“O Agente Secreto” e a importância para a resistência da América Latina

(Neon/Divulgação)

CONTÉM SPOILER!

O filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura (ganhador do prêmio de melhor ator no Globo de Ouro de 2026), tem se mostrado um sucessor à altura do aclamado “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, e que retrata as angústias vividas durante a ditadura cívico-militar do Brasil. O filme “O Agente Secreto” se passa em 1977, quando a ditadura ainda acontecia, e mesmo não sendo retratada tão descaradamente quanto foi em “Ainda Estou Aqui”, é um contexto fundamental para a obra.

O filme acompanha Marcelo/Armando (Wagner Moura), um professor universitário, em sua tentativa de fugir da perseguição política. Com um passado difícil que o acompanha, Marcelo busca abrigo com outros exilados, que demonstram a marginalização e a resistência nesse período. Mesmo com essa fuga, o personagem procura documentos de familiares, a fim de se reaproximar de suas origens. O espectador acompanha toda essa tentativa de fuga do país por parte do protagonista com uma crescente ansiedade, se perguntando se ele conseguiria seu objetivo. Acostumados com finais felizes, não é isso que recebemos em “O Agente Secreto” pois o final, que se passa no nosso presente, revela por um recorte de jornal que Marcelo foi morto ainda em 1977. Não temos um aprofundamento da morte do personagem, assim como não temos explicação sobre tantas mortes que aconteceram no período da ditadura. Fernando, o filho de Marcelo, que aparece no final já adulto, revela que esperou seu pai o buscar para morar juntos, porém o pai não apareceu. Isso traz um significado profundo: todos os momentos que pessoas foram privadas de viver por conta da ditadura, sua repressão e as mortes que vieram dela.

Esse reconhecimento que o cinema brasileiro vem recebendo, principalmente de filmes que retratam esse momento tão difícil no país, é de extrema importância para o que a América Latina vem vivendo hoje. A resistência desse povo tão reprimido historicamente se mostra cada vez mais importante, ainda que com traços do colonialismo difíceis de apagar. 

Podemos pensar neste filme quando vemos tantos imigrantes latinos sofrendo em países que anteriormente invadiram e saquearam as riquezas americanas. Grupos fazendo protestos para que seja proibido a entrada de pessoas que apenas procuram por uma vida melhor, uma vida que foi roubada deles quando os “descobridores” chegaram aqui. Eles têm medo de que nós, latinos, sejamos tão ruim com eles, indo em seus países, quanto eles foram maldosos conosco, quando invadiram os nossos.

Como a nossa ditadura, em 1964, foi financiada por estrangeiros, o mesmo aconteceu com diversos países, que não puderam exercer sua soberania plenamente. O mais triste é que mesmo tendo se passado mais de 60 anos, ainda vemos cicatrizes profundas que os colonizadores e imperialistas deixaram e que ainda deixam. A regra é simples, quem não jogar conforme os países fortes querem, acabam sofrendo as consequências, como vemos o caso dos nossos irmãos cubanos.


Ter filmes como esse, que problematizam esse comportamento, demonstra que podemos usar a arte para dar voz aos povos latinos que ainda sofrem com o silenciamento. Falar sobre a ditadura não é só mostrar os terrores que nos foram impostos, mas debater sobre como os latinos ainda são tratados como se precisassem ser “salvos” por estrangeiros. O filme além de tudo, traz à tona e grita ao mundo que a América Latina é um povo livre e que existe há milênios nessas terras. Um povo resistente e que se reinventa sempre que necessário.

escrito por
Eduarda Tamagno Martins
secretário-geral