Um novo tempo e uma velha discussão: o cuidado na Educação Infantil na era da superficialidade

Um novo tempo e uma velha discussão: o cuidado na Educação Infantil na era da superficialidade

Falar de cuidado na primeira infância, afirmar que cuidar e educar são dimensões indissociáveis, trazer o cuidado como um gesto pedagógico e o educar como afeto, não é novo. Inclusive, com certa frequência recuperamos esse discurso sob o risco de ele cair no esquecimento, soterrado pela rotina, pela lógica da produtividade e pela pressa.

Como consequência, estamos cansadas dessa discussão e achamos que todos compartilham do mesmo entendimento ético sobre o cuidado. Deixamos de observar que, atualmente, estamos em um tempo de relações cada vez mais frágeis e performáticas, medidas por caracteres, curtidas, ou pela duração de um story de 15 segundos.

As linguagens do amor parecem ter sido transformadas na era digital. Os grandes gestos são apresentados em forma de reels, socializados em stories e compartilhados por meio de QR Codes. O cuidado passou a ter uma estética e perdeu, aos poucos, sua ética.

Na docência da primeira infância, começamos a normalizar um “novo cuidado”: higienizado, bonitinho, rápido e instagramável. Um cuidado para ser visto, para ser postado, para ser elogiado. Mas o cuidado verdadeiro é mais silencioso. Ele exige presença real, tempo partilhado, escuta atenta. Ele não cabe nos stories, não termina com um filtro.

Como isso afeta as crianças? Como afeta nosso trabalho enquanto professoras?

O cuidado virou performance. E a performance virou critério de validação. Mas o cuidado autêntico, aquele que é, de fato, pedagógico, não busca plateia. Ele se constrói no cotidiano, nas conversas sem pressa, nos olhares partilhados, nos gestos mínimos que nunca viram conteúdo viral.

Reafirmar o cuidado como ação pedagógica na Educação Infantil é resistir. É resistir à lógica da aparência, da eficiência, da romantização do afeto. É insistir no essencial: relações autênticas, profundas e comprometidas com as infâncias em sua dignidade e potência.

E você, como tem pensado e vivido o cuidado no seu fazer docente?