Distopias e Direitos Humanos: o que futuros fictícios revelam sobre nosso presente

A ideia de um futuro distópico, à primeira vista, parece algo distante  ou melhor, quase um exagero. Mas basta um olhar mais atento para perceber que essas histórias não nascem do nada, elas são construídas a partir de estruturas que já existem em nossa sociedade. Ao invés de prever o futuro, as distopias são capazes de nos revelar o presente com mais nitidez, mostrando coisas que preferimos não enxergar. Escritores como Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo, e Vinícius Neves Mariano, autor de Velhos Demais para Morrer, constroem narrativas que inquietam justamente por sua proximidade com a realidade. Em diferentes contextos, ambos os livros expõem sociedades em que o controle, a exclusão e a banalização da vida humana deixam de ser exceção e passam a organizar o cotidiano. Mais do que apenas um gênero literário, a distopia se torna uma ferramenta crítica ativa. Ao conseguir explorar temas como controle social, violência e desigualdade, essas obras tensionam os limites dos direitos humanos e nos obrigam a questionar até que ponto eles são, garantidos e para quem. Nesse sentido, Admirável Mundo Novo e Velhos Demais para Morrer oferecem percepções distintas, mas complementares, sobre sociedades que se estruturam a partir da negligência à dignidade humana.

Quando o controle parece estabilidade

Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a manutenção da ordem não depende de violência explícita ou repressão visível. Pelo contrário, percebemos que o controle se estabelece de forma silenciosa, incorporado ao próprio modo de viver. À primeira vista, trata-se de uma sociedade estável, que é eficiente, onde não há conflitos aparentes, uma espécie de “equilíbrio perfeito”. Mas essa aparência esconde um custo muito profundo, o fim da liberdade. Direitos fundamentais como autonomia, individualidade e pensamento crítico não são retirados de maneira rápida, eles são lentamente reduzidos, até deixarem de ser percebidos como direitos fundamentais e necessários. O que torna esse cenário ainda mais desconfortável é justamente a ausência de resistência, os indivíduos não lutarem por seus direitos porque foram condicionados a nunca senti-los como uma necessidade. Essa lógica ecoa perfeitamente com debates centrais das Relações Internacionais, em que a promessa de estabilidade e segurança frequentemente serve como justificativa para a limitação de direitos. Nesse ponto, a obra de Huxley ultrapassa a ficção e provoca uma reflexão incômoda: até que ponto uma sociedade pode ser considerada legítima quando sua harmonia depende da falta da liberdade?

A violência que já existe

Se Admirável Mundo Novo apresenta uma distopia silenciosa e discreta, Velhos Demais para Morrer, de Vinicius Neves, rompe com qualquer tentativa de suavização. Aqui, não observamos papéis de estabilidade nem promessas de equilíbrio dentro da sociedade, o que se vê é a exposição direta e brutal de uma realidade que, em muitos aspectos, já nos é muito conhecida. Por se tratar de uma obra nacional, a narrativa se aproxima de forma íntima do contexto brasileiro. Não há um futuro distante ou tecnologias avançadas mediando as relações sociais. A distopia surge justamente do agravamento de desigualdades já existentes, especialmente na forma como certos corpos são historicamente marginalizados e desvalorizados por não fazerem parte do que seria o ideal da sociedade. Nesse cenário, a vida humana deixa de ter um valor e passa a ser medida por critérios como utilidade, idade e posição social. Alguns indivíduos tornam-se descartáveis. E a violência não se torna um desvio, mas sim uma espécie de estrutura. Com isso, a distopia deixa de ser uma projeção do que pode vir a ser a realidade e se transforma em um cenário á presente. 

Quando a realidade se aproxima da distopia

Essa aproximação entre ficção e realidade torna-se ainda mais evidente quando observamos acontecimentos recentes no cenário internacional. Nos últimos anos, as tensões entre os Estados Unidos e a Venezuela têm evidenciado como disputas políticas podem se sobrepor a princípios do direito internacional, tensionando a soberania e o princípio da não intervenção. Em janeiro de 2026, relatos divulgados pelo G1 mostraram uma operação conduzida pelos Estados Unidos em território venezuelano, que teria resultado na captura de Nicolás Maduro. O episódio gerou forte repercussão internacional e levantou questionamentos sobre sua legalidade, especialmente quanto à soberania estatal e ao devido processo legal. Sob uma perspectiva jurídica, ações desse tipo podem ser interpretadas como formas de atuação extraterritorial que, em certos contextos, aproximam-se da noção de sequestro internacional, sobretudo quando ocorrem sem mecanismos legais reconhecidos, como a extradição. Maduro foi acusado pelos Estados Unidos, em 2020, de crimes como narcoterrorismo e tráfico de drogas e acusações que seguem sem desfecho e estão inseridas em um contexto de disputas políticas e jurídicas entre os países. (BBC). Mais do que um episódio isolado, o caso evidencia como decisões políticas e militares podem relativizar princípios fundamentais. A justificativa da segurança — frequentemente associada ao combate ao crime ou à estabilidade regional — passa a legitimar ações que tensionam o direito internacional e os direitos humanos. Nesse contexto, a realidade se aproxima perigosamente das distopias e realidades fictícias através da  normalização de medidas excepcionais que legitimem o direito internacional.

O que isso revela sobre as Relações Internacionais

No cenário internacional, essa seletividade também se manifesta de forma evidente. Crises humanitárias, intervenções militares e conflitos armados revelam que os direitos humanos não são aplicados de maneira uniforme e universal, mas frequentemente mediados por interesses estratégicos. O caso recente da Venezuela é emblemático.

Milhares de venezuelanos marcham em apoio ao governo de Nicolás Maduro. Juan Barreto/AFP

 

Em 2026, o presidente Nicolás Maduro foi capturado após uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos em território venezuelano — uma ação que gerou questionamentos significativos quanto à sua legalidade no direito internacional e ao respeito à soberania estatal . Ainda que justificada sob argumentos de segurança e combate ao narcotráfico, a operação evidencia como normas internacionais podem ser relativizadas quando confrontadas com interesses políticos e estratégicos. Esse tipo de cenário expõe uma tensão central das Relações Internacionais: os direitos humanos são frequentemente invocados como princípio, mas sua aplicação concreta depende, muitas vezes, de quem detém poder suficiente para defini-los ou suspendê-los. Assim, ao analisar Admirável Mundo Novo e Velhos Demais para Morrer, percebe-se que as distopias não estão confinadas a  um futuro imaginado. Seja pelo controle silencioso que apaga liberdades, seja pela violência explícita que hierarquiza vidas, as duas obras nos revelam a mesma fragilidade: os direitos humanos podem ser facilmente tensionados e até esvaziados diante de sistemas que priorizam sua ordem, estabilidade e poder. Mais do que projetar cenários extremos, essas narrativas nos colocam diante de uma pergunta essencial e desconfortável até que ponto aquilo que chamamos de distopia já faz parte da nossa realidade?

 

Polianna Gonçalves
Secretária Administrativa de Logística 

Referências:

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.

MARIANO, Vinícius Neves. Velhos demais para morrer. Rio de Janeiro: Malê, 2020.

DIALNET. Distopía y derechos humanos: una lectura crítica contemporánea. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=7490752.

REVISTA VEREDAS. Literatura, distopia e crítica social contemporânea. Disponível em: https://www.revistaveredas.org/index.php/ver/article/view/600.

REVISTA DIREITO E LITERATURA (RDL). Direito, literatura e a construção da consciência crítica. Disponível em: https://rdl.emnuvens.com.br/anamps/article/view/988.

BRAUN, Julia. Como foi a deposição de Maduro: a linha do tempo do ataque de Trump à Venezuela. BBC News, 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce8gezn9p3vo.

G1. O que se sabe sobre a captura de Maduro e o ataque dos EUA à Venezuela. G1, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/03/maduro-capturado-o-que-se-sabe-sobre-o-ataque-dos-eua-a-venezuela.ghtml.