Delcy Rodríguez e o seu alinhamento pragmático para com os EUA por João Diego Costa

A Venezuela tem passado, em 2026, por um período de profundas transformações políticas, econômicas e diplomáticas. A crise iniciada com a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos e a ascensão de Delcy Rodríguez à presidência modificaram significativamente o cenário político venezuelano.

Paralelamente, o país continua enfrentando graves problemas estruturais, especialmente no setor energético. Os constantes apagões afetam a população, o comércio e a própria produção petrolífera, demonstrando que a Venezuela enfrenta não apenas uma crise política, mas também limitações estruturais que dificultam sua recuperação econômica.

Nesse cenário, destaca-se a aproximação entre Delcy Rodríguez e o governo de Donald Trump. O encontro entre os dois líderes representa uma mudança significativa na política externa venezuelana, considerando o histórico de confrontação entre o chavismo e os EUA. Entretanto, essa aproximação não deve ser interpretada necessariamente como uma mudança ideológica do governo venezuelano, mas como uma estratégia pragmática diante das dificuldades econômicas e políticas enfrentadas pelo país. A Venezuela necessita de investimentos, acesso aos mercados internacionais e recuperação de sua capacidade produtiva, enquanto os EUA possuem interesses estratégicos relacionados ao petróleo e à reorganização política venezuelana.

O discurso de Delcy Rodríguez na Assembleia Geral da ONU reforça essa mudança de postura. Ao evitar uma retórica de confronto direto e enfatizar a necessidade de diálogo e reconstrução, Rodríguez demonstrou uma tentativa de reduzir as tensões com Washington e ampliar novamente a inserção internacional da Venezuela. A aproximação com instituições financeiras internacionais e o interesse na exploração petrolífera por empresas estrangeiras também demonstram que a reconstrução econômica passou a ocupar posição central na estratégia do novo governo. Dessa forma, observa-se uma substituição parcial da diplomacia de confrontação por uma diplomacia baseada na negociação e no pragmatismo.

Contudo, essa estratégia produz contradições dentro do próprio campo chavista. A aproximação com Trump e a necessidade de negociar com Washington podem gerar frustrações entre setores que historicamente defendem uma postura anti-imperialista. Ao mesmo tempo, a realidade econômica venezuelana limita as possibilidades de manutenção de uma política externa baseada exclusivamente no confronto. Dessa maneira, o governo de Delcy Rodríguez parece buscar um equilíbrio entre a preservação do projeto político chavista e a necessidade de estabelecer relações pragmáticas com potências e instituições internacionais capazes de contribuir para a recuperação econômica do país.

A principal característica observada da Venezuela contemporânea é a tensão entre autonomia e sobrevivência. O governo venezuelano precisa negociar com os Estados Unidos para recuperar sua economia, mas uma dependência excessiva de Washington pode comprometer justamente a autonomia que o chavismo historicamente buscou defender. Assim, o futuro da Venezuela dependerá da capacidade de Delcy Rodríguez de equilibrar a preservação de seu projeto político, a reconstrução da infraestrutura e da economia e a reinserção internacional do país. Mais do que uma ruptura definitiva com o chavismo, a atual política venezuelana pode ser compreendida como uma adaptação pragmática do projeto bolivariano às novas relações de poder do sistema internacional.

Referências:

BRASIL DE FATO. ‘Embora gere frustrações, é parte da estratégia’: analista avalia discurso de Delcy Rodríguez na ONU. 26 de setembro de 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/09/26/embora-gere-frustracoes-e-parte-da-estrategia-analista-avalia-discurso-de-delcy-rodriguez-na-onu/. Acesso em: 8 out. 2026.

EL PAÍS. La agonía cotidiana de vivir a oscuras en Venezuela. 20 agosto 2026. Disponível em: https://elpais.com/america/2026-08-20/la-agonia-cotidiana-de-vivir-a-oscuras-en-venezuela.html. Acesso em: 8 out. 2026.

*João Diego Costa é pesquisador do LabGRIMA/GeoMercosul em América Latina.

Comments

comments

Translate »