As recentes declarações do presidente norte-americano Donald Trump, proferidas de forma sistemática ao longo do primeiro semestre de 2026 com o intuito de influenciar os pleitos eleitorais na América Latina, representam uma inflexão intervencionista explícita na diplomacia hemisférica.
Sob a ótica das Relações Internacionais, essas manifestações não são eventos retóricos isolados, mas integram uma estratégia deliberada de Washington para moldar o ambiente político regional a seu favor (BBC, 2026). Ao expressar preferências abertas por candidatos conservadores, Trump busca não apenas exportar o seu modelo de populismo de direita, mas reverter a influência de governos de centro e esquerda na região, utilizando a pressão eleitoral como instrumento primordial de projeção de poder hegemônico.
A natureza desses apoios revela uma tática de polarização transnacional. Trump tem chancelado publicamente lideranças e candidatos que prometem alinhamento irrestrito à sua agenda de segurança, controle imigratório e economia desregulamentada. Esse endosso externo atua como uma poderosa ferramenta de legitimação para setores da direita latino-americana, que mobilizam a proximidade com a Casa Branca como capital político doméstico. O objetivo central dessa ingerência é forjar um bloco hemisférico ideologicamente homogêneo, disposto a atuar como um cordão sanitário para isolar regimes antagônicos a Washington e frear o avanço dos investimentos de potências extracontinentais, como a China.
O cenário eleitoral na Colômbia ilustra os primeiros reflexos dessa ofensiva. Em junho de 2026, o reconhecimento da derrota nas urnas pelo candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro (G1, 2026) marca um revés significativo para o progressismo andino e uma vitória tática para os interesses conservadores. A ascensão de uma liderança de direita em Bogotá tem o potencial de devolver à Colômbia o status de aliado militar preferencial dos Estados Unidos na região, reativando a tradicional cooperação securitária que incomodava a base petrista e alinhando o país perfeitamente aos anseios de contenção desenhados pela administração Trump.
No Peru, a instabilidade institucional endêmica deságua em uma disputa eleitoral altamente fraturada e tensionada. O acirrado cenário, onde “poucos votos separam Fujimori e Sanchez” (CNN BRASIL, 2026), reflete uma polarização estrutural que Washington observa com profundo interesse. Para a Casa Branca, o apoio ao fujimorismo ou a vertentes da direita peruana significa apostar na restauração de uma ordem econômica pró-mercado e no esvaziamento de retóricas nacionalistas. A vitória da direita em Lima garantiria aos EUA a fidelidade de um país crucial no flanco da Bacia do Pacífico, essencial para a logística de minerais estratégicos.
O Chile, por sua vez, revive em 2026 a intensa polarização estrutural observada em pleitos anteriores, reeditando embates históricos entre o modelo neoliberal e o progressismo (EL PAÍS, 2021). O desgaste natural da atual administração de centro-esquerda abre caminho para o fortalecimento da direita, encabeçada por figuras que mimetizam a cartilha de segurança e costumes do trumpismo. Uma eventual vitória conservadora em Santiago não apenas desarticularia o atual projeto progressista, mas reafirmaria o Chile como um bastião de alinhamento irrestrito aos interesses geoeconômicos dos Estados Unidos no Cone Sul.
O epicentro dessa estratégia de influência hemisférica, contudo, encontra-se no Brasil. Como principal economia e peso diplomático da região, as eleições brasileiras de 2026 são vistas por Washington como a “joia da coroa”. A “intervenção dos EUA nas eleições brasileiras”, que se torna “cada vez mais evidente” (THE CONVERSATION, 2026), manifesta-se através de pressões indiretas, retórica hostil contra as instituições vigentes e apoio tácito ou explícito a plataformas conservadoras de oposição. Para Trump, fomentar o retorno da direita ao poder no Brasil é vital para desarticular alianças autônomas como os BRICS e enfraquecer o multilateralismo que o atual governo defende.
Os objetivos estratégicos de uma América Latina movida à direita do espectro político são transparentes para a doutrina da atual administração republicana. Primeiramente, assegura-se o alinhamento automático em foros multilaterais (como OEA e ONU). Em segundo lugar, facilita-se a imposição de políticas agressivas de externalização de fronteiras, forçando os países latino-americanos a atuarem como barreiras punitivas contra o fluxo migratório em direção ao Norte. Por fim, garante-se um ambiente favorável à exploração de recursos por empresas americanas em condições de vantagem frente à concorrência asiática.
Em suma, as declarações e ingerências de Donald Trump nas eleições latino-americanas transcendem a mera diplomacia declaratória. Elas representam uma ofensiva coordenada para reconfigurar a arquitetura política do continente, cujos sintomas já são visíveis na guinada colombiana (G1, 2026) e nas disputas fragmentadas do Peru (CNN BRASIL, 2026). O Brasil, principal alvo das pressões externas (THE CONVERSATION, 2026), enfrenta o desafio iminente de blindar sua soberania eleitoral. A América Latina encontra-se em uma encruzilhada sistêmica, onde suas dinâmicas democráticas internas são brutalmente tensionadas pelos imperativos do projeto de poder de Washington.
Referências
BBC. Os indícios de interferência política dos EUA na América Latina. Londres, 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/clyel89ld9zo. Acesso em: 11 jun. 2026.
CNN BRASIL. Eleições no Peru: poucos votos separam Fujimori e Sanchez. São Paulo, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/eleicoes-no-peru-poucos-votos-separam-fujimori-e-sanchez/. Acesso em: 11 jun. 2026.
EL PAÍS. Eleições presidenciais no Chile: os pontos cruciais do segundo turno entre José Antonio Kast e Gabriel Boric. Madri, 13 dez. 2021. Disponível em: https://brasil.elpais.com/internacional/2021-12-13/eleicoes-presidenciais-no-chile-os-pontos-cruciais-do-segundo-turno-entre-jose-antonio-kast-e-gabriel-boric.html. Acesso em: 11 jun. 2026.
G1. Uma semana após votação, candidato apoiado por Petro reconhece resultado das eleições presidenciais na Colômbia. Rio de Janeiro, 08 jun. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/08/uma-semana-apos-votacao-candidato-apoiado-por-petro-reconhece-resultado-das-eleicoes-presidenciais-na-colombia.ghtml. Acesso em: 11 jun. 2026.
THE CONVERSATION. Intervenção dos EUA nas eleições brasileiras torna-se cada vez mais evidente. Boston, 2026. Disponível em: https://theconversation.com/intervencao-dos-eua-nas-eleicoes-brasileiras-torna-se-cada-vez-mais-evidente-284726. Acesso em: 11 jun. 2026.
*Eduardo Grecco é pesquisador do GeoMercosul.
