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Em novembro de 2020, o governo federal da Etiópia e a província nortenha de Tigray entraram em guerra após apenas 2 anos de estabilidade no país, que ocorre desde o fim da guerra contra a vizinha Eritreia, a qual durou 20 anos (1998-2018). Guerra essa cujo fim consagrou o atual Primeiro Ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, com o Nobel da Paz pelos seus esforços de reconciliação, porém não conseguiu impedir a iminência de um conflito interno com a região de Tigray dois anos mais tarde.
Tigray exercia bastante pressão política e militar até a chegada de Ahmed no poder em 2018, muito por conta de ser a região mais militarizada da Etiópia devido a sua condição geográfica de fronteira com a Eritreia. A província dominava a aliança governante do país até 2018, se consolidando como um dos principais centros de poder e influência política durante as últimas 3 décadas. Além disso, A Frente de Libertação do Povo de Tigray (TPLF, na sigla em inglês) é considerada como o movimento de libertação armado mais poderoso do país e representa um grande desafio às forças militares federais.
Fonte: Al Jazeera
Com a chegada de Abiy Ahmed no poder da Etiópia, a TPLF e as lideranças de Tigray perderam influência e foram alvos de investigações de corrupção e abuso de poder. Sob tensões, representantes de Tigray retiraram-se em 2019 da coalizão governista liderada pelo atual Primeiro Ministro, aumentando ainda mais as desconfianças entre Tigray e o governo etíope. Em 2020, o principal estímulo para os conflitos que vieram a acontecer foi quando a província rebelde realizou eleições para a formação de um governo próprio, em contradição com o Governo Federal da Etiópia, o qual adiou as eleições gerais por conta da pandemia de COVID-19. O novo governo de Tigray não reconhecia mais a administração de Ahmed, enquanto este considera as ações tomadas por Tigray como ilegais e cortou o financiamento para a região.
O dia 4 de novembro de 2020 ficou marcado pelo início das hostilidades entre as partes do conflito, quando as forças de Tigray lideradas pelo TPLF tomaram o controle de uma base militar federal através de um ataque surpresa bem sucedido. O Primeiro Ministro etíope declarou, então, estado de emergência para a região e prometeu restaurar a ordem e o controle de Tigray a partir de ofensivas militares conduzidas pelo governo federal. Desde então, as partes encontram-se em conflito militar com combates e ataques aéreos constantes nas cidades da província nortenha, deixando mais de 5 milhões de civis vulneráveis e causando instabilidade na região do chifre da África, uma vez que a Eritreia se envolveu no conflito e foi alvo de ataques aéreos das forças rebeldes de Tigray, ao mesmo tempo que países próximos como o Sudão receberam um grande fluxo de refugiados à procura de asilo.

Foto: Soldado etíope perto de Tigray em novembro.
Fonte: Ethiopian News Agency/AP/picture alliance
As Nações Unidas já expressaram suas preocupações com a crise na Etiópia e no Chifre da África no que diz respeito a possíveis violações de direitos humanos, direitos internacionais e crises humanitárias. Sem o apoio de uma resolução do Conselho de Segurança até o presente momento, os esforços conduzidos pela ONU se resumem a coordenação de ações humanitárias para auxiliar a população da região e os muitos refugiados que fogem da guerra em Tigray, contando com a ajuda de Organizações não Governamentais que também participam no auxílio humanitário e condenam a continuação das hostilidades. Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), estima-se que mais de 45 mil pessoas já tenham cruzado a fronteira da Etiópia com o Sudão na condição de refugiados, enquanto cerca de 97 mil refugiados da Eritreia se encontram em Tigray sob condições precárias e em constante perigo de vida.

Foto: Refugiados etíopes em um campo no leste do Sudão.
Fonte: Ebrahim Hamid/AFP/Getty Images
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Vinicius Zanchin Baldissera
Tenho 22 anos e estudo RI por paixão. Gosto de fazer atividades ao ar livre e jogar em meu tempo livre. Minhas áreas de interesse em RI são organizações internacionais, humanitarismo e Oriente Médio.