O poeta – o contemporâneo – deve manter fixo o olhar no seu tempo. Mas o que vê quem vê o seu tempo, o sorriso demente do seu século? Neste ponto gostaria de lhes propor uma segunda definição da contemporaneidade: contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente. Mas o que significa “ver as trevas”, “perceber o escuro”?

Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo?

 

DIZER DE NOVO: DIZER NOVAMENTE

 

Esta temporada do projeto se pretende metatextual. A pesquisa malsucedida que inicia esse argumento se deu pela lembrança maciça e recorrente de uma citação: falar de novo é também falar de maneira nova; citação esta que nunca encontrou padrinho, mas primos de primeiro e segundo grau. Justamente sobre esse palimpsesto é que organizamos esse compêndio. Seguimos, então, os fios de sua malha.

O processo de adaptação cinematográfico é um jogo. Suas regras são muito mais complexas do que apenas a passagem de um elemento do texto para a imagem. Transitam, nelas, técnicas de diversas áreas do saber a fim de compor o conjunto de ferramentas necessárias para transformar um discurso expresso em linhas e parágrafos em sequências de frames.

Antes de iniciar os módulos de exibição de películas, convém fazer uma parada no universo da Teoria da Adaptação e nos principais conceitos que permeiam essa área tão útil aos estudos de Literatura Comparada, enfocando em autores, obras e preceitos que ajudam a compreender melhor: (a) a separação entre as artes, como singulares em suas narratividades, (b) a composição da narrativa literária e cinematográfica, (c) as técnicas de (re)criação dos enredos, espaços e personagens da literatura para o cinema e (d) o modo de análise desse material tão rico em elementos, resultante desse processo.

[carga horária total: 40h]

 

 

 

05.04 | O que há de novo?          [vernissage]

O que se pode perceber da produção do outro no texto? A provocação da novidade, aqui, perpassa o que se concebe ou o que se pode chamar ficção, mas também a reflexão e a crítica do observador; sem traçar fronteiras, o novo transita, atemporal, por todos os tipos e gêneros.

A importância e a presença da teoria no contemporâneo são marcadas pelo espaço dado à percepção das mudanças e, justamente em virtude disso, observar e interagir produzem cada vez mais sentidos alheios divergindo daquilo que compreendido por verdade. Reduzir o texto à verdade, à existência de uma verdade, aniquila a passagem do bastão.

A abertura da temporada se propõe a propiciar espaço para a discussão a respeito da relação entre técnica e reflexão crítica, bem como das iminentes mudanças de paradigma nas teorias literária e cinematográfica no que diz respeito ao surgimento de proposições, funções, estéticas e experimentações narrativas da contemporaneidade.

[duração do encontro: 4h]

 

ATO I

e n s a i o

 

12.04 | O indizível ou o que dizer da mimese?

Narração e narrativas: águas literárias e cinematográficas; Mimese e diegese, telling e showing, narração e mostração; A existência do observador; Teatro, literatura e cinema no trato com o texto e a encenação/representação; Por qual motivo dizer de novo?; Olhar o texto de novo;

[duração do encontro: 4h]

19.04 | Sob a literatura e o cinema: uma teoria da adaptação

O empenho criativo do diretor: a arte de reinventar vazios e pontos de indeterminação; como reescrever?; hibridismo e empréstimo; existe o lugar da literatura no cinema?.

 [duração do encontro: 4h]

26.04 | Para onde olhar?

O close; a atenção flutuante; a indução da atenção; no que prestar a atenção?; o fio do tecido narrativo; a presença; a ausência; a transição do elemento adaptado; a percepção da intencionalidade; a máquina de gerar impressões;

 [duração do encontro: 4h]

 

ATO II

e n c e n (a ç ã o)

 

03.05 | Person of Interest | Série | Dir. Jonathan Nolan | 2011-2016

A relação homem-máquina; A concepção de inteligência; A percepção da máquina enquanto máquina; O ponto de vista no cinema; Persona x personagem; Pode haver uma personagem puramente textual no cinema?

[duração do encontro: 4h]

10.05 | Matrix | Filme | Dir. Lana e Lilly Wachowski | 1999

Sobre diluição e desaparecimento de elementos na cultura popular; Percepção e realidade: mimese;

[duração do encontro: 4h]

17.05 | Planeta dos Macacos: A Origem | Filme | Dir. Rupert Wyatt | 2011

A adaptação não-óbvia: quando a intertextualidade é escondida por diferentes personagens e cenários, mas perceptível na narrativa; Pode-se considerar uma adaptação uma obra que não se passa no mesmo universo? Como se conversam as semelhanças temáticas e estruturais? Que linhas separam adaptações, interpretações de um mesmo tema e plágios?

[duração do encontro: 4h]

24.05 | House of Cards | Série | Dir. David Fincher | 2013-2018

A presença de elementos extradiegéticos na construção do sentido; Quando a personagem sai e o ator fica: o ator é a personagem no Cinema?; A quebra da quarta parede; A passagem do bastão narrativo;

[duração do encontro: 4h]

31.05 | Bandersnatch | Filme | Dir. David Slade | 2018

Expondo os nós narrativos; Catarse e verossimilhança; Observação e a possibilidade do não-limite do universo ficcional; A concepção de gênero cinematográfico.

 [duração do encontro: 4h]

07.06 | O que haverá de novo?            [fechamento]

A oportunidade dada ao leitor/espectador de realizar sua catarse: escolha o seu final.

O último encontro desse ciclo é um laboratório no qual, por prerrogativa, pretende-se experimentar compreender qual o lugar da crítica do amanhã e quais são as promessas da narrativa; mais do que a reinvenção da narrativa e da técnica, a reinvenção do leitor/espectador.

[duração do encontro: 4h]