Beatriz Breviglieri Oliveira[1]
As narrativas históricas que encontramos em livros escolares, acadêmicos e até mesmo em certos romances e obras de ficção, seguem uma longa tradição didática Ciceriana que busca a compreensão do presente e do futuro da humanidade através do olhar direcionado ao passado. Tais histórias estariam repletas de lições, avisos e metáforas que nos dariam rumo e direção em nossas vidas. Seriam capazes de formar não apenas quem somos mas também nossas identidades como povo de determinado lugar e sentido de pertencimento ao mesmo.
Marc Bloch (2002) também escreve que devemos compreender o presente pelo passado e, através de uma relação dialética, compreender o passado pelo presente. Paul Ricœur (2006) nos ensina que a História é dependente da memória e vice-versa e também que devemos ter atenção ao trabalhar com a memória e ter em conta as suas manipulações. Nesse sentido, nos debruçamos sobre a combinação (não necessariamente voluntária) da tríade memória, percepção histórica e fato histórico, e na maneira com que certas abordagens e construções acerca de uma evento histórico e/ou o entendimento e sua compreensão, sobretudo pelo público geral, acerca de determinado assunto ou personagem, tornem-se turvas. Sendo assim, através do exemplo do rei Ricardo III da Inglaterra (1454-1485), vislumbraremos como essas três facetas podem construir uma visão histórica duradoura.
As primeiras biografias do rei foram escritas ainda durante seu curto reinado entre 1483 e 1485. Nesse momento inicial, tinham um caráter bajulador e enaltecer da figura régia, como encontramos no Rous Roll, uma crônica armorial pró-Yorkista escrita por John Rous (c.1420-1492). Contudo, quando os primeiros relatos de desarmonia dentro da Casa de York começaram a surgir, ao mesmo tempo em que a emergência de um possível novo líder (que finalmente unisse um reino dividido e destruído por anos de guerra civil), na pessoa de Henrique Tudor avança contra Ricardo III, as narrativas começam a mudar. É nesse momento que o autor publica uma outra obra: o Historia Regum Angliae ou História dos Reis da Inglaterra, que abordaremos adiante.
Em termos de cronologia e contemporaneidade com o reinado de Ricardo III, a obra de 1483 intitulada De Occupatione Regni Anglie per Riccardum Tercium do clérigo e humanista italiano Dominic Mancini, é uma das peças chaves para compreender a formação da tríade que mencionamos anteriormente. Ela descreve os eventos que se passaram na Inglaterra entre a morte de Eduardo IV e a coroação de Ricardo III em cerca de oito capítulos escritos em latim. Apesar de alguns problemas por parte do autor como a possível falta de familiaridade com a língua inglesa, omissão de relatos e o uso de fontes secundárias para compor a sua narrativa, a obra de Mancini ainda permanece um dos mais detalhados relatos em “primeira mão” sobre os acontecimentos da época.
Mancini revela três elementos centrais para a criação da imagem de Ricardo III. O primeiro deles seria o protetorado. Escreve que após a morte de Eduardo IV, seu irmão, o então Duque de Gloucester foi nomeado o protetor do reino até a maioridade do príncipe Eduardo. Os dois elementos seguintes, revela o autor, estão relacionados com a ambição de Ricardo e seu desejo pelo trono, aqui exemplificados através da reclusão dos príncipes herdeiros na Torre de Londres e, por fim, o artifício conhecido como Titulus Regius, apresentado ao Duque de Gloucester que o encaminha como única opção ao trono inglês.
O autor, que intitula seu primeiro capítulo como “Os motivos que supostamente levaram Ricardo a usurpar o trono de seus sobrinhos”, descreve que o duque tinha “ambição e desejo pelo poder” (Armstrong apud Mancini, 1984, 61) e portanto, acaba por fim destruindo – fisicamente e moralmente – os filhos de seu irmão e assumindo o trono. E ressalta:
Corria um boato sinistro na capital de que o duque (Ricardo) teria tomado seu sobrinho não para tê-lo em seus cuidados, mas para tê-lo em seu poder, com o intuito de obter a coroa para si. Em meio aos boatos, o Duque de Gloucester escreveu ao Conselho e ao chefe da cidade, a quem chamam de prefeito (Armstrong apud Mancini, 1984, 81).
De fato, o desaparecimento e subsequente morte dos “príncipes da Torre” (Eduardo e Ricardo, filhos do falecido rei Eduardo IV), tornou-se rapidamente uma lenda que percorre até os dias atuais no imaginário inglês. O destino dos príncipes e a suposta premeditação do Duque de Gloucester para tomar o trono, também tornam-se parte de uma grande mitologia, se assim podemos dizer, sobre Ricardo III. Segundo o autor, os príncipes foram vistos cada vez com menos frequência até que, eventualmente, desaparecem por completo. O autor não sabe bem o que se passou mas ao escrever sobre o acontecimento, ressaltando em particular o destino do jovem rei Eduardo V, nos informa que “se ele foi morto, e de que forma morreu, até o momento, ainda não descobri.” (Armstrong, apud Mancini, 1984, 93).
Essa dúvida do autor não demonstra efetivamente neutralidade quanto aos acontecimentos que ocorrerem na Torre. O que, na verdade, acaba por ser demonstrado através de obras posteriores, é o quanto a narrativa de Mancini acaba por influenciar (mesmo que parcialmente) a visão negativa sobre Ricardo III que é construída nos anos seguintes ao seu reinado, até meados do século XVI.
Sobre o uso do Titulus Regius, o autor escreve que o teólogo, Dr. Ralph Shaa, teria sido instrumental na ascensão do duque ao trono uma vez que foi ele que proclamou em praça pública, um sermão que derivaria do documento apontado. O discurso incluía, entre outros apontamentos, a suposta origem bastarda de Eduardo IV, a inelegibilidade do Conde de Warwick ao trono e o pré contrato de casamento entre Eduardo IV e Lady Eleanor Butler, o que de fato, tornavam o casamento do rei com Elizabeth Woodville, inválido. Em suma, havia apenas uma pessoa capaz e apta a governar o reino e essa pessoa seria o Duque de Gloucester.
O documento acaba por gerar diversos impactos na corte (juramentos de lealdade e fidelidade dos nobres perante o novo rei, entre outras), que eventualmente culminam na coroação de Gloucester como Ricardo III da Inglaterra. E, o ocorrido acaba por ser incorporado ao primeiro parlamento do recém entronado rei, em 26 de junho de 1483. Dada a sua importância, esse relato também é reproduzido em crônicas posteriores, como a Crônica de Croyland e a obra de Sir Thomas More sobre Ricardo III.
Ao final de sua obra, Mancini encontramos a indicação de uma profecia que referia-se ao fato de que três reis em três meses tomariam posse da Inglaterra (Armstrong, apud Mancini, 1984, 105). Sabe-se que existiram diversas profecias sobre os reinados ingleses que derivavam já do início da Idade Média. Um dos exemplos seria a chamada “Profecia de Merlin”, que falaria sobre o destino de seis reis ingleses que sucederiam João I, o Sem-Terra. A mesma ideia de um futuro profético também é encontrada nas crônicas de Polydore Vergil, Edward Hall e Raphael Holinshed.
Aqui, ainda no início do reinado de Ricardo III, é construída o que seria o início de uma imagem negativa, uma bad press, um certo “cancelamento” (na linguagem atual) do rei, através não só de obras como a de Mancini mas também de outros mecanismos de propaganda. Tal repercussão causou ou acabou por influenciar um cisma na Casa de York que passou a ser repartido entre a facção da rainha Elizabeth Woodville (em acordos com a Casa de Lancaster) e a facção de Ricardo III.
Essa instabilidade político-social acaba por facilitar a entrada de Henrique Tudor na Inglaterra e a consolidação da facção da rainha através da união de sua filha, a princesa Elizabeth de York, com o futuro rei Henrique VII. Em outras palavras, Ricardo III estava virtualmente isolado dentro de sua própria facção enquanto seus rivais arquitetavam a sua iminente queda.
Em seguimento a Mancini, John Rous com a sua Historia regum Angliae, mantém a mesma narrativa mas acrescenta as características monstruosas que tanto definiram Ricardo III no imaginário popular, ao escrever que:
permaneceu no ventre de sua mãe por dois anos e emergiu com dentes e cabelos até a altura dos ombros. Nasceu no dia da Festa das Onze Mil Virgens. Em sua natividade, Escorpião estava em ascensão, o signo pertencente a casa de Marte. E tal qual um escorpião, combinou o semblante tranquilo e a cauda venenosa. (Hanham apud Rous,1975, p. 120)
Nesse trecho, o autor faz referência ao nascimento monstruoso de Ricardo III, assim como à sua natureza animalesca e as características da agressividade, violência, raiva, manipulação, que seriam retratadas como inerentes ao rei por Shakespeare. Ademais, a própria condição de sua aparência deformada, refletiria uma distorção interna, na alma, entendida na época como punição divina (que também pode ser acrescida devido aos seus supostos crimes contra seus sobrinhos). Para além disso, Rous compara Ricardo III ao próprio Anticristo que afunda a Inglaterra em um período sombrio, de perseguições e medo. Essa imagem seria uma oposição àquele que viriam resgatar e restaurar a Inglaterra, a visão do Cristo salvador, personificado por Henrique Tudor (futuro Henrique VII) que triunfaria sobre o mal.
William Shakespeare, no final do século XVI, utiliza das mesmas narrativas, juntamente com o favorecimento e legitimidade da dinastia Tudor em formato teatral, para compor a imagem final de Ricardo III; aquela que foi e é transmitida por gerações de atores, há séculos. A visão desse rei maléfico, deformado e manipulador transpassou os palcos do Globe Theatre e chegou aos nossos lares em diversos formatos, inclusive através da produção e reprodução de conteúdo online.
Em 2012, quando o esqueleto do rei foi encontrado, em parte pelo patrocínio da Richard III Society (sociedade dedicada a “limpar o nome” do rei), acendeu-se a discussão sobre quem realmente foi esse monarca. Novos debates sobre sua imagem foram reacendidos mas a força do imaginário popular que gira em torno de Ricardo III não foi capaz de ser superada. Como aponta Aleida Assmann, houve uma “monumentalização” da imagem de Ricardo III, que está diretamente relacionada com a identidade nacional inglesa, com a maneira como foram solidificadas as relações sociais e culturais entre povo e monarquia, entre a ascensão da dinastia Tudor e sua consolidação no trono de Inglaterra entre o século XVI e início do século XVII (Assmann, 2011, p. 87).
A autora ainda nos lembra que inesquecível é o que está afetivamente carregado (Assmann, 2011, p. 88). Ou seja, se voltarmos no tempo em que a peça foi concebida, estamos falando de uma combinação entre a recordação de fatos por gerações mais antigas ou que realmente foram transmitidos de pai para filho, no qual existem sentimentos associados com a memória pessoal e coletiva desse passado histórico recente, que é subjetiva e pode combinar fato e ficção. Nesse processo de seletividade da memória, acaba-se por constituir um bloco que é lembrado e descartamos aquilo que, com o tempo, “cai no esquecimento” mas, que na realidade, trata-se de um fruto dessa seleção, uma manipulação da própria lembrança.
Essas construções, mais ou menos deliberadas dessas figura histórica, encontram-se justamente atreladas aquela tríade do início: a memória de quem fez o relato, a percepção histórica do ocorrido que passa, necessariamente por um filtro de juízo de valor (que, por sua vez, está diretamente relacionado com as nossas vivências e condições socioeconômicas, culturais e políticas) e que é por fim, confrontada pelo fato histórico, registrado em diversos documentos que, ao serem comparados, nos proporcionam uma melhor análise do acontecimento e da própria figura histórica.
Referências:
ASSMANN, Aleida. Espaços da Recordação. Formas e Transformações da Memória Cultural. Tradução de Paulo Soethe. Campinas: Editora da Unicamp, 2011.
BLOCH. Marc. Apologia a História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2002.
CICERO, Marcus Tullius. De Oratore. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 1957.
HANHAM, Alison. Richard III and His Early Historians 1483-1535. Oxford: Claredon Press, 1975.
HATTAWAY, Michael. (ed.) A Companion to English Renaissance Literature and Culture. Oxford: Blackwell Publishing, 2000.
___________,_______. (ed.)The Cambridge Companion to Shakespeare’s History Plays. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.
KINGSFORD, Charles L. English Historical Literature in the Fifteenth Century. Londres: Claredon Press, 1913.
MANCINI, Dominic; ARMSTRONG, Charles A. J. (ed.) The Usurpation of Richard III. 2. ed. Oxford: Alan Sutton, 1984.
OLIVEIRA, Beatriz B. Ricardo III: A Construção de Memória. 2020. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2020.
RICOEUR, Paul; BLAMEY, K. e PALLAUER, D. (Trad.) Memory, History and Forgetting.Chicago: Chicago University Press, 2006. Nova Edição.
[1] Doutoranda em História Medieval pela Universidade de Lisboa (beatriz.oliveira2@edu.ulisboa.pt). https://lattes.cnpq.br/9409276877029448
Publicado em 25 de Novembro de 2025.
Como citar: OLIVEIRA, Beatriz Breviglieri. Memória, percepção histórica e fato histórico: o exemplo de Ricardo III da Inglaterra. Blog do POIEMA. Pelotas: 25 nov. 2025. Disponível em: https://wp.ufpel.edu.br/poiema/memoria-percepcao-historica-e-fato-historico-o-exemplo-de-ricardo-iii-da-inglaterra/ Acesso em: data em que você acessou o artigo.
















