Cuba é conhecida mundialmente pelos carros antigos que percorrem suas ruas e conferem um estilo único à ilha. O primeiro automóvel chegou ao país em 1898, um modelo da La Parisienne, uma pequena construtora francesa, em um período marcado pela Guerra Hispano-Americana. Posteriormente, Cuba passou a importar em grande escala veículos dos Estados Unidos, tornando-se, em 1919, o maior importador latino-americano do Ford Model T.
Com a Revolução Cubana em 1959, o país rompeu relações com os Estados Unidos, o que afetou diretamente o fluxo de importações. A partir desse momento, consolidou-se uma cultura de manutenção e adaptação de veículos anteriores à revolução, muitos dos quais seguem em funcionamento até hoje, tornando-se símbolo da resiliência cubana.
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Em fevereiro de 1962, os Estados Unidos formalizaram o embargo econômico contra Cuba, medida motivada, em grande parte, pelas nacionalizações promovidas pelo governo revolucionário, que afetaram empresas estadunidenses na ilha. Ao longo das décadas, as sanções oscilaram entre períodos de maior flexibilização e endurecimento, conforme o contexto político internacional e a orientação dos governos norte-americanos. No cenário atual, sob o governo de Donald Trump, observa-se um recrudescimento dessas medidas, incluindo restrições a viagens, sanções ampliadas e a reinserção de Cubana lista de países que apoiam o terrorismo.
Após o ataque do governo Trump à Venezuela e a captura do então presidente da Venezuela Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026 os EUA impuseram um bloqueio energético a Cuba prometendo sancionar qualquer país que venda petróleo ao país. Consequentemente, não foram apenas os clássicos carros de Cuba que pararam de funcionar mas também a energia do país inteiro, já que, Cuba depende destes combustíveis para suas termelétricas que geram cerca de 80% da energia do país e grande parte desse petróleo vinha da Venezuela.

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Esse bloqueio energético teve efeitos imediatos, já que Cuba é altamente dependente de combustíveis importados para abastecer suas termelétricas, responsáveis por cerca de 80% da geração de energia, passou a enfrentar apagões prolongados e escassez generalizada.
O impacto na vida cotidiana foi profundo. O aumento dos apagões, a elevação dos preços de produtos básicos, a redução do transporte público e a diminuição da oferta da cesta básica subsidiada pelo Estado tornaram-se parte da rotina da população. Muitas pessoas estão tendo que cozinhar com carvão e lenha, enquanto o governo mexicano enviou mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares. Para muitos cubanos, o momento é ainda mais grave do que a crise conhecida como Período Especial, marcada pelo fim da União Soviética, que auxiliava a pequena ilha.

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No meio do caos causado pela falta de energia, a Rússia enviou 100 mil toneladas de petróleo cru, que chegaram no dia 9 de março e ainda precisaram ser refinadas em Havana. Apesar disso, o petróleo russo não foi suficiente para aliviar a situação, fazendo com que, pela primeira vez na história, a Organização das Nações Unidas realizasse um planejamento de envio de combustível para Cuba, a fim de garantir a distribuição de ajuda humanitária.
No dia 20 de abril de 2026, os governos cubano e estadunidense discutiram o embargo que deixa o país sem combustível. O governo cubano exigiu o fim imediato das sanções, que classifica como uma chantagem global contra o livre comércio.
A crise energética enfrentada por Cuba em 2026 não pode ser compreendida apenas como um episódio isolado, mas sim como o resultado de um longo processo histórico de dependência externa, tensões geopolíticas e vulnerabilidades estruturais. O bloqueio energético intensificou fragilidades já existentes e expôs os limites do modelo energético da ilha, profundamente dependente de combustíveis fósseis importados, ao mesmo tempo em que evidencia o impacto direto de decisões políticas internacionais sobre a vida cotidiana da população.
Na canção Playa Girón, de Silvio Rodríguez, há um questionamento: tomando em conta o implacável que é a verdade, o que deveria ser dito e que fronteiras deveriam ser respeitadas. Apesar do álbum “Días y Flores” ter sido lançado em 1975 a situação segue parecida. Entre carros que resistem ao tempo e um sistema energético à beira do colapso o povo cubano ainda sofre, suas fronteiras seguem sem ser respeitadas e pouco é dito para os verdadeiros culpados.
Referências
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LEÓN, Lucas. Cuba completa 3 meses sem receber combustível por bloqueio dos EUA. Agência Brasil, 13 mar. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-03/cuba-completa-3-meses-sem-receber-combustivel-por-bloqueio-dos-eua.
OPERA MUNDI. Cuba cobra ‘prioridade máxima’ para fim do bloqueio energético em reunião com delegação dos EUA. Opera Mundi, 21 abr. 2026. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/america-latina/cuba-cobra-prioridade-maxima-para-fim-do-bloqueio-energetico-em-reuniao-com-delegacao-dos-eua/.
PADINGER, Germán. O que é o embargo dos EUA a Cuba e como ele afetou a economia da ilha. CNN Brasil, 14 jul. 2021. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-e-o-embargo-dos-eua-a-cuba-e-como-ele-afetou-a-economia-da-ilha/.
SOFIA, Júlia. ONU planeja importar combustível para Cuba pela primeira vez na história. VEJA, 9 abr. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/onu-planeja-importar-combustivel-para-cuba-pela-primeira-vez-na-historia/.
ZEGARRA, Gonzalo. Petróleo russo em Cuba: por que o alívio na crise não será imediato. CNN Brasil, 30 mar. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/petroleo-russo-em-cuba-por-que-o-alivio-na-crise-nao-sera-imediato/.