Após um longo período de apuração dos votos no Peru, finalmente Keiko Fujimori foi eleita a nova presidente do país andino. Em 3 de julho, o Jurado Nacional de Eleições do Peru (JNE) declarou oficialmente a vitória da candidata do partido Fuerza Popular.
Assim, inicia-se um período de transição até o dia 28 de julho, data em que Keiko assumirá oficialmente a Presidência da República. Com a ascensão do fujimorismo ao governo peruano, a direita fortalece sua presença na porção ocidental da América do Sul, deixando o Brasil relativamente isolado do ponto de vista ideológico. Ainda assim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou uma mensagem de felicitações à presidente eleita, reconhecendo o resultado do processo eleitoral e sinalizando disposição para manter as relações bilaterais.
A partir de agora, Keiko Fujimori terá de governar um país profundamente dividido entre direita e esquerda. Essa polarização ficou evidente no resultado das eleições, nas quais venceu com 50,135% dos votos válidos, obtendo uma vantagem inferior a 50 mil votos sobre seu principal adversário, Roberto Sánchez. Uma das maiores barreiras que enfrentará será o legado de seu pai, Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000. Seu governo foi marcado, simultaneamente, pela estabilização econômica e por graves violações aos direitos humanos, forte concentração de poder e repressão política. Durante a campanha, Keiko buscou resgatar a imagem de seu pai como o responsável por restabelecer a ordem em um momento de grave crise nacional, estratégia que lhe garantiu apoio de parte expressiva do eleitorado conservador. No entanto, para assegurar a governabilidade, será necessário construir alianças políticas e ampliar sua base de sustentação no Congresso.
A presidente eleita afirma que sua principal missão será recuperar a estabilidade política do Peru, país que, nos últimos dez anos, foi governado por nove presidentes em razão da sucessão de crises institucionais. Para isso, seu plano de governo concentra-se em três eixos prioritários: fortalecimento da segurança pública, combate à corrupção e redução da burocracia estatal. Entre as propostas apresentadas estão investimentos em infraestrutura tecnológica, digitalização dos serviços públicos e utilização de ferramentas de inteligência artificial para agilizar processos administrativos, reduzir custos e aumentar a eficiência da máquina pública.
O combate à corrupção e a desburocratização ocupam posição central em sua agenda. Keiko propõe fortalecer mecanismos preventivos de fiscalização por meio de sistemas digitais capazes de identificar indícios de irregularidades antes mesmo da conclusão dos processos administrativos. Paralelamente, pretende ampliar a transparência das contratações públicas mediante a criação do programa denominado Observatório Cidadão. No campo econômico, a candidata considera que o excesso de exigências administrativas representa um dos principais obstáculos ao empreendedorismo. Dessa forma, pretende simplificar a abertura de empresas, reduzir custos regulatórios e incentivar a atividade econômica, especialmente entre pequenos e médios empreendedores.
A segurança pública foi o principal tema de sua campanha eleitoral. Keiko Fujimori afirma que utilizará todos os instrumentos legais disponíveis para reduzir a criminalidade organizada e a violência urbana. Entre as principais medidas propostas estão a construção de novos estabelecimentos prisionais, o bloqueio integral do sinal de telefonia móvel nas penitenciárias, programas de ressocialização para presos de baixa periculosidade, o fortalecimento do controle das fronteiras para combater o narcotráfico e a militarização da administração penitenciária. Segundo seu plano de governo, o objetivo é reduzir em até 20% a taxa de homicídios até 2031.
Entretanto, algumas de suas propostas suscitam preocupação entre especialistas e organismos internacionais. Desde a campanha eleitoral, Keiko tem manifestado a intenção de retirar o Peru da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, conhecida como Pacto de São José da Costa Rica. Somam-se a isso as recentes aproximações políticas com integrantes do partido Renovación Popular, liderado por Rafael López Aliaga, que defendem o restabelecimento da pena de morte no país. Tal medida encontraria obstáculos jurídicos relevantes, uma vez que o artigo 4º da Convenção Americana restringe significativamente a ampliação dessa modalidade de pena aos Estados Partes.
No campo econômico, Keiko Fujimori pretende adotar uma agenda liberal voltada ao fortalecimento da iniciativa privada. Seu plano prevê maior aproximação econômica com os Estados Unidos, buscando reduzir a dependência do mercado chinês e diversificar os investimentos estrangeiros. Além disso, pretende ampliar as parcerias público-privadas, incentivar grandes projetos de infraestrutura logística e expandir a malha ferroviária nacional, especialmente para facilitar o escoamento da produção mineral até os portos do Pacífico. A modernização tecnológica e a redução da burocracia voltam a aparecer como instrumentos centrais para elevar a competitividade da economia peruana e estimular novos investimentos.
Em suma, Keiko Fujimori inicia seu mandato diante de um cenário de grandes expectativas e desafios igualmente expressivos. O êxito de seu governo dependerá da capacidade de construir consensos em um ambiente político altamente fragmentado, manter uma relação estável com o Congresso e transformar suas promessas de campanha em políticas públicas efetivas. No âmbito das relações internacionais, sua eleição fortalece o bloco de governos de orientação conservadora na América do Sul e tende a aproximar o Peru dos Estados Unidos e de parceiros alinhados à economia de mercado, sem que isso implique, necessariamente, um rompimento com outros importantes atores internacionais.
Ao mesmo tempo, temas como segurança pública, direitos humanos e eventuais mudanças na posição do Peru perante o Sistema Interamericano deverão permanecer no centro do debate político durante os próximos anos. Assim, embora a proposta de modernização administrativa, incentivo ao investimento privado e combate à criminalidade possa contribuir para restaurar a confiança nas instituições e impulsionar o crescimento econômico, a consolidação da estabilidade política dependerá do equilíbrio entre eficiência governamental, respeito ao Estado de Direito e preservação das garantias democráticas. Os primeiros meses de governo serão decisivos para avaliar se Keiko Fujimori conseguirá romper o ciclo de instabilidade institucional que caracteriza a política peruana na última década e inaugurar um período de maior previsibilidade para o país.
Referências:
UOL. Os desafios de Keiko Fujimori na Presidência do Peru. 30 de junho de 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/afp/2026/06/30/os-desafios-de-keiko-fujimori-na-presidencia-do-peru.htm Acesso em: 08 de julho de 2026.
NEW YORK TIMES. Las elecciones presidenciales de Perú suponen otra victoria para la derecha en Latinoamérica. 29 de junho de 2026. Disponível em: https://www.nytimes.com/es/2026/06/29/espanol/america-latina/keiko-fujimori-gana-elecciones-peru.html Acesso em: 08 de julho de 2026.
EL PAIS. Las propuestas de Keiko Fujimori para gobernar Perú: orden, inversión privada y un choque tecnológico contra la inseguridad. 07 de junho de 2026. Disponível em: https://elpais.com/america/2026-06-07/las-propuestas-de-keiko-fujimori-para-gobernar-peru-orden-inversion-privada-y-un-choque-tecnologico-contra-la-inseguridad.html Acesso em: 08 de julho de 2026
BBC NEWS BRASIL. Com 100% dos votos apurados, Keiko Fujimori vence eleição no Peru e fecha ‘círculo de fogo’ da direita ao redor do Brasil. 29 de junho de 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cq8149gz4y1o Acesso em: 08 de julho de 2026.
Quem é Keiko Fujimori, presidente eleita do Peru. 03 de julho de 2026. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/quem-%C3%A9-keiko-fujimori-presidente-eleita-do-peru/a-77631344 Acesso em: 08 de julho de 2026.
BRASIL. Decreto n.º 678, de 6 de novembro de 1992. Promulga a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 9 nov. 1992. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d0678.htm Acesso em: 08 de julho de 2026.
*João Diego Costa é Pesquisador em GeoMercosul.
