Por Nicole Almeida, setembro de 2026.
O Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo recebeu, no dia 21 de maio, às 16h, a abertura da exposição “Leopoldo Gotuzzo: Vestígios do olhar”, que ocupou a Galeria Luciana até o dia 4 de setembro de 2026. A mostra nasceu do Laboratório de Curadoria, ação de ensino vinculada ao projeto de extensão MALG em Movimento, coordenado pela professora e diretora do museu, Lizângela Torres, e conduzida em conjunto com a professora Thaís Sehn e as estudantes Izabela Zanin, Ana Hernandez e Nicole Almeida.
A exposição buscou apresentar à comunidade pelotense quem foi Leopoldo Gotuzzo, a figura por trás do nome que o museu carrega. Nascido em Pelotas em 1887, filho do casal responsável pelo Hotel Aliança, um dos primeiros e mais requintados hotéis da cidade, Gotuzzo teve ali seu primeiro contato com o desenho, retratando hóspedes e familiares ainda na infância. Reconhecido, ao longo da vida, como um dos mais importantes pintores brasileiros, ele manteve com Pelotas um vínculo que atravessou décadas e distâncias, a ponto de a cidade voltar a recebê-lo como convidado de honra em celebrações e homenagens, um reconhecimento que ajuda a explicar um dos motivos por qual, anos mais tarde, seu nome viria a batizar um museu.
“Vestígios do Olhar” nasce da forma como Gotuzzo se relacionava com aquilo que pintava. Ele foi, antes de tudo, um artista de observação: dedicava horas a olhar com atenção o que estava à sua volta antes de traduzir isso em traço e cor. Suas obras podem ser vistas também como um diário, um registro de tudo o que viveu ao longo de décadas como artista, e são justamente esses registros, os vestígios desse olhar atento, que a exposição convidou o público a percorrer.

Textos presentes na exposição
Texto curatorial
(por Lizângela Torres)
Quem foi Leopoldo Gotuzzo? Essa questão motivou a elaboração desta exposição no âmbito da ação de ensino Laboratório de Curadoria, do projeto de extensão MALG em Movimento, coordenado pela professora e diretora do museu, Lizângela Torres.
Como atividade de ensino, a ação Laboratório de Curadoria acontece com a colaboração de professores e alunos. Com o intuito de propor o conhecimento por meio da prática curatorial, foram desenvolvidas as seguintes etapas que envolvem a criação da exposição: recorte curatorial, pesquisa sobre a vida e a obra do artista, seleção de obras e documentos, expografia, montagem da exposição, design do material gráfico e ação educativa.
Gotuzzo foi um artista da observação: suas obras nos apresentam o resultado de longas horas dedicadas ao olhar. Como registros do vivido, seus desenhos e pinturas contam sua história: as pessoas de seu convívio, as paisagens percorridas, os objetos de seu cotidiano e as etapas de sua formação, por meio de uma linguagem artística baseada no academicismo, que se manteve vívida ao longo de toda a sua trajetória.
Considerado um importante pintor brasileiro, Leopoldo Gotuzzo nasceu em Pelotas, em 1887, cidade onde iniciou sua formação artística nos primeiros anos do século XX. Intensificou sua formação em Roma, dando sequência aos estudos na França, Espanha e Portugal. Ao retornar ao Brasil, estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde viveu até sua morte, em 1983. No entanto, sua relação com Pelotas manteve-se ao longo de toda a vida, por meio de exposições, participações em atividades de ensino da arte na antiga Escola de Belas Artes de Pelotas e sucessivas doações de suas obras, objetivando a formação de um museu dedicado à sua obra e ao ensino da arte.
Dando continuidade ao desejo de Gotuzzo, esta atividade de curadoria pretende ensinar e aprender com o artista e sua obra, investigar sua vida e conhecer as estratégias curatoriais, ao mesmo tempo em que busca contar a história de Leopoldo por meio de suas obras.
Curadoras
Professoras: Lizângela Torres e Thaís Sehn
Estudantes: Ana Hernandez, Izabela Zanin e Nicole Almeida
Pelotas, 18 de maio de 2026.
Gotuzzo e sua cidade natal
(por Thaís Sehn)
Leopoldo nasceu em Pelotas no dia 8 de abril de 1887; foi o terceiro de seis filhos do casal Caetano e Leopoldina Gotuzzo. Seu pai era o proprietário do moderno Hotel Aliança em Pelotas (localizado onde hoje é a galeria Zabaleta), que era o único no país a ter água encanada e serviço telefônico nos quartos, além de conter uma pomposa e requintada galeria de cafés.
Começou a desenhar na infância, possivelmente no hotel de seu pai. Tanto sua família, como amigos, clientes e hóspedes do hotel eram modelos para a captura do seu olhar através do traço. Ainda na adolescência, recebeu um prêmio de distinção em desenho no Colégio Gonzaga e iniciou sua formação artística com o italiano Frederico Trebbi.
Mesmo tendo morado em diferentes lugares do mundo, Pelotas sempre foi um lugar especial para Gotuzzo. Em 1962, quando o artista já tinha 75 anos, foi recebido como convidado de Honra da Prefeitura Municipal na ocasião do aniversário da cidade de Pelotas. Ainda no mesmo ano, fez uma exposição no salão do Grande Hotel e recebeu uma homenagem dos antigos alunos do Colégio Gonzaga. Diante dessa homenagem, confessa:
“Costumo sorrir sempre que me encontro diante do belo. E por que não sorrir agora diante da beleza desta manifestação de bondade e carinho que será a mais bela de minha carreira de artista? Desde que cheguei, sinto uma coisa dentro de mim, que me diz e repete a cada instante: como foi bom ter nascido aqui”
Aperfeiçoamento na Europa
(por Nicole Almeida)
A história de Gotuzzo na Europa começa em 1909, quando, incentivado por ser professor Frederico Trebbi, viaja para Roma, na Itália. Lá ele permanece por cinco anos, de 1909 a 1914, sendo três anos e meio sob a orientação do pintor francês Joseph Noel. Leopoldo comenta que os anos passados na Itália foram dedicados exclusivamente aos estudos da arte e, após esse período, muda-se para Madri, Espanha.
Em 1915, ele decide que sua arte já estava madura o suficiente e começa a participar de salões de arte. O primeiro deles ocorre no Rio de Janeiro, onde recebeu medalhas de bronze, prata e ouro. Nessa mesma época, envia obras para o Salão Oficial de Belas Artes, também no Rio de Janeiro, onde é premiado com medalhas de bronze e de honra.
Já na França, em 1917, Gotuzzo deixa a cidade de Paris para trabalhar em Montigny-sur-Loing, no interior do país. Algum tempo depois, retorna à capital francesa, porém, em março de 1918, devido a um bombardeio na cidade durante a Primeira Guerra Mundial, decide ir para Lyon e, posteriormente, para os Pirineus Orientais, onde permanece por alguns meses. No final de 1918, retorna ao Brasil saindo de Barcelona a bordo do navio “El Infanta Isabel”.
Algum tempo depois, já em 1927, ele retorna à Europa, desta vez fixando-se em Portugal, onde permanece por dois anos. Segundo uma nota do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, Leopoldo decide voltar à Europa para “estudos e aperfeiçoamento”. Esse período fica marcado por uma grande produção de obras de paisagens, além de continuar participando ativamente de exposições em Portugal.
Patrono da Escola de Belas Artes
(por Izabela Zanin)
A relação de Leopoldo Gotuzzo com a Escola de Belas Artes de Pelotas surgiu graças à ligação afetiva com Marina de Moraes Pires, também artista e fundadora da instituição. A amizade, que surgiu em meio às aulas de desenho com Frederico Trebbi, somada à relevância da obra do pintor para Pelotas, contribuiu para tornar Gotuzzo patrono da então Escola de Belas Artes (EBA).
A primeira doação do artista para à Escola ocorreu em 1949 com a obra “A Espanhola”. Mais tarde, em 1955, Gotuzzo realizou uma curadoria de 16 obras para serem doadas, cujo conjunto parecia compor uma autobiografia do artista, então com 68 anos.
A instituição concedeu uma sala para essa coleção e a chamava de “Museu Gotuzzo”, em conformidade com o pedido feito pelo próprio artista. Gotuzzo desejava que suas obras fossem expostas e servissem de modelo aos alunos; queria também que fossem cuidadas e mantidas pelo maior tempo possível.
Outra amiga de longa data, bastante importante para a conexão do pintor com a EBA, foi Luciana Renck Reis. Como professora da Escola , ela foi a responsável por organizar um ateliê de restauro para cuidar das obras de Gotuzzo.
Em 1982, ao ir pessoalmente ao Rio de Janeiro noticiar ao artista a finalização do restauro de suas obras, Luciana prometeu a Gotuzzo se empenhar na criação do museu – hoje o MALG -, que só viria a abrir suas portas oficialmente em 1986, três anos depois da morte do artista.
Rio de Janeiro
(por Ana Hernandez)
Em 1920, após mais de uma temporada na Europa, Leopoldo Gotuzzo se estabelece no Rio de Janeiro, no bairro do Catete, local do seu primeiro atelier.
Já em 1922, recebeu o prêmio medalha de ouro no Salão de Belas Artes do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, na década de 1930, arremata um prédio no bairro Santa Teresa, onde instala o seu atelier. Ali reside com seus irmãos e irmãs até os anos 1960, quando vende o casarão e aluga um apartamento no bairro Botafogo.
“Depois de um ano sem pintar, tenho podido fazer algumas coisas aproveitando a temporada de uvas, que é motivo de que gosto. Pude verificar com surpresa, que continuo em forma e que o resultado obtido é melhor que a habitual postura de um velhote (sou modesto!) de 80 anos.”
(Carta 34, 12 de março de 1967)
Nos seus últimos anos de vida, organizou um último lote de doação contendo pinturas, desenhos, fotografias, cartas, cadernos de anotação, paletas de tinta, pincéis, livros, recortes de jornais, cavaletes e diversos objetos pessoais pessoais, deixando-os em testamento para a Escola de Belas Artes, atual Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas.
Gotuzzo deu seu último suspiro no dia 11 de abril de 1983, aos 96 anos, em seu apartamento no bairro Botafogo, Rio de Janeiro.
Bibliografia consultada
FONSECA, Letícia Beck. Mediações em arte : narrativas no Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo / Rogerio Vanderlei de Lima Trindade, orientador. Pelotas, 2023. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Centro de Artes, Universidade Federal de Pelotas, 2023.
SCHWONKE, Raquel Santos. Leopoldo Gotuzzo e a constituição do Malg (1887-1986) / Giana Lange do Amaral, orientadora. Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 2018. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal de Pelotas, 2018.
SCHWONKE, Helena Santos. Um mundo de saudades : memórias em cartas do artista Leopoldo Gotuzzo / Carla Rodrigues Gastaud, orientadora. Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 2020. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural, Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, 2020.
TEIXEIRA, Larissa Plamer. A trajetória do Hotel Aliança em Pelotas no início do século XX. Anais do III Encontro de Pesquisas Históricas – PPGH/PUCRS. Porto Alegre, 2016. p.510-522.
CURTINAZ, Eduardo Silva ; DUARTE, Renata; MÜLLER, Dalila. Os hotéis no Almanach de Pelotas: análise de seus anúncios. Ateliê do Turismo, Campo Grande – MS, (6)2, p. 187-205, jul-dez 2022.
LACERDA, Claudia Fontoura. História da Conservação e Restauro: estudo sobre o restauro das obras de Leopoldo Gotuzzo na década de 80 em Pelotas, RS. Orientador: Prof. Dr. Roberto Heiden. 2013. TCC (Graduação) – Curso de Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis, Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2013
Ficha técnica da exposição
GALERIA LUCIANA
EXPOSIÇÃO
LEOPOLDO GOTUZZO:
Vestígios do olhar
LABORATÓRIO DE CURADORIA
Lizângela Torres
Thaís Sehn
Izabela Zanin
Ana Hernandez
Nicole Almeida
EXPOGRAFIA
Lizângela Torres
Nicole Almeida
Izabela Zanin
Ana Hernandez
DESIGN
Thaís Sehn
Izabela Zanin
Nicole Almeida
MONTAGEM
Lizângela Torres
Thaís Sehn
Ana Hernandez
Izabela Zanin
Nicole Almeida
Suinfra: Milton Nunes Junior; Alef Vargas Soares Furtado; Selomar Cardoso Xavier
Luiz Carlos Ribeiro Rocha
PINTURA
Escobar e Jonas
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