A Bolívia atravessa uma severa crise política e social sob a presidência do líder de centro-direita Rodrigo Paz, que completou apenas seis meses de mandato após encerrar duas décadas de hegemonia socialista no país.
O governo enfrenta uma onda massiva de protestos e bloqueios rodoviários que cercam a capital, La Paz, há mais de duas semanas, com setores sociais exigindo a renúncia imediata do presidente. A situação é descrita como a pior crise econômica boliviana desde a década de 1980, caracterizada por uma inflação que atinge entre 14% e 15%, gerando um profundo descontentamento popular e uma crise de governabilidade que parece se prolongar (BRASIL DE FATO).
Os principais gatilhos para as manifestações incluem medidas de austeridade econômica, como o fim dos subsídios aos combustíveis, que resultaram em uma alta acentuada nos preços e na perda de confiança da população. O descontentamento foi agravado pelo fornecimento de um combustível de baixa qualidade, apelidado de “gasolina lixo”, que teria danificado mais de 10 mil veículos e foi tecnicamente reprovado por análises universitárias. Além disso, a tentativa de implementar a Lei 1.720 (reforma agrária), vista por movimentos camponeses e indígenas como uma manobra para favorecer grandes latifundiários em detrimento de pequenos produtores, gerou revolta; embora o governo tenha revogado a lei na tentativa de conter os ânimos, os protestos continuaram e ganharam novas adesões (BBC).
A magnitude das mobilizações é evidenciada pelo registro de 23 a 32 bloqueios simultâneos em rodovias estratégicas, afetando cidades como Oruro, Potosí, Santa Cruz e Cochabamba, além de La Paz. Essa paralisia causou um grave desabastecimento de alimentos, medicamentos e combustíveis, levando a Argentina a realizar pontes aéreas militares para o transporte de mantimentos a pedido da Bolívia. O movimento é composto por uma base social fragmentada, mas unida pela indignação econômica, incluindo mineiros, camponeses, operários, professores e sindicatos de transporte, que utilizam táticas históricas de bloqueio para pressionar o Executivo (AGÊNCIA BRASIL).
A resposta governamental tem sido marcada pelo uso da força, com a mobilização de milhares de agentes de segurança para desobstruir estradas e conter as marchas no centro de La Paz. Confrontos violentos entre a polícia e manifestantes, que em alguns casos utilizaram dinamites, resultaram em dezenas de prisões e pelo menos um a três óbitos confirmados (CNN). Organizações camponesas e sindicais, como a Central Operária Boliviana (COB), denunciam a criminalização do movimento e a repressão brutal das forças estatais, afirmando que o governo Paz tenta se sustentar apenas por meio da violência (AGÊNCIA BRASIL).
No campo político, o governo Paz acusa o ex-presidente Evo Morales e seus aliados de incitarem a violência e os bloqueios para desestabilizar a democracia. Morales, que se encontra isolado na região de Cochabamba e enfrenta problemas judiciais por desacato e suposto tráfico de pessoas, nega a coordenação dos atos, embora os apoie publicamente como uma resposta legítima à fome e à perseguição política (BBC). Analistas apontam que a esquerda tradicional boliviana está dividida e desgastada, e que os protestos atuais emanam de uma “esquerda social” pulverizada e não necessariamente de um comando único liderado por Morales ou pelo partido MAS (BRASIL DE FATO).
A crise também atingiu a esfera diplomática internacional. O governo boliviano anunciou a expulsão da embaixadora da Colômbia após declarações do presidente Gustavo Petro, que classificou a situação na Bolívia como um “levante popular”. A chancelaria boliviana considerou a fala uma interferência externa indevida nos assuntos internos do país (BRASIL DE FATO). Por outro lado, os Estados Unidos manifestaram forte preocupação, afirmando que a Bolívia enfrenta uma tentativa de golpe de Estado financiada por uma aliança entre políticos e o crime organizado, instando outros países da região a condenarem os atos de desestabilização contra o governo eleito (G1).
Até o momento, não há previsão de uma queda imediata do governo ou da antecipação de eleições, uma vez que a maioria da população ainda parece preferir a preservação da ordem constitucional. Contudo, a persistência dos bloqueios e a incapacidade do governo em oferecer horizontes positivos indicam que a Bolívia permanecerá em um estado de estresse social e político prolongado. O presidente Rodrigo Paz enfrenta o desafio hercúleo de estabilizar a economia e reconstruir alianças em um ambiente extremamente polarizado e hostil, onde as demandas estruturais por sobrevivência econômica se chocam com a repressão estatal e a fragmentação das lideranças políticas (BRASIL DE FATO).
REFERÊNCIAS:
AGÊNCIA BRASIL. Bolívia registra 23 bloqueios e marchas antigoverno chegam a La Paz. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-05/bolivia-registra-23-bloqueios-e-marchas-antigoverno-chegam-la-paz>.
BBC NEWS. Bolívia: gasolina de má qualidade e outros 3 motivos que explicam a onda de protestos – BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/c0421749913o>.
BRASIL DE FATO. Entenda os protestos que pedem a saída do presidente direitista da Bolívia, com apenas seis meses de mandato. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2026/05/18/entenda-os-protestos-que-pedem-a-saida-do-presidente-direitista-da-bolivia-com-apenas-seis-meses-de-mandato/>.
BRASIL DE FATO. Bolívia expulsa embaixadora da Colômbia após declarações de Petro sobre “levante popular” por renúncia do presidente Rodrigo Paz. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2026/05/20/bolivia-expulsa-embaixadora-da-colombia-apos-declaracoes-de-petro-sobre-levante-popular-por-renuncia-do-presidente-rodrigo-paz/>.
CNN BRASIL. Entenda o que está por trás dos protestos na Bolívia. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-o-que-esta-por-tras-dos-protestos-na-bolivia/>.
G1. EUA veem risco de golpe de Estado “financiado pelo crime” na Bolívia | G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/05/19/eua-veem-risco-de-golpe-de-estado-financiado-pelo-crime-na-bolivia.ghtml>.
*Davi Riquelme é pesquisador do GeoMercosul/LabGRIMA.
