Diplomacia moderna chinesa e o desenvolvimento pacífico

Atualmente a China é um dos países mais influentes e desenvolvidos de todo o globo. Mas se você dissesse isso há menos de um século atrás, com certeza iriam duvidar de você.

A China tem uma história milenar. Seu povo tem origem antes mesmo que Impérios como o Romano e o Egípcio. Com diversas dinastias, lendas e costumes, a China foi caminhando para o que é hoje. Mas uma coisa não podemos negar, durante todos esses milênios de história, o país passou por diversas idas e vindas.

Representação do imperador Ch’in Wang Ti, na China Antiga. /Reprodução

A Diplomacia Moderna Chinesa

Esta fase começou a partir de 1949 com o período de Mao Zedong e a criação do Partido Comunista Chinês. Segundo Chung (2007, p.157), a China iniciou este período aliada à União Soviética, confrontando o imperialismo americano. Depois ficou do lado americano e rompeu com a URSS, além de liderar o Movimento Não-Alinhado no Terceiro Mundo, que reunia um grupo de países que queriam estar em posição neutra durante a Guerra Fria. Isso demonstra a busca do governo chinês por maior inserção e influência no sistema internacional. Além disso, apesar do posicionamento, o governo chinês, desde a formação da República Popular da China, possui uma política externa que consistia em paz, desenvolvimento, cooperação, além da defesa de uma política externa pacífica e independente (QINGMIN, 2011, p.4). Essa política é base até hoje para o governo, na qual popularizou a nomenclatura nos discursos chineses de “desenvolvimento pacífico” a partir dos anos 2000. 

Construção da Muralha da China. / Reprodução

Por que “desenvolvimento pacífico”? 

Diversos analistas comentam que na verdade, antes o termo usado era “ascensão pacífica”. Para Mohan (2004, p.307), o objetivo desta nomenclatura era convencer o mundo que a China estava preparada para fazer parte do Sistema Internacional sem o desestabilizar. Porém com o passar dos anos, o discurso chinês adotou o termo “desenvolvimento pacífico”, já que “ascensão” trazia algumas ideias que o governo chinês não queria passar. “O que a China menos queria era que seu desenvolvimento fosse tido como uma ameaça, que desafiasse o sistema vigente e que quisesse alterar a ordem mundial” (AMARAL, 2012, p.85). Esse novo termo vinha com um novo objetivo: parecer menos ofensivo. Aliás, a China busca tornar-se uma grande potência, mas, analisando os discursos da política externa, vemos que fará de modo gradual, visando o desenvolvimento de outros países juntamente ao seu, sem pretensão à hegemonia mundial (AMARAL, p.87). 

Segundo Choo (2009, p.396) a paz é o que garante o desenvolvimento e este é quem assegura a paz, na concepção chinesa. Ou seja, o governo tem como objetivo, promover o desenvolvimento mundial, já que para eles, isso garantiria a paz no ambiente internacional. Porém, com essa ideia, surgem diversas indagações.

Suno/Reprodução

Questionamentos

Apesar de ser uma maneira bonita e até ingênua de ver o sistema internacional, muitos acreditam que o verdadeiro desenvolvimento pacífico não existe. Como é o caso do ex-ministro de estado dos EUA, Henry Kissinger. Ele acredita que “quase por uma lei natural qualquer, em cada século parece emergir um país com poder, a vontade e o ímpeto intelectual e moral de moldar todo o sistema internacional de acordo com seus próprios valores” (KISSINGER, 2007, p.11). Ou seja, mesmo que a China diga não buscar ser uma hegemonia, e que seu desenvolvimento não seja uma ameaça ao atual hegemon, o desenvolvimento de um país de forma tão rápida quanto tem sido a da China, ameaça os países que estão liderando a lista. 

Além disso, estudiosos da área destacam os conflitos que acontecem entre China e Taiwan, questionando o quão verdadeiramente pacífico sua política externa é. Para Mearshimer (2004, p.163) “é provável que a China tente dominar a Ásia, assim como os Estados Unidos dominaram o Ocidente”, e isso consequentemente causaria uma instabilidade no sistema.
Mesmo autores como Buzan, que realmente acreditam que pode existir esse desenvolvimento sem consequentemente ameaçar diretamente o hegemon, acabam debatendo que este processo não seria fácil e seria um caminho de via dupla. Por um lado, a China precisaria adaptar-se às normas das estruturas e por outro, os demais países precisariam se adaptar às alterações que seriam desencadeadas pelo crescimento da China.

Conclusão

Apesar de a China possuir um discurso pacífico, e em diversos momentos de conflito manter as relações diplomáticas fortes, muitos estudiosos questionam e debatem se pode existir um desenvolvimento verdadeiramente pacífico e sem ameaçar outros países. O fato é que a China vem quebrando diversas barreiras, tanto em sua política doméstica, quanto em sua política externa, então seria tanta novidade assim ela conseguir quebrar essa nova barreira? Dessa forma, o debate permanece aberto, especialmente diante da rapidez e da escala do crescimento chinês.

Eduarda Tamagno Martins
Secretária Geral

Referências

AMARAL, Gabriela Granço do. A “Ascensão pacífica” na evolução da diplomacia chinesa nas últimas décadas. Aurora, Marília, v.6, n.1, p.71-94
BUENO, Guilherme. Política externa chinesa. Revista Relações Exteriores, 2025. Curso online. Disponível em: https://relacoesexteriores.com.br/curso/politica-externa-chinesa/. Acesso em: 16 abr. 2026. 

CHUNG, Jae Ho. China and Northeast Asia: A Complex Equation for ‘Peaceful Rise’. Political Studies Association. Vol.27(3). 2007, p 157.

KISSINGER, Henry. Diplomacia. Editora Gradiva. 3º Edição. Lisboa, 2007.

MEARSHIMER, John. China’s Unpeaceful Rise. Current History. Research Library. 2006. p. 163.

MOHAN, C. R. China’s “Peaceful Rise”: The Ryme of the Ancient Mariner. Economic and Political Weekly. Vol.39. No.33. 2004. p.307.

QINGMIN, Zhang. China’s Peaceful Diplomacy. The Sinopedia Series. Cengage Learning. 2011.