Um olhar sobre o cuidador familiar: quem cuida merece ser cuidado (ALBUM SERIADO)

Este material foi produzido pela equipe do Projeto de Extensão “Um olhar sobre o cuidador familiar: quem cuida merece ser cuidado”, da Faculdade de Enfermagem, da UFPEL. Foi financiado pelo PROEXT-2016. Trata-se de um guia para condução das ações com cuidadores familiares, que nao necessariamente precisem respeitar a organização do referido projeto em quatro encontros. Consta também das intervenções que realizamos e de todo o referencial que nos apoia. Acessem o conteúdo:

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REFLEXÕES DOS CUIDADORES FAMILIARES A PARTIR DE IMAGENS SOBRE O CUIDAR NO DOMICÍLIO

Artigo publicado da pesquisa “FORMAS DE SER CUIDADOR EM PROGRAMAS DE ATENÇÃO DOMICILIAR: PRÁTICAS QUE FALAM DE SI”, realizada com cuidadores a partir de imagens disparadoras de reflexão:

 

https://secure.usc.br/static/biblioteca/salusvita/salusvita_v37_n4_2018/salusvita_v37_n4_2018_art_08.pdf

Dica de leitura: “O deserto dos tártaros”.

BUZZATI, Dino. O deserto dos tártaros. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1986.

O Deserto dos Tártaros conta a história de Giovanni Drogo, um jovem nomeado oficial, que deixa sua cidade natal para assumir o posto de tenente em um forte na fronteira, à margem de um deserto. A princípio, Drogo fica empolgado com a nova vida que irá iniciar, após anos de estudos, ainda que uma leve incerteza sobre o futuro o acompanhe.

Em direção ao forte, a cavalo, lentamente Giovanni Drogo vai se afastando de sua antiga vida; a intensa solidão e quietude no trajeto levam-no a imaginar como será o lugar para onde está indo. Ao se deparar com o forte, a expectativa se esvai ante a imagem desoladora de um lugar aparentemente abandonado ao silêncio. Tão logo adentra o ambiente, toma a decisão de não permanecer por muito tempo, já que o local é completamente inóspito, muito diferente da vida de alegrias que projetava com o início da carreira militar. E é para não prejudicá-la que Drogo se deixa convencer por um superior a aguardar quatro meses apenas, quando poderá requerer sua transferência para a cidade. Todavia, ao final do tempo determinado, nosso amigo já está entorpecido pelo mistério do lugar, acostumado à monotonia da rotina no forte, tanto que já se sente em casa. Na esperança de poder fazer algo nobre pelo seu país, guardando aquela fronteira, ainda que totalmente desabitada, Drogo toma a decisão de permanecer, afinal, ainda é jovem: “A vida parecia-lhe inesgotável”, o bom da vida pode esperar.

Assim, o tempo vai passando, cada dia exatamente igual ao outro, exceto raros eventos com suspeitas de invasão da fronteira deserta, que não se confirmam. Nas poucas visitas que faz à cidade, Drogo começa a sentir-se um estranho, pois o tempo lentamente trata de deixar-lhe esquecido pelos amigos e até mesmo pela família: “um mundo alheio em que seu lugar fora facilmente ocupado”. Sente que seu lugar agora é o forte, e passa a deixá-lo por menos períodos, chegando mesmo a retornar antes do prazo previsto, como se algo o prendesse àquele lugar e o chamasse ao seu posto, como se sua vida fosse esperar a invasão da fronteira que talvez nunca fosse acontecer.

Após trinta anos, o agora major Giovanni Drogo encontra-se enfraquecido e tomado por uma incômoda doença que não se revela totalmente, porém tira suas forças para combater, caso necessário. Nesse período de sua vida, a tão esperada guerra se apresenta, deixando a todos eufóricos com a possibilidade de finalmente combater e honrar seu país. Em lugar das glórias do combate, Drogo é conduzido para a cidade em uma carruagem, última deferência a um oficial moribundo em fim de carreira: “No fim ele estava só no mundo”.

A obra nos faz refletir acerca de nossas próprias vidas. Como Giovanni Drogo, quantos de nós deixamos a vida passar, esperando uma guerra, que talvez não venha e, se vier, pode nos encontrar já derrotados? Será que a tão esperada guerra já não está presente todos os dias e nós, na expectativa de algo mais grandioso, não a percebemos? O que estamos esperando para viver?

Falta muito? Não, basta atravessar aquele rio lá longe, no fundo, ultrapassar aquelas verdes colinas. Ou já não se chegou, por acaso? […] Por alguns instantes tem-se a impressão que sim, e quer-se parar ali. Depois ouve-se dizer que o melhor está mais adiante, e retoma-se despreocupadamente a estrada. Assim, continua-se o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o sol brilha alto no céu e parece não ter mais vontade de desaparecer no poente.

Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. […] compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.

A um certo momento batem às nossas costas um pesado portão, fecham-no a uma velocidade fulminante, e não há tempo de voltar.

 

Kátia Rosita

Dica de cuidado: escalda pés com plantas

Hoje a dica de cuidado é uma prática, de certa forma, muito antiga… o Escalda pés. Esta é uma das novas intervenções que estaremos usando em nosso projeto de extensão, mas vocês podem realizar em casa, com tranquilidade e segurança.

Modo preparo:

– Ferver a água até uns 70 graus

– Colocar na bacia

– Colocar as plantas na água quente (plantas aromáticas. Ex: manjericão, louro, capim cidreira, hortelã, melhoral, entre outras).

Deixar a bacia com as plantas por alguns minutos ao seu lado para sentir o aroma.

Colocar um pouco de água fria na bacia + o sal grosso

Verificar a temperatura e aí pode colocar os pés para relaxar.

*Atenção, para quem possui diagnóstico de diabetes, precisa que outra pessoa verifique a água, devido a possibilidade de falta de sensibilidade nos pés e nas mãos em relação a temperatura.

Senado aprova regulamentação da profissão de cuidador de idoso, criança e pessoa com deficiência

https://extra.globo.com/emprego/senado-aprova-regulamentacao-da-profissao-de-cuidador-de-idoso-crianca-pessoa-com-deficiencia-23684943.html?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=Extra&fbclid=IwAR0fU1UQZFaE84iDWb122TO8PIow_FKmTHL12C84IkqWTMlth1zIJL6zUjo

DICA DE LEITURA: por Camila Coelho e Lucas Dellalibera Perspectiva da presença do cuidador em a Morte de Ivan Ilitch

Ivan Ilitch é um personagem fictício de um renomado livro do autor Leon Tolstói com sua primeira edição publicada em 1886 na Rússia. Tal livro é considerado uma obra da literatura, tendo sua publicação na versão Portuguesa em 1940 e no Brasil em 1944. O criador da obra traz reflexões ao leitor que ainda são de suma relevância nos dias atuais.

Inicialmente, a história aborda a vida deste burocrata que seguia regras convencionais da época sem questionamentos. Da metade do livro para o final, após a identificação da doença, o protagonista passa a questionar a vida que leva, as relações que o cercam, o amor e suas problemáticas, a vida e suas complexidades.  Deste modo, a obra sobre como a família e amigos começaram a lidar com o fim da vida deste homem – pai, marido, amigo e burocrata. Na trama notam-se atitudes contrastantes entre os que o amavam e também os que o desprezavam.

Ilitch levava uma vida de privilégios até que em um determinado momento passou a sentir uma dor no baixo ventre, do lado direito. A dor que parecia irrelevante aumentou gradativamente com o passar dos dias, causando um emagrecimento e danos a seu estado físico ele vem a tomar consciência de sua situação, alternando seu cotidiano de trabalho, família e jogos com os amigos. No desenrolar da trama somos levados pelo autor a este mundo de reflexões (CECILIO, 2009)

Assim, passa a sentir o peso da doença e a se sentir um problema para os seus familiares. Estes últimos momentos, para o protagonista fingem uma situação irrealista a fim de atenuar o sentimento de frustração frente ao acometimento causado pela patologia. Ivan que está tendo uma crise existencial, almeja para si a vitalidade dos demais, desta forma trazendo questionamentos como: “ Mas o que é isso? Para que? Não pode ser. A vida não pode ser assim sem sentido, neste caso, para que morrer, e ainda morrer sofrendo? Alguma coisa não está certa” (p.67).

No decorrer Ivan Ilitch, conhece Guerássim, um camponês analfabeto destinado a ser seu cuidador, executando os procedimentos que o ato de cuidar exige como higienização, alimentação, posicionamento e atividades. Ilitch dormia cada vez menos, davam-lhe ópio e começaram a injetar-lhe morfina. Mas isto não o aliviava, descobriu que ao erguer suas pernas para cima aliviava a dor, uma vez que erguidas pelo cuidador criou um vínculo entre eles. A princípio, Ivan ficava constrangido “ Isto é desagradável para você, penso eu. Desculpe. Eu não posso”. Guerássim diz: “Imagine, com os olhos cintilantes e arreganhou os dentes jovens e brancos” (p.54)

Destarte a conexão cuidador/paciente, dado em um momento essencial no qual Ivan se sentia solitário, triste e sem a compreensão de seus familiares ele sentia-se tão bem com Guerássim que ele não queria deixá-lo. O cuidador fazia seu trabalho com leveza, de bom grado, com simplicidade e uma bondade que deixava Ivan Ilitch comovido. Sendo Guerássim o único a compreendê-lo e a compadecer-se dele. Ocorrendo uma conexão na qual proporcionou estágios de suavidade neste fim de vida. Assim as reflexões de Ivan sobre vida doença e morte, seus conflitos de relacionamentos suas relações conflituosas questionam os pontos chave de sua própria existência aquilo que foi verdadeiro segundo sua perspectiva.

Referências

CECILIO, Luiz Carlos de Oliveira. A morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstói: elementos para se pensar as múltiplas dimensões da gestão do cuidado. Interface-Comunicação, Saúde, Educação, v. 13, p. 545-555, 2009.

 

TOLSTÓI, L. A Morte De Ivan Ilitch: 2ª. Ed. São Paulo: Editora 34, 2006.

MUDANÇA DE ROTINA: TORNANDO-SE UM CUIDADOR FAMILIAR

Muitas famílias, em um determinado momento de suas vidas experienciam a situação de doença e são confrontadas com a transição para um novo papel: ser cuidador. Logo, as famílias tem que se adaptar a rotina, muitas vezes sem preparação prévia para o cuidado, gerando certa fragilização na família, uma vez que precisa exercer os cuidados de forma intuitiva – pelo menos em um primeiro momento.

O aparecimento da doença em meio familiar, na maioria das vezes conduz o membro doente a uma dependência de cuidados e, essa mudança brusca de rotina gera uma multiplicidade de necessidades e sentimentos muitas vezes contraditórios e antagônicos nos cuidadores, pela tensão, competência necessária e conflitos implicados.

Através do Projeto “Um olhar sobre o cuidador familiar: quem cuida merece ser cuidado” podemos observar as necessidades mais encontradas por esses cuidadores familiares, bem como o perfil em que se encontra mais prevalente na cidade de Pelotas – RS. Tem-se uma prevalência de cuidadores do gênero feminino, na maior parte esposas que não possuem experiências pregressas de cuidado anteriormente ao ter que assumi-lo, sendo suas ocupações: do lar, aposentados e exercendo os cuidados concomitantemente com o trabalho.

Essa transição para o papel de se tornar um cuidador familiar, principalmente de uma pessoa dependente, é um processo complexo para esses cuidadores. Para executar os cuidados o cuidador necessita adquirir novos conhecimentos e habilidades, passando a garantir a execução de tarefas que o doente não é capaz de fazer por si mesmo, bem como higiene pessoal, mobilidade, alimentação. E além dos cuidados com o paciente, os cuidadores têm de continuar a realizar as tarefas diárias que já eram da sua responsabilidade anteriormente: ser mãe, esposa, cozinheira, tentando fazer malabarismos com uma multidão de tarefas, simultaneamente.

Em vista disso, derivam diversas necessidades sendo as mais prevalentes: sobrecarga, tristeza, ansiedade, falta de tempo para si, apoio, depressão, stress e solidão. Esses sentimentos sejam físicos, psíquicos e econômicos necessitam de atenção. É preciso tirar um tempo para respirar, relaxar e descansar. Uma boa noite de sono reduz o estresse, controla o apetite, melhora o humor, ativa a memória e estimula o raciocínio. É preciso sentir-se bem primeiramente para proporcionar de forma tranquila e saudável o bem ao próximo.

É essencial procurar redes de apoio que auxiliem e ajudem a melhorar o bem estar. Em Pelotas temos a Unidade Cuidativa que oportuniza aos cidadãos uma melhora na qualidade de vida. Nela são oferecidas atividades lúdicas, integrativas e complementares que visam aliviar a dor total, física, emocional, social e espiritual. Entre as práticas integrativas e complementares, incluindo arteterapia, plantas medicinais, reiki, meditação e acupuntura. Também atividades de cinema, teatro e música oportunizam pequenas felicidades, ressocialização, resgate de biografias e auto- estima de pacientes e familiares.

Por Cristiane Berwaldt Gowert, Acadêmica de enfermagem UFPEL.