTB, que retirou a candidatura na véspera do pleito). Melo recebeu aproximadamente 150 mil interações em suas publicações no Facebook e Instagram. O gráfico abaixo detalha os números de interações dos candidatos.

Para analisar como as interações nas mídias sociais se relacionam com a votação nas urnas, foi realizado um teste de correlação comparando o total de interações e o total de votos dos candidatos. O coeficiente de correlação Pearson serve para analisar as correlações entre duas variáveis, ou seja, para identificar se quando uma aumenta, a outra também aumenta. O índice Pearson vai de – 1 (quando há uma correlação negativa perfeita, sempre que uma variável aumenta, a outra diminui) a 1 (quando há uma correlação positiva perfeita, sempre uma variável aumenta, a outra também aumenta), enquanto números próximos de 0 mostram independência entre as variáveis.

No geral, os testes apontaram uma correlação moderada entre interações nas mídias sociais e o resultado nas urnas. Os altos números de interações nas mídias sociais de Manuela e Fernanda em comparação com os outros candidatos podem ter afetado os resultados. No Instagram, a correlação foi de 0,560. No Facebook, 0,584. Já considerando o total de interações nas duas plataformas, a correlação foi de 0,570. Estes resultados mostram que há uma tendência de que candidatos com mais interações nas mídias sociais também recebam mais votos, mas que essa tendência nem sempre se concretiza. Por exemplo, Fernanda Melchionna foi a segunda com mais interações nas mídias sociais e ficou em quinto no pleito eleitoral, enquanto Sebastião Melo foi o mais votado, mesmo aparecendo apenas em quinto no número de interações nas mídias sociais. O gráfico abaixo mostra os percentuais de interações totais e de votos, ilustrando a relação entre as duas variáveis.

Também analisamos que tipo de publicação funcionou melhor para os candidatos que vão disputar o segundo turno. A maioria dos posts dos candidatos no Facebook foram fotos e vídeos nativos. Manuela postou 455 fotos e 239 vídeos nativos. Ela ainda publicou 27 links, realizou sete lives, publicou cinco vídeos do YouTube e compartilhou dois status (somente texto). Melo publicou 217 fotos e 139 vídeos nativos. Ele também publicou três vídeos do Youtube, realizou duas lives e publicou dois links. Manuela teve uma média de 5090 interações em suas 735 publicações. Melo teve média de aproximadamente 326 interações em suas 363 publicações.

As fotos foram o tipo de publicação com maior média para Manuela, com aproximadamente 6557 interações por foto. Em seguida, foram os links, com aproximadamente 5756 interações por publicação. Com médias mais baixas, aparecem os status (2696), os vídeos (2442), as lives (1683) e os vídeos do YouTube (272).

Para Melo, a maior média ocorreu nas lives, com aproximadamente 903 interações por live. Na sequência, foram as fotos, com aproximadamente 408 interações, e os links, com 378. Vídeos nativos (194) e do YouTube (106) foram as médias mais baixas. O gráfico abaixo detalha as médias por tipo de publicação no Facebook.

No Instagram, Manuela alcançou uma média de aproximadamente 9118 interações por publicação (em 697 publicações) e Melo, de 150 interações por publicação (em 256 publicações). Os candidatos fizeram quatro tipos de publicações no Instagram: fotos, quando apenas uma foto era publicada; álbuns, com um conjunto de fotos; vídeos, com vídeos curtos publicados na linha do tempo; e IGTV, ferramenta do Instagram que permite a publicação de vídeos mais longos em espaço específico.

Foram as fotos (474 publicações) que geraram mais interações para Manuela no Instagram, com uma média de aproximadamente 10041 interações por foto. Na sequência, aparecem os vídeos (108 publicações), com uma média de aproximadamente 7418 interações. Em seguida, são as publicações no IGTV (100) com média de quase 7038. Por fim, os álbuns (15) com aproximadamente 6060 interações de média.

Para Melo, ao contrário, os álbuns (39 publicações) geraram maior média de interações, com 241 por publicação. Eles foram seguidos pelas fotos (111) com média de 183 interações. As publicações de IGTV (44) alcançaram média de quase 90 interações e os vídeos (62), de aproximadamente 77 interações.  O gráfico abaixo detalha as comparações entre os candidatos no Instagram.

Quer saber mais sobre as propostas de Melo e Manuela e como vai a campanha durante o segundo turno? Temos um live display com monitoramento em tempo real das páginas dos candidatos no Facebook e Instagram. Acompanha lá!