O anúncio do lançamento das negociações de um Acordo de Parceria Econômica (APE) entre os Estados Partes do MERCOSUL e o Governo do Japão ocorreu durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do MERCOSUL e Estados Associados, realizada em Assunção (Paraguai) durante os dias 29 e 30 de junho de 2026.
Ainda que o anúncio possa, à primeira vista, sugerir um impulso exclusivo do atual contexto geopolítico, destaca-se que suas tratativas fundamentam-se em décadas de diálogos e diagnósticos construídos por grupos domésticos, a exemplo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), no Brasil, e Keidanren, no Japão; Conselho Empresarial Brasil-Japão (Cebraj); Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), do Brasil; União Central das Cooperativas Agrícolas (JA-Zenchu) e a Associação Japonesa das Indústrias de Alimentos (JFIA).
A aproximação do bloco com o país asiático sobre um acordo econômico constitui um processo gradual que remonta ao ano de 1996, em reunião na qual se destacaram os interesses recíprocos e históricas relações de cooperação e amizade (Arnaud, 1997). Apenas na XLI reunião de Cúpula do Conselho do Mercado Comum em 2011, seria proposto o início dos diálogos em torno da cooperação no campo do comércio e investimentos (MOFA, 2011). Em 2012 foi estabelecido, em Montevidéu, o Diálogo para o Fortalecimento das Relações Econômicas entre o Japão e o Mercosul (Pereira, 2017) e desde então, integra a agenda de relacionamento externo do bloco. Os principais avanços institucionais, foram o anúncio da formalização de um acordo quadro para parceria estratégica, em dezembro de 2025, durante a 66ª Cúpula de Chefes de Estado do MERCOSUL (MOFA, 2025) e, por fim, o anúncio formal do início das negociações em junho de 2026 (Mercosul, 2026).
O Mercosul consolidou-se como o principal processo de integração regional da América do Sul, combinando objetivos econômicos, comerciais e políticos por meio de uma densa estrutura institucional, personalidade jurídica e órgãos decisórios intergovernamentais. Estabelecido sob influência do regionalismo aberto típico dos anos 1990, caracteriza-se pelo incrementalismo. A partir dos anos 2000, passou a incorporar desenvolvimento produtivo, inclusão social, autonomia externa, infraestrutura e energia, características associadas ao regionalismo pós-liberal. Suas negociações externas baseiam-se na centralização das relações comerciais do bloco com terceiros, a partir da decisão do Conselho do Mercado Comum (CMC 32/00), que estabeleceu o compromisso de negociar, conjuntamente acordos de natureza comercial nos quais se outorguem preferências tarifárias (Carvalho; Salles, 2023).
A estratégia do Japão com relação aos Acordos de Parceria Econômica (APEs) passou por uma transição gradual, de uma preferência pelo multilateralismo e cautela com os arranjos de livre comércio, para um uso ativo de APEs como instrumentos de acesso a mercado, proteção de cadeias produtivas e posicionamento geopolítico (Igata; Glosserman, 2021;Takeuchi; McNeme, 2023; Yamaguchi, 2025; WTO, 2026). Desde a década de 2010, a reconfiguração das estratégias comerciais japonesas orienta-se pela diversificação de mercados (com destaque para os megablocos como o Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífico (CPTPP) e Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) (Schimanski, 2021), que atuam simultaneamente como instrumentos de comércio, proteção de cadeias produtivas, influência regional e defesa da ordem econômica baseada em regras.
Entre os membros do Mercosul, o Brasil é o principal parceiro comercial do Japão com cerca de US$ 9,78 bi em importações e US$ 4,64 bi em exportações japonesas em 2024, refletindo intenso intercâmbio de bens primários e industriais. A Argentina apresentou comércio bilateral de aproximadamente US$ 1,25 bilhão, concentrado em manufaturados japoneses e alimentos argentinos. Uruguai, Paraguai e Bolívia registraram fluxos inferiores a US$ 0,1 a 0,2 bilhão,evidenciando reduzida participação no comércio com o Japão (Trading Economics, 2025). O Japão permanece entre as principais fontes globais de investimento estrangeiro, com estoque de investimento externo próximo de US$ 2 trilhões (WTO, 2026). Na América do Sul, o Brasil é o principal destino dos investimentos japoneses, mantendo fluxos relativamente estáveis, enquanto os demais membros do Mercosul recebem volumes menos expressivos (Jetro, s.d.).
As instituições representativas do setor privado do Brasil e do Japão assumiram protagonismo em suas interações, a exemplo CNI, no Brasil, e Keidanren, no Japão (Uehara, 2019). Ambas as instituições possuem diálogos formais desde o ano de 1974, junto do Cebraj, com registros de 26 edições de eventos, evidenciando a sua regularidade (Keidanren, 2025). Esse espaço permitiu um alinhamento das preferências domésticas evidenciado pela publicação de documentos conjuntos a exemplo: Roadmap for an Economic Partnership Agreement, elaborado em 2015; e Roadmap for an Economic Partnership Agreement Between Japan and Mercosur, de 2018. Enquanto no setor industrial os diálogos sinalizam maior alinhamento, no setor agrícola, a CNA do Brasil apresenta interesses mais ofensivos (a exemplo da publicação Barreiras Comerciais: Os Picos Tarifários Japoneses e o Agronegócio Brasileiro, de 2016), e as instituições do Japão manifestam interesses defensivos.
O contexto geopolítico contemporâneo impulsiona a integração regional ao reconhecer os acordos como instrumentos de segurança e poder, consolidando o comércio, investimentos, infraestrutura e políticas regulatórias como ferramentas de influência estratégica (Danzman; Meunier, 2025). A rivalidade entre grandes potências, a fragmentação da economia global, os choques em cadeias de valor e a busca por segurança e autonomia estratégica contribuem para a premissa de que os interesses estruturais explicam o início formal das negociações, embora não representem sua única explicação.
Referências
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Sobre as autoras:
Silvana Schimanski, Doutora em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UNB). Professora no Curso de Bacharelado em Relações Internacionais e no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Rafaella Gonçalves Santos, Mestranda em Ciência Política e Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
