O reggaeton não nasceu onde dizem, e talvez essa indefinição seja parte da própria história que ele carrega. Antes de chegar às paradas globais ou ecoar em palcos como o show do intervalo do Super Bowl, suas bases começaram a se formar no Panamá, em um contexto mais complexo do que uma simples origem geográfica. Para entender isso, é preciso voltar ao século XIX e início do XX, quando o país, recém-saído da independência da Espanha e depois integrado à Grã-Colômbia, se transformava rapidamente com a chegada de trabalhadores afro-caribenhos atraídos por grandes projetos de infraestrutura, como a ferrovia transístmica e, mais tarde, o Canal do Panamá. Ali, populações que falavam inglês e crioulo jamaicano passaram a conviver com afro-panamenhos de língua espanhola, não de forma harmoniosa, mas marcada por diferenças culturais profundas. Sob controle dos Estados Unidos após 1903, a Zona do Canal intensificou essas tensões ao impor um sistema de segregação racial, onde até 60 mil pessoas viviam sob um sistema rígido que dividia trabalhadores entre gold roll (majoritariamente brancos) e silver roll (negros, encarregados dos trabalhos mais perigosos), reproduzindo lógicas semelhantes às leis de Jim Crow. Nesse contexto, desigualdades no acesso à saúde, exposição a doenças como a malária e a brutalidade policial marcaram a vida de trabalhadores afro-caribenhos e afro-panamenhos, especialmente mulheres negras, frequentemente alvo de abusos.

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Operários trabalham em andaimes durante a construção das comportas das eclusas de Gatun no Canal do Panamá, por volta de 1914.
Nesse cenário, era na língua falada, nas identidades em disputa e no sentimento de pertencimento que essas dinâmicas se moldavam. Crianças na Zona do Canal eram educadas exclusivamente em inglês, o que aprofundava o distanciamento cultural e gerava ressentimentos entre populações locais. Ao mesmo tempo, as tensões entre afro-panamenhos e imigrantes caribenhos foram agravadas por políticas discriminatórias, levando ao surgimento do panameñismo, um movimento que buscava afirmar a língua e a cultura espanholas frente à influência estrangeira. Esse processo resultou, inclusive, em leis migratórias restritivas e na retirada de direitos de pessoas com ascendência caribenha. Ainda assim, muitos desses trabalhadores permaneceram no país após a conclusão do canal, em 1914.
Nos anos seguintes, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970, essas influências começaram a ganhar forma sonora. Ritmos jamaicanos como mento, ska e dancehall passaram a circular no Panamá, inicialmente em inglês e crioulo, mas rapidamente adaptados ao espanhol no que ficou conhecido como reggae en español. Ao mesmo tempo, o hip-hop dos Estados Unidos também chegava à região, impulsionado pela presença norte-americana que se estendeu mesmo após o fim formal da Zona do Canal em 1979. Assim como o reggae e o hip-hop, essa linguagem carregava marcas de resistência, denunciando violência policial, desigualdade e racismo. Não por acaso, uma das primeiras faixas associadas ao gênero, El D.E.N.I., do panamenho Renato, fazia referência direta a um órgão de repressão estatal ligado à repressão política e à corrupção durante os regimes de Omar Torrijos e Manuel Noriega.
Antes de lotar estádios e dominar playlists, o reggaeton foi tratado como problema, não como cultura. Por surgir de comunidades negras, urbanas e da classe trabalhadora, foi rapidamente associado à marginalidade, à violência e à transgressão. Nos anos 1990, já em Porto Rico, circulava como underground, fora das rádios e da televisão, vendido em fitas cassete por DJs nas ruas. Chegou a ser perseguido pela polícia, alvo de censura e deslegitimado até mesmo em espaços acadêmicos. Mas essa rejeição dizia menos sobre a música em si e mais sobre quem a produzia. O incômodo com o reggaeton era, em grande parte, o incômodo com as populações afro-caribenhas e afro-latinas que estavam no centro de sua criação. E é justamente aí que está uma das chaves para entendê-lo: o reggaeton nasce da margem, e carrega essa marca.
Mas o que nasce à margem nem sempre fica lá. A partir dos anos 2000, o gênero começa a atravessar essas barreiras e se consolidar em escala global. Em Porto Rico, artistas como Daddy Yankee ajudaram a projetá-lo internacionalmente com sucessos como Gasolina, que se tornou um marco fundador do reggaeton e foi a primeira música do gênero a ser incluída na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, ao lado de obras como Like a Virgin, de Madonna, e All I Want for Christmas Is You, de Mariah Carey.
Talvez o reggaeton tenha se tornado global justamente porque nunca foi de um lugar só. Desde o início, ele foi moldado por migrações, disputas linguísticas e experiências compartilhadas de desigualdade e resistência. Não haveria reggaeton sem esses fluxos culturais que conectam o Caribe, a América Latina e os Estados Unidos. Hoje, artistas como Bad Bunny ampliam ainda mais esse alcance, algo que se expressa diretamente em La Jumpa, na qual o cantor descreve um público diverso que vai de “avós” a “gângsteres”, e também em faixas como Yo Perreo Sola e Yo Visto Así, que dialogam com hinos feministas do gênero, como Yo Quiero Bailar, de Ivy Queen. No mesmo contexto, artistas como Rosalía evidenciam a audácia do gênero, enquanto Karol G se consolida como potência feminina da indústria.

Foto de Kevin Sabitus/Getty Images
Bad Bunny se apresenta no show do intervalo da Apple Music durante o Super Bowl 60 da NFL, entre o Seattle Seahawks e o New England Patriots, no Levi’s Stadium, em 8 de fevereiro de 2026, em Santa Clara, Califórnia.
O que antes era visto como expressão marginal hoje é também símbolo de orgulho linguístico e cultural, refletindo a valorização de formas de falar, viver e produzir cultura historicamente deslegitimadas. Se o reggaeton ocupa os maiores palcos do mundo, isso não apaga sua origem em espaços marcados por segregação e conflito, pelo contrário, é essa trajetória atravessada por tensões e encontros que explica por que ele se tornou uma das expressões mais potentes da identidade latina contemporânea.
escrito por
Mariana Corlassoli
Referências:
COLLEGE, Wellesley. Wellesley Professor Explains the Rise of Reggaeton in North American Pop. 8 jun. 2017. Disponível em: https://www1.wellesley.edu/news/2017/stories/node/118491. Acesso em: 18 mar. 2026.
FRIZZELL, Brendan. Bad Bunny says reggaeton is Puerto Rican, but it was born in Panama. 27 fev. 2026. Disponível em: https://theconversation.com/bad-bunny-says-reggaeton-is-puerto-rican-but-it-was-born-in-panama-276347. Acesso em: 18 mar. 2026.
NEIRA, Pablo de Llano. Puerto Rico: The origin, evolution and future of reggaeton. 9 ago. 2023. Disponível em: https://english.elpais.com/culture/2023-08-09/puerto-rico-the-origin-evolution-and-future-of-reggaeton.html. Acesso em: 18 mar. 2026.