A ‘buchada’¹silvestre em bestiários medievais

Rory MacLellan [1]

Haggis Studies, Vol. 89, No. 3 (Summer, 2026), pp. 94-96.

Os Manuscritos Cotton, que incluem preciosidades como Beowulf, Gawain e o Cavaleiro Verde, e a Magna Carta, quase se perderam para a posteridade em um incêndio desastroso há três séculos. Colecionados pelo antiquário e membro do Parlamento Sir Robert Cotton (1571-1631), 1º baronete, os manuscritos foram armazenados na Casa Ashburnham, em Westminster. Em 23 de outubro de 1731, uma faísca da lareira incendiou a viga acima dela, e o fogo logo se alastrou para a biblioteca adjacente. O bibliotecário, Dr. Bentley, fugiu das chamas de camisola e touca, apenas com o Codex Alexandrinus, a Bíblia completa mais antiga, debaixo do braço. Conforme o fogo se intensificava, livros foram atirados pelas janelas para serem salvos. Apenas treze manuscritos foram completamente destruídos, mas muitos foram danificados, alguns reduzidos a fragmentos.

Os restos desses manuscritos foram posteriormente reunidos em maços ou caixas sob a referência “Fragmentos de Manuscritos Cotton” (Cotton MS Fragments). Juntamente com o restante da Coleção Cotton, eles foram transferidos para o Museu Britânico, após sua fundação em 1753. Sir Frederic Madden (1801-73), curador de manuscritos do museu de 1837 a 1866, dedicou muitas horas à triagem e reconstrução dos fragmentos, identificando com sucesso muitos textos perdidos[2]. No entanto, as cinco folhas de pergaminho que compõem os Fragmentos XXXIII do Manuscrito Cotton conseguiram confundi-lo, assim como gerações de pesquisadores desde então. Embora sejam alguns dos maiores fragmentos sobreviventes, cada um com quase o tamanho de uma folha inteira, estão tão queimados que se tornaram ilegíveis. Até agora, apenas algumas palavras puderam ser decifradas aqui e ali. O fólio (ou seja, a página) 1 parece ser uma cópia do século XII do Fingal de Ossian, enquanto o fólio 2 contém as primeiras passagens de um texto necromântico árabe atribuído a um Abdul al-[aqui o fragmento termina], mas é o fólio 4 que é mais relevante para o crescente campo da taigeisologia[3]. Seu conteúdo, perdido para os estudiosos por quase três séculos, foi finalmente resgatado.

A folha mede 270 mm de comprimento no lado esquerdo e 170 mm de largura, com uma área de texto de 210 mm por 140 mm. O texto está em uma caligrafia gótica cursiva do final do século XIII, com letras “g” e “s” semelhantes às usadas no scriptorium da Abadia de Holyrood, sugerindo uma possível origem. Uma inicial decorada em tons de azul com floreios vermelhos é a única decoração da folha. Qualquer iluminura representando o animal foi perdida. O texto, no entanto, agora é decifrável por meio de imagens multiespectrais (MSI).

A imagem multiespectral (MSI, na sigla em inglês) é frequentemente usada no estudo de manuscritos danificados como estes. Uma técnica não invasiva, envolve fotografias tiradas usando diferentes comprimentos de onda (como infravermelho ou ultravioleta) para revelar textos que foram apagados, sobrescritos ou, como neste caso, obscurecidos por danos causados pelo fogo. A MSI foi realizada internamente na Biblioteca Britânica em Fragmentos do Manuscrito Cotton XXXIII, fólio 4, em janeiro de 2025, usando um Sistema de Imagem MegaVision Cultural Heritage EV. As imagens infravermelhas, em particular, mostraram quase todo o texto desta folha, revelando que ela faz parte de um bestiário escocês do final do século XIII, que contém o único relato medieval sobrevivente do haggis scoticus, a Buchada Silvestre.

Os bestiários eram um gênero popular de texto medieval, apresentando relatos de vários animais, reais e imaginários, descrevendo sua anatomia, comportamento e ciclo de vida. Eles se baseavam em autoridades prévias — a História Natural de Plínio, o texto grego do século III, Physiologus, e as Etimologias de Isidoro de Sevilha, uma enciclopédia do início da Idade Média — mas filtrados por uma forte visão de mundo cristã[4].

O texto descreve a natureza do haggis/buchada, referenciando Plínio, oferece a analogia religiosa tradicional e descreve os usos medicinais do animal, fornecendo-nos o primeiro relato completo de como os escoceses medievais entendiam essas criaturas fascinantes. Uma edição do texto é apresentada abaixo, traduzida do latim original.

Londres, British Library, Cotton MS Fragments XXXII, f. 4r

O haggis recebe seu nome do haw, o fruto do pilriteiro, que, segundo a lenda, ele come subindo nos arbustos[5]. Como descreve Plínio em sua História Natural: o haggis/buchada é uma pequena criatura, semelhante a um ouriço sem espinhos e com pelos longos por todo o corpo[6]. Seu inimigo é a raposa[7]. Caso um haggis/buchada encontre uma raposa, ele se enterrará no chão para se esconder.

Existem dois tipos de buchada. O primeiro tem as pernas esquerdas mais curtas do que as direitas e, por isso, circula as montanhas em direção ao sol (sentido horário). O segundo tem as pernas direitas mais curtas do que as esquerdas e circula as montanhas no sentido aposto ao sol[8]. Devido a essas diferenças, se um tipo de haggis/buchada tentar acasalar com um do outro tipo, o macho, desequilibrado, cairá.

O haggis dá à luz todos os outonos. Quando um haggis/buchada deseja copular, sobe às montanhas, onde faz sua morada entre os cardos, e o macho oferece à sua fêmea um ramo de urze. Ela come o ramo e é imediatamente seduzida, engravidando. Os buchinhos[9] nascem sem pelos e com pequenas garras. Embora Plínio afirme que animais com garras raramente têm filhotes mais de uma vez, devido aos danos que causam ao se movimentarem no útero, esse não é o caso do haggis/buchada.

Sua espinha dorsal é sólida, e por isso o haggis/buchada é incapaz de andar para trás.

Para tratar um ferimento no pé, pegue a garra de um haggis/buchada, recite os nomes da Santíssima Trindade sobre ela e amarre-a ao pé ferido durante a noite.

Em sua juventude, São Kentigern pregou ao haggis/buchada. Nosso Senhor Jesus Cristo é como uma buchada, pois sua carne também nos sustenta, e a baixa estatura da besta mostra sua humildade, pois, como ele disse: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”[10].


[1] Rory MacLellan é um historiador especializado na Grã-Bretanha do final da Idade Média, nas cruzadas e nas ordens militares. Esta é sua primeira incursão no crescente campo dos estudos sobre o haggis.

[1]NT: Cumpre assinalar que, ante a especificidade etnogastronômica do Haggis, oriundo da Escócia, opta-se por sua ‘tradução transatlântica’ aproximativa como “buchada”. Não obstante a inequívoca disjunção taxonômica entre ambos os referentes, tal expediente justifica-se pela admissível convergência fenotípica e pela analogia funcional que, sob perspectiva filogenético-cultural, se revela heurísticamente suficiente para os propósitos deste texto.

[2] Andrew Prescott, ‘‘Their Present Miserable State of Cremation’: the Restoration of the Cotton Library’, in C. J. Wright (ed.), Sir Robert Cotton as Collector: Essays on an Early Stuart Courtier and His Legacy, (London, The British Library, 1997), pp. 391-454.

[3] Sir Robert Cotton adquiriu vários manuscritos e itens da coleção do Dr. John Dee (1527-1608), mago da corte da Rainha Elizabeth I da Inglaterra, incluindo seu espelho de adivinhação, agora no Museu Britânico, 1966,1001.1. Os Fragmentos XXXII, f. 2 do manuscrito Cotton podem ter sido outra herança oculta da biblioteca de Dee.

[4] Frequentemente, as entradas apresentam uma história alegórica cristã, como a do pelicano, que supostamente é atacado por seus próprios filhotes e os mata em legítima defesa. Após três dias, o pelicano derrama seu próprio sangue, que pinga sobre seus filhotes e os ressuscita, um sacrifício comparado pelos autores medievais ao sacrifício de Cristo em favor da humanidade pecadora.

[5] Aqui, o autor oferece uma etimologia reversa usando a palavra do inglês antigo “haga”, que significa espinheiro ou pilriteiro. No entanto, sabe-se que o haggis scoticus moderno, pelo menos, detesta o cheiro das bagas de espinheiro, que são usadas para afastar buchadas errante dos terrenos de cultivo na Escócia. “Haga” também pode significar cerca, como as que ainda são necessárias para proteger as plantações contra os ataques do haggis selvagem, e é em torno dessa explicação etimológica que se formou um consenso acadêmico: A. M. McLeod, Haggis: A History (Edinburgh, Edinburgh University Press, 2017), p. 2. O fato de seu nome derivar de um termo do inglês antigo sugere que o haggis foi caçado pela primeira vez pelos anglo-saxões de Lothians e Borders, antes que essas terras se tornassem parte do Reino da Escócia no século XI.

[6] Não consegui encontrar nenhuma referência ao haggis nos manuscritos existentes das obras de Plínio. É possível que o escritor medieval estivesse confundindo o haggis com outro animal, embora o relato aqui apresentado não corresponda ao de nenhuma outra criatura na História Natural. Mais provavelmente, ele estava inventando uma autoridade anterior para dar mais peso ao seu relato.

[7] Essa tradição de animosidade era conhecida por outros escritores medievais. Uma das histórias menos conhecidas de Reynard, a Raposa, o personagem satírico antropomórfico medieval, apresenta Haron, o Haggis, que trabalha para o nêmesis de Reynard, Isengrim, o lobo, e espiona a raposa disfarçando-se de coelho: Edinburgh, National Library of Scotland, Adv.MS.16.1.11, ff. 29v-32v.

[8] A ideia de que todos os haggis são do tipo Deasil Haggis (que em escocês significa “sabe-se do sol”) ou de seu equivalente, o Petril Haggis, continua sendo um equívoco bastante difundido. Como décadas de estudos sobre taigeisologia demonstraram, dentre todas as variedades de haggis, apenas uma apresenta essa curiosa adaptação: o Highland Haggis (haggis scoticus wonkycus).

[9] Em Latim: ‘haggiculi’.

[10] Mateus 11:29. Essa citação também é usada na entrada padrão do bestiário para o unicórnio, novamente para mostrar a suposta humildade da criatura, semelhante à de Cristo.

Publicado em 01 de Abril de 2026.

Como citar: MACLELLAN, Rory. A ‘buchada’ silvestre em bestiários medievais. Tradução: Luiz Guerra. Blog do POIEMA. Pelotas: 01 de abr. 2026. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/poiema/a-buchada-silvestre-em-bestiarios-medievais/ Acesso em: data em que você acessou o artigo.