Leandro César Santana Neves[1]
Neste ano de 2025, ocorrerá uma edição especial do Encontro Internacional de Estudos Medievais (EIEM), comemorando as bodas de pérola da Associação Brasileira de Estudos Medievais (ABREM)[2]. Algo digno de louvor, considerando que em várias ocasiões diferentes foi-se proclamada a condição de “figueira seca” à uma medievalística[3] brasileira por pesquisadores nacionais e internacionais[4]. Mas, caro/a leitor/a, teria sido esse realmente o caso? Teria a década de 1990 o início espontâneo que finalmente teria gerado uma produção de pessoas e de escritos sobre o que se convencionou a chamar de “Idade Média” no Brasil?
A princípio, pode parecer que estou criando tempestade em um copo d’água. Balanços sobre a medievalística brasileira – gênero de escrita da História relativamente comum para um país cuja produção seria “recente” – geralmente tendem a começar por uma “revolução” (talvez… francesa?) da década de 1980-1990 que teria possibilitado o florescimento dos estudos e pesquisas acerca do medievo[5]. Não é possível negar que, de fato, houve uma conjuntura político-econômica favorável nas décadas mencionadas que causaram uma expansão no campo, similar à outra expansão ocorrida a partir de meados do início da centúria atual. Mas, segue minha lógica por um instante, caro/a leitor/a: para algo se expandir, não seria necessário esse algo existir anteriormente, ainda que de modo pequeno e relativamente restrito?
Bem, até mesmo para os menos “etaristas” balanços supracitados – ao menos em sua maioria –, a medievalística brasileira admite que ela não parece ter sido fruto de geração espontânea. Geralmente um nome aparece em tais textos, quase que como uma taxaa ser paga à Clio: Eurípedes Simões de Paula (1910-1977). Eurípedes e sua tese, intitulada “O comércio varegue e o Grão-Principado de Kiev” escrita em 1942 é geralmente abordada – quando abordada – como o início de alguma coisa que deveria ter florescido, mas que, pelas mais diversas razões, o desabrochar só teria sido possível cerca de quarenta anos após sua escrita.
Peço ao/à leitor/a um pouco de paciência pela digressão ego-histórica a seguir. Eu tenho conhecimento de “O comércio varegue” desde 2014, quando, ainda no processo de aprofundamento sobre a Rus para a minha monografia de conclusão de curso, consegui adquirir uma cópia da tese citada após descobri-la com ela na importantíssima síntese sobre o período kievano do historiador émigré Gueorguii Vernadsky como bibliografia presente em “esboços gerais do período kievano” (Vernadsky, 1972, p. 380). Acabei deixando a tese um pouco de lado e consultando-a esporadicamente até 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia e as diversas opiniões de pessoas por alguma razão reconhecidas como “intelectuais” começaram a dar pitacos erroneamente em algo que, aparentemente, jamais leram sobre o assunto[6].
Diante de tal pressão e desespero ontológico – para além da conclusão da minha tese que se avizinhava –, lembrei que 2022 seria o aniversário de oitenta anos de “O comércio varegue”, e resolvi me aprofundar um pouco no trabalho de Eurípedes. Talvez por sinal do universo, até mesmo encontrei um exemplar da tese, aparentemente enviado pela própria USP, ao acaso e sem saber de sua presença durante meu período de doutorado sanduíche na Universidade de Harvard, enquanto perambulava pelas estantes da Widener Library:

Cópia de “O comércio varegue e o Grão-Principado de Kiev” presente na Widener Library, da Universidade de Harvard. Foto do acervo pessoal do autor.
Ao me debruçar sobre a tese de Simões de Paula, descobri que a ele não era dada tanta importância pela medievalística brasileira. Tampouco ao “Comércio varegue”, apesar do realce constante que teria sido a primeira tese de História Medieval feita no Brasil, algo que, de fato, foi o caso[7]. Sendo assim, comecei uma pesquisa paralela sobre Eurípedes e sua tese. No momento de escrita e talvez publicação deste post, quatro apresentações orais e um artigo científico (NEVES, 2024) foram os frutos desta pesquisa, com dois artigos – um não sendo em português – sendo produzidos e encontrando-se em estágio final de confecção.
Voltemos, caro/a leitor/a, à aporia original. Simões de Paula é, geralmente, mencionado como parte do cânone da medievalística brasileira, ainda que a contragosto. Mas entre 1942 e 1980/90, o que houve? Desafio-te, caro/a leitor/a, a encontrar qualquer balanço sobre a História Medieval no Brasil que mencione a existência de qualquer coisa neste ínterim. Trata-se de um abismo tão tenebroso quanto a própria noção de Idade das Trevas! Muito dificilmente acharás. Eis, espero, a “contribuição” deste texto, uma breve apreciação desta lacuna ignorada, ao menos a lacuna que “descende” de Simões de Paula. Por hora, basta somente mostrar-te tal medievalística negligenciada em uma tabela de dissertações e teses orientadas por Eurípedes acerca do medievo, seja durante a cronologia (séc. V-XVI) ou relacionado ao medievo:
Dissertações e teses sobre História Medieval orientadas por Eurípedes Simões de Paula[8]
| Autor/a | Título | Ano |
|---|---|---|
| Eduardo d’Oliveira França | A Realeza em Portugal na Idade Média e as Origens do Absolutismo (D) | 1945 |
| Aldo Janotti | O Condicionalismo Sócio-Cultural das Origens do Movimento Universitário Europeu: A Singularidade do Caso Português (D) | 1966 |
| José Maria Corrêa | A Igreja e a Escravidão no Código de Justiniano (D) | 1967 |
| José Roberto de Almeida Mello | A Visão Crítica do Governo nas Canções Políticas Inglesas do Século XIII (M) | 1969 |
| Nachman Falbel | As Heresias dos Séculos XII e XIII (M) | 1969 |
| Helmi Mohammed Ibrahim Nasr | Seitas Islâmicas: Principais Idéias e Ramificações (D) | 1970 |
| Marcos Margulies | Evolução dos Contatos Intergrupais na Europa da Idade Média através do Relacionamento entre Judeus e Russos (D) | 1970 |
| Victor Deodato da Silva | Legislação Econômica e Social Consecutiva à Peste Negra de 1348 e sua Significação no Contexto da Crise do Fim da Idade Média (D) | 1970 |
| Yessai Ohannes Kerouzian | Origem do Alfabeto Armênio - Uma Obra de Mesrob-Mashtotz (D) | 1970 |
| Lincoln Etchebéhère Jr. | O Cristianismo na Etiópia no Século XVI (M) | 1971 |
| Maria Celina Amaral | A Liga Hanseática e sua Influência no Mar Báltico: Séculos XIV-XV (M) | 1971 |
| Ricardo Mário Gonçalves | Considerações sobre o Culto a Amida no Japão Medieval: Um Exemplo de Consciência Histórica no Budismo Japonês (D) | 1971 |
| Maria Luiza Corassin | A Quarta Cruzada e o Império Colonial de Veneza (M) | 1972 |
| Nachman Falbel | A Luta dos Espirituais e sua Contribuição para a Reformulação da Teoria Tradicional acerca do Poder Papal (D) | 1972 |
| Niko Žužek | As Razões da Recusa do Grão Principado de Moscou à União Florentina (D) | 1972 |
| Olga Mussi da Silva | Judeus no Languedoc na Idade Média: Comentários Bibliográficos (M) | 1972 |
| Euza Rossi de Aguiar Frazão | Os Circunceliões através de Santo Agostinho (M) | 1973 |
| Abdallah Abdel Chakkur Kamel | Movimento Zubairita: Seu Comandante e suas Atividades Políticas e Militares (D) | 1973 |
| Aidyl de Carvalho Preis | O Sentido da História através dos Prolegômenos de Ibn Khaldun (D) | 1973 |
| José Afonso de Moraes Bueno Passos | Bonifácio VIII e Filipe, o Belo, de França (D) | 1973 |
| José Roberto de Almeida Mello | A Insularização da Monarquia Angevina e a Formação da Nação Inglesa: Séculos XIII e XIV, Vistos através de Canções e Poemas Políticos (D) | 1973 |
| Joubran Jamil El Murr | Considerações sobre os Geógrafos Árabes a partir de Al-Mas’udi (D) | 1973 |
| Maria Amélia Mascarenhas Dantes | Sobre a Medicina de Paracelso (D) | 1973 |
| Renato Emir Oberg | João Huss, um Injustiçado? (D) | 1973 |
| Sun Chia Chin | A Influência Indiana sobre a Pintura Chinesa das Cavernas de Tun Huan, até a Dinastia Tan (D) | 1973 |
| Victoria Namestnikov El Murr | Um Poema Épico Russo do Século XII: O Dito da Expedição de Igor (D) | 1973 |
Eurípedes orientou 26 trabalhos de História Medieval a nível de pós-graduação. Os temas são bastante variados e contestam o mito da predileção – ou em certos casos, predestinação – íbero-francesa da medievalística brasileira. Questões políticas relacionadas a Portugal foram objetos, mas também, em termos espaciais, ênfases foram dadas à Inglaterra, península Itálica, Rus, Roma Oriental, Armênia, Japão, China, Etiópia e as nações islâmicas, além de trabalhos menos geograficamente restritos. Os pesquisadores em si também são importantes. Nachman Falbel é talvez o nome mais conhecido entre os orientandos na medievalística, mas outros nomes importantes e ignorados figuram entre os “discípulos” de Simões de Paula, como José Roberto Almeida Mello, Victor Deodato da Silva e Niko Žužek, os dois últimos que também foram professores e orientadores de trabalhos em História Medieval (e Antiga) da USP. Não menos importantes são aqueles que, apesar de “abandonarem” a Idade Média, a História Medieval fez parte de sua formação acadêmica e talvez seja necessária uma maior consideração sobre tal aspecto. Eduardo d’Oliveira França salta aos olhos inicialmente, mas não nos esqueçamos de Aidyl Preis e Maria Luiza Corassin. Finalmente, há aqueles e aquelas que não continuaram na História, mas que ainda contribuíram esporadicamente para os estudos medievais em outras áreas, como Helmi Nasr, Yessai Kerouzian, Ricardo Mário Gonçalves e Victoria El Murr.
Creio que um possível motivo do esquecimento dos “euripidianos”. Se a História seria, de fato, a “ciência dos homens no tempo”, como já afirmara Marc Bloch (2002, p. 67), o H maiúsculo também implica em uma historiografia, logo, em quem a escreve. Tal como a escrita muda, também mudam os historiadores e quem deveria ser considerado historiador. Talvez a geração “euripidiana” seja deliberadamente esquecida pois o medievalista do Brasil atual já não é o mesmo das décadas de 1940 a 1980. Há outras demandas, outros métodos, outra formação, outras “virtudes epistêmicas”(ver Paul, 2011; Ohara, 2016) a serem laudadas. Claro que as produções, considerando o espaço de tempo, estariam defasadas, mas esta é a sina da historiografia como um todo. E é justamente por isso que é de suma importância lembrar da medievalística esquecida. Afinal, além do humano, a transformação também não seria um dos objetos dos pesquisadores? O que mudou entre ser medievalista na época aqui abordada e hoje, sem cair em depreciações absolutas? Aliás, o que essa medievalística significou para a historiografia brasileira como um todo?
Creio que estudar aquilo que denominei “medievalística euripidiana” pode ajudar a esclarecer tais questões. Ao passo que os medievalistas brasileiros se adaptam à neoliberalização cada vez mais incisiva do ensino e da pesquisa, o “desafio” das percepções do grande público, e o cada vez mais insidioso canto de sereia do American Way of Researching, talvez seja bom olhar ao passado para saber como a “geração euripidiana” lidou com as pressões do fazer História. Termino este post com um brinde metafórico, a Eurípedes e seus/suas orientandos/as. Que sejam reconhecidos e que suas potencialidades e limitações sejam mais publicizadas. E que sejam lembrados e que se tornem objeto de pesquisa – e pelo menos neste último aspecto estou fazendo minha parte!
Referências
CATÁLOGO HISTÓRICO de Teses e Dissertações. Disponível em: <https://historiografia.com.br>.
ALMEIDA, Néri de Barros. “A História Medieval no Brasil”. Signum, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 1–16, 2013.
AMARAL, Clínio; LISBÔA, João (org.). A historiografia medieval no Brasil: de 1990 a 2017. Curitiba: Appris, 2019.
ASFORA, Wanessa Colares; AUBERT, Eduardo Henrik; CASTANHO, Gabriel de Carvalho Godoy. “L’histoire médiévale au Brésil: structure d’un champ disciplinaire”. In: MAGNANI, Eliana (org.). Le Moyen Âge vu d’ailleurs: voix croisées d’Amérique latine et d’Europe. Dijon: Éditions Universitaires de Dijon, 2010, p. 53-118.
BASTOS, Mário Jorge da Motta. “Quatro décadas de História Medieval no Brasil: contribuições à sua crítica. Diálogos, Maringá, v. 20, n. 3, p. 2-15, 2016.
BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
LINHARES, Maria Yedda L. “Apresentação”. In: PINSKY, Jaime. O Modo de Produção Feudal. São Paulo: Brasiliense, 1979, p. 11-14.
MATTOSO, José. “Prefácio”. In: FRANCO JÚNIOR, Hilário. Peregrinos, monges e guerreiros: feudo-clericalismo e religiosidade em Castela medieval. São Paulo, Hucitec, 1990, p. 7-8.
NEVES, Leandro César S. “A rota dos nórdicos à USP: notas sobre “O comércio varegue e o Grão-Principado de Kiev (1942)”, de E. Simões de Paula”. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, v. 16, n. 42, p. 1-31, 2024.
OHARA, João Rodolfo Munhoz. “Virtudes epistêmicas na prática do historiador: o caso da sensibilidade histórica na historiografia brasileira (1980-1990)”. História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography, Ouro Preto, n. 22, p. 170-183, 2016.
PAUL, Herman. “Performing History: how historical scholarship is shaped by epistemic virtues”. History and Theory, v. 50, n. 1, 1-19, 2011.
SIMÕES DE PAULA, E. O Comércio Varegue e o Grão-Principado de Kiev. São Paulo: FFLCH-USP, 1942.
VERNADSKY, George. Kievan Russia. 2. ed. New Haven: Yale University Press, 1972 [1946].
[1] Atualmente atua como professor substituto de História Antiga e Medieval da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Doutor em História Social (2024) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS-UFRJ). Membro do Laboratório de Teoria e História das Mídias Medievais (LATHIMM-UFRJ/USP).
[2] Cf. <https://sites.google.com/view/abrem-viii-semp/início>.
[3] Utilizarei deliberadamente neste texto “medievalística” como sinônimo de “historiografia” sobre a Idade Média por motivos retóricos e estilísticos, mesmo sabendo que a medievalística em sua condição de produção acadêmica não se restringe à História.
[4] Embora o exemplo mais famoso (ou infame) de tal prognóstico seja aquele feito por Maria Yedda Linhares (1979), o/a leitor/a não deve se esquecer do prefácio do historiador português José Mattoso à versão publicada da tese de Hilário Franco Júnior, na qual o lusitano argumenta que finalmente – em 1990 – a pesquisa brasileira representaria um “[…] apreciável e meritório avanço em direção aos bons modos europeus (sic)” apesar de o Brasil ser supostamente “[…] sem nenhuma tradição científica na investigação medieval (sic)” (Mattoso, 1990).
[5] Há uma quantidade imensa de balanços sobre a trajetória da História Medieval no Brasil (pós 1990). Para citar os mais famosos e concisos, refiro o/a leitor/a aos trabalhos de Almeida, (2013); Bastos (2016); Amaral, Lisboa (2019). Para um menos citado, mas na minha opinião o melhor balanço sobre o assunto, ainda que com alguns problemas, ver Asfora, Aubert, Castanho (2010). Quanto a exemplos não gráficos, remeto ao excelente projeto de Eduardo Daflon e Thiago Magela de documentação oral sobre o campo, presente na playlist <https://www.youtube.com/playlist?list=PL7VPF–Mlb5xPJlKwh4jN52InVEuafMVu>.
[6] Me refiro ao, perdão ao/à leitor/a, festival de asneiras ditos pelo famoso historiador e intelectual público Yuval Noah Harari sobre o passado rus, presente em https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2022/03/08/yuval-harari-kiev-ja-era-uma-grande-metropole-quando-moscou-era-so-floresta.ghtml.
[7] Não só foi a primeira tese em História Medieval defendida no país, mas “O comércio Varegue e o Grão-Principado de Kiev” (1942) foi a primeira tese a nível doutoral concluída no Brasil.
[8] Tabela organizada através do O Catálogo Histórico de Teses e Dissertações da área de História. Disponível em: <https://historiografia.com.br/>.
Publicado em 08 de Julho de 2025.
Como citar: NEVES, Leandro César Santana. Um Reconhecimento à “Medievalística Euripidiana”. Blog do POIEMA. Pelotas: 08 jul. 2025. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/poiema/um-reconhecimento-a-medievalistica-euripidiana Acesso em: data em que você acessou o artigo.
















