
A reprodução da desilusão docente como herança
Já reparou como, muitas vezes, as conversas entre professoras em exercício e estudantes de Pedagogia ou das licenciaturas acabam imersas no desencanto?
É como se a trajetória na docência nos desse o direito — ou até o dever — de alertar quem está chegando:
– “Desiste enquanto dá tempo.”
– “Ainda dá pra trocar de curso.”
– “Você vai ver como é ruim.”
Como se a dor de ser professora fosse não apenas inevitável, mas um legado a ser transmitido.
A frustração se torna legado. O cansaço vira pedagogia. E a esperança dos que estão chegando é tratada como ingenuidade a ser corrigida.
Sim, a crítica à profissão é legítima e necessária. Mas ela não pode perder seu horizonte ético. Quando, em nome da “realidade”, passamos a desautorizar os sonhos, nos tornamos aquilo que a própria crítica deveria combater. Será que, ao invés de denunciar o que precisa mudar, estamos normalizando o sofrimento como destino?
Quando dizemos que “ninguém mais quer ser professor”, ou que “os alunos das licenciaturas estão desmotivados”, muitas vezes estamos falando da nossa própria frustração, estamos sendo um espelho da nossa própria exaustão. E, sem perceber, a projetamos sobre quem ainda está tentando sonhar.
Isso também é uma forma de violência simbólica, que se fortalece na banalização do sofrimento e na adaptação àquilo que nos fere. É a reprodução da desilusão docente como herança, um ciclo que precisa ser nomeado e rompido.
É possível falar das dores sem desencorajar.
É possível acolher o cansaço sem minar a esperança.
É possível ser honesta sem ser fatalista.
Porque, no fim das contas, não se trata de proteger os outros da docência, mas de proteger a docência de perder o que ela tem de mais vital: a capacidade de transformar, de tocar vidas e de abrir mundos. Se a gente não cuida de quem está chegando, quem vai cuidar do futuro da nossa profissão?


